sexta-feira, 9 de setembro de 2016

É preciso descolonizar o conhecimento

Alguns anos atrás, no início da minha graduação, eu participei do meu primeiro congresso internacional. O evento reunia intelectuais do mundo inteiro para pensar a "queerificação" dos paradigmas. Aquele evento foi particularmente interessante para eu começar a refletir o tipo de ambiente ao qual eu estava entrando: a academia. Eu não conseguia entender o frissom em torno de alguma "celebridades" acadêmicas. Num primeiro momento momento fiz analogia, grosseira confesso, com artistas os quais ouvia músicas e que ditavam, de certo modo, tendências, o que é igualmente inútil. Passei, como os demais espectadores, a glamourizar a imagem do intelectual. Frases como: "uau, que massa! Estou ao lado da bam bam bam da teoria queer no Brasil!" ou  "Nossa, que incrível o fulano de tal assinou meu livro!" ou ainda ouvia as amigas me chamando e comentando "olha, Mariah! Aquele ali é fulano tal, o nome da universidade XYZ da Inglaterra"! Tudo aquilo era novo e fascinante para uma jovem estudante recém chegada à universidade.

Todo esse ambiente me levou a refletir sobre a minha insignificância. Uma rélis estudante de história da arte que acabara de entrar na faculdade e que estava ali única e exclusivamente para ganhar um trocado! Passei a notar que a academia operava na mesma lógica hierárquica em voga socialmente. O mesmo modus operandi, a mesma fábrica de ilusões sustentada pela titulação e pelo diploma! No segundo dia de evento, eu comecei a notar que esses "ídolos" adoravam a espetacularização que se construía em torno deles! Pausa para uma fotografia ali, um autógrafo aqui, alguém grita ao fundo: "gostaria de parabenizar pelo seu livro X, eu li recentemente. Está incrível!". Mas a ficha só caiu de verdade quando um famoso intelectual ao realizar o credenciamento foi extremamente desprezível conosco. Um colega, à mesa ao meu lado, o pediu para autografar seu mais novo livro e levou como resposta um sonoro não. Metros a diante, esse mesmo "famoso intelectual" encontra um dos organizadores do evento e, pasmem, autografa uma cópia de seu livro! O que nos diferenciava naquela ocasião? O que diferenciava o organizador para os mesários? Nós éramos jovens estudantes deslumbrados com um universo novo que acabara de se mostrar hipócrita! Acabara de escancarar suas inconsistências e suas arbitrariedades! O outro era um renomado pesquisador com diversas publicações e reconhecimento igual ao "famoso ídolo" intelectual, ou seja, eram iguais.

Minutos depois, fui convidada a trocar de posição e auxiliar nas salas onde ocorriam os debates. A sala para qual me dirigi estava completamente lotada, os grandes nomes da sociologia brasileira lá palestravam sobre suas mais recentes pesquisas. Comecei a perceber, e me enojar, o ufanismo que se construiu em torno daquelas pesquisas que nada mais faziam que narrar os outros. A alteridade é sistematicamente negligenciada pela academia preocupada com os dados, os métodos, o rigor científico, a validação dos argumentos, etc., etc., etc... Em outras palavras, literalmente se produzia uma alteridade! O pesquisador, o "grande" pesquisador, normalmente é aquele que é capaz de estabelecer uma espécie de verdade sobre os sujeitos, aqueles que são tratados como objeto. Aqueles que são cortados temporalmente, são categorizados, racionalizados, subjetivados, por fim subalternizados em função dos objetivos da pesquisa e da própria imagem do intelectual.
O intelectual é o intelectual. É aquele que racionaliza e constrói verdades e narrativas sobre outras experiências. É aquele que não se entende como parte da alteridade. Que normalmente não reconhece sua posição de "superioridade" e não critica seu poder sobre aquele objeto, ou melhor, sobre o outro que se constrói. Eu observava calada, por vezes anotava coisas, por vezes achava absurdo certos conceitos ou explicações. Não poderia falar, minha voz jamais seria legitimada naquele espaço. Jamais o foi socialmente. Calada observava uma encenação de verdade com os "ídolos" e seu local privilegiado de fala e o grande grupo de fãs, desesperados para compreender uma teoria tola que em tese não mudaria em nada suas vidas, a não ser pelo fato que os ajudaria a compor suas teses e que mais tarde seriam única e exclusivamente compartilhada por iguais, obtendo-se assim a tão glamourizada titulação. Qual é o efeito prático disso a não ser um papel sobre o qual se escreve um título? O que isso de fato mudaria para aquelas pessoas que foram estudadas mas sequer poderiam compartilhar aquele mesmo espaço? Tudo aquilo me pareceu bastante estranho. Os ídolos só repetiam uma operação que me parecia mecanizada e funcionalista do próprio status quo da academia. Um ritual que privilegia alguns a partir da exploração das subjetividades de outros. Isso é escancarar a assimetria, representa um eco do modus operandi da própria sociedade.Essa mesma sociedade que preconiza o diploma, que preconiza as aparências, que preconiza o status quo e cristaliza hierarquias! Não há conhecimento que não seja político e ao mesmo tempo social - o social é político. Há, contudo, uma espécie de "romantização" exacerbada do conhecimento. É preciso que nós, todos nós, descolonizemos o conhecimento.

Um ano mais tarde eu me inscrevi para a disciplina de criminologia crítica. Essa disciplina acontecia no interior do curso de psicologia que tinha lugar na zona sul do Rio de Janeiro. O curso era frequentado boa parte por ilustres membros da classe média brasileira. Aquelas mesmas figuras que os mesmo intelectuais insistem em criticar (mesmo fazendo parte dela): brancos, alguns com carros presenteados pelos pais, que exibiam suas fotos de natal em Nova Iorque, com tênis de marca, roupas de grife, etc. Eu aos poucos passei a acostumar com essa nova realidade. Mas sempre estranhei o meu lugar ali. Eu era de fato aceita?! "moreninha" (como alguns me chamavam, transexual, "alta demais" (alguns insistiam em marcar isso), favelada (embora não vivesse mais na favela)... aquele era o meu lugar?! Talvez não, mas era um lugar em fluxo, assim era um lugar possível. Logo, o lugar no qual me inseri como uma intrusa. As exposições eram sempre as mesmas, o tema se repetia: o negro, o pobre, o homossexual, a favela... tudo isso construía em mim uma recusa aquele ambiente mais forte que eu. Certo dia resolvi me manifestar ao ouvir a exposição de uma doutoranda. A menina, um ilustre membro da classe média, falava sