sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Pela importância dos temas menores

Segundo Anne Sauvagnargues ao introduzir "Kafka: por uma literatura menor" de Deleuze e Guattari, uma obra é uma espécie de "toca, espaço de habitação, de deambulação e de reserva nutritiva, uma máquina política e experimental que transforma realmente nossas experiências". De fato, ao lidar com uma produção, seja ela acadêmica ou não, lidamos com um duplo acontecimento na ordem da subjetividade: a imanência de uma aposta política, que pode ser literalmente de vida e o próprio deslocamento das nossas experiências enquanto sujeitos. É sobre esses dois pontos que gostaria de tratar aqui de modo bastante tímido e breve.

Ainda impactada pela dinâmica que uma recente apresentação numa aula do mestrado, venho defender a importância dos temas menores. Para Deleuze e Guattari (2015), "uma literatura menor não é a de uma língua menor, mas antes a que uma minoria faz em uma língua maior. Mas a primeira característica, de toda maneira é que nela, a língua é afetada de um forte coeficiente de desterritorialização" (p.33). Coeficientes de desterritorializandoção se operacionalizam, ao meu ver, na própria dinâmica dos abalos. Por que eu digo isso? Tentarei sintetizar para depois retomar. Apresentava um trabalho onde eu recuperava dados de um projeto que visa mapear a violência contra pessoas trans em nível global (a referência você pode ver aqui), explicava de forma resumida o método que essa ONG utilizava para produzir essa cartografia. Em linhas gerais, o TGEU colhe esses dados a partir das noticias de jornal sobre os assassinatos das pessoas trans ao redor do mundo. Quando questionada por um colega, de maneira bastante pertinente a princípio, sobre uma possível arbitrariedade na coleta dos dados, uma vez que, segundo ele haveria desníveis na imprensa mundial. De fato há desnível, nisso concordamos. Contudo, ao tentar contra-argumentar fui novamente interrompida. Ele dizia algo com esse sentido; "através desse método o Brasil vai ser sempre o líder em mortes das pessoas trans". Eu digo que sim, que o Brasil é o líder e que ao decorrer da minha explanação mostraria os motivos e volto um ou dois slides onde trazia uma referência de uma pesquisadora com sólida pesquisa na área de direitos humanos que dizia, entre outras coisa, o seguinte; "países com nível SEMELHANTE de liberdade de impressa e mobilização social". Novamente sou interrompida e ele diz algo próximo a isto "há sensacionalismo na imprensa brasileira, sendo assim os dados do Brasil serão sempre maiores". A partir daí iniciou um bate-boca desnecessário e completamente desrespeitoso de sua parte. Mas eu gostaria de me ater em alguns pontos que me parecem pertinentes para os temas, sejam da literatura ou não, menores.

O primeiro deles é que nível semelhante não significa nível igual ou mesmo nível, algo que eu gostaria de ter explicado melhor porque esse é um ponto crucial, extremamente bem explicado no relatório do TGEU. Mas quando eu falo "sim, deixa eu concluir, depois eu voltar a esse ponto e você fala", ouço de forma grosseira e machista que "não, você VAI ME OUVIR porque você me interrompe e é um direito meu falar, você não tinha nem que estar nesse lugar", entre outras coisas. E conclui o que tinha de dizer na marra mesmo, no típico autoritarismo patriarcal tão naturalizado socialmente. Ouço e revido de modo categórico: "quando um homem assume que uma mulher DEVE ouví-lo, isso evidencia um machismo e agora é você quem vai me ouvir", e continuo a dizer o que eu tinha que dizer. O fato é que eu não o proibi de falar, pelo contrário, apenas disse que eu falaria de algum modo dessas questões que ele trazia e que ele PODERIA contribuir, se assim fosse, no momento em que eu tratasse da questão, justamente dois ou três slides adiante. Também disse que quando eu falava jamais para desqualificar como ele claramente fazia. Se sua questão era problematizar o papel da mídia, que acho justo e concordei, antes de mais nada era preciso justamente problematizar o papel da cultura que legitima e naturaliza a violência contra milhares e milhares de pessoas LGBT, além disso, aqui eu chego no segundo ponto, liberdade de imprensa também não é a mesma coisa que manipulação de dados pela imprensa, justamente porque a imprensa, sobretudo a nacional, não tem qualquer interesse em prestigiar de forma positiva as existências trans dada as dinâmicos culturais que normatização nossas práxis. Aliás, eu estava tratando justamente da violência das normas SOCIALMENTE INSTITUÍDAS que condicionam as subjetividades trans, nesse sentido - no sentido criminológico, me interessava analisar o peso das normas sobre esses corpos, e não o peso da mídia numa produção discursiva e imagética. Ou seja, por mais que seja interessante analisar o papel da mídia, meu recorte não privilegiava tal dinâmica.

Através dessa ótica surge um terceiro ponto, a dizer a própria dinâmica dessa norma na manutenção do privilégio patriarcal e reivindicação do lugar de fala. É evidente que numa aula a troca de ideias é importante e fundamental, contudo quando alguém que impor de modo autoritário sua verdade, estamos reterritorializando um status quo que historicamente privilegiou os homens. Se ele fizesse um esforço minimamente cognitivo, teria percebido que o que estava sendo apresentado ali era apenas uma parte de um todo: um mapa do TGEU, onde no extenso relatório apontava item por item as dificuldades de coletas de dados dada as dinâmicas culturais de cada país. Concordo que a imprensa brasileira é sensacionalista, mas é graças a esse "sensacionalismo" que temos minimamente algum dado, e eu não tenho o menor interesse em defender a imprensa nacional. Além disso, como falei, é evidente que os dados de outros países poderiam vir a ser maiores, mas isso também é abordado sistematicamente em TODOS os relatórios do TGEU, mas o desejo em agenciar seu privilégio de fala não me permitiu concluir da forma como queria minha explicação. E justamente nesse último ponto que gostaria estabelecer um link coma  citação de Deleuze e Guattari, sobre os coeficientes de desterritorialização e a política menor. Para Deleuze e Guattari uma das características das "literaturas menores" é carga política delas. "Tudo nelas é político" (p.36). Quando eu apresento um tema simbolicamente entendido como "menor" há uma espécie de fluxo de intensidades contínuo que agencia as micropolíticas em operação. É justamente a micropolítica em sua linha de intensidade que sacodem e desestruturam o outro de algum modo. Os dados apresentados desestruturam justamente porque operam a partir do que é menor e quando esse menor é enunciado por uma existência igualmente menor que reclama esse lugar, o incomodo é imediato e assim tudo toma um valor coletivo. Não entenda isso como vitimismo, mas como resistência. Um agenciamento coletivo de enunciação que passa, de algum modo em uníssono, denunciar as dinâmicas de opressão simbolicamente circunscritas na norma. Acontece que o simbólico também pode ser material e como disse na apresentação "no universo da criminologia crítica os processos subjetivos tornam-se extremamente objetivos uma vez que produzem nos corpos efeitos muito concretos".

Está dada aí a importância dos temas menores, eles nos desestabilizam, nos deslocam. A força dos enunciados menores é a própria micropolítica. Eu poderia tratar de outras tantas questões, inclusive da própria mídia, mas meu foco era justamente produzir uma reflexão a partir das normas que aprisionam existências trans* e que literalmente as matam! Recentemente uma colega transvestigenere postou em sua timeline que havia sofrido tentativas de homicídio, não era a primeira vez que a tentavam matar (veja aqui). Essa colega é membro de um projeto social muito importante mas considerado menor porque lida com vidas "menores". A própria academia opera a partir desse lugar que fundamentalmente desqualifica o que é entendido como menor. A questão que se coloca é, e aqui recorro a Bourdieu, é justamente romper com o comum e operar a partir de um lugar onde violência simbólica seja minada com posicionamentos em prol de qualificar o que é menor. Uma utopia? Talvez, mas eu ainda sou permitida a sonhar.

Por fim, penso que é importante resgatar aqui necessidade de se refletir sobre o lugar de fala e os teus menores, agenciando assim as micropolíticas. Sugiro a leitura do Geledés clicando aqui. A tentativa de desqualificação de um dado menor, o que em certa medida compõe o repertório do contraditorium, é praticamente inevitável quando tratamos de violências já naturalizadas socialmente. A questão que se coloca é, ao meu ver, o auto questionamento. De que modo posso comprovar a veracidade do que está sendo dito? Os dados citados tem refências que podem ser consultadas? A minha contra-argumentação está baseada em quê? Eu entendo do que está sendo tratado ou lido com o senso-comum? Qual é o fator de a(fe)tivação que agencia a minha captura? Enfim, o risco do "tiro às cegas" é justamente a violência simbólica que se materializa nos enunciados inflados pelo ego e que não operam em outro lugar a não ser o senso-comum. De todo modo, o percurso dos temas menores jamais serão em campos floridos, mas sempre em terrenos arenosos, densos e inseguros. A aposta é sempre uma aposta pela vida, por uma desterritorialização que possa agenciar uma linha de fuga, que possa afetar linhas de intensidades. Ou seja, o menor opera sempre na dobra de uma dupla região de intensidades cujas pinças buscam capturar possíveis. Encontrar a imanência do menor, assim, é sempre um processo cartográfico.

A verdade é que o debate sobre o menor sempre engravida a micropolítica e as dinâmicas da linha de vida que se agenciam. O menor é sempre uma eterna aposta...

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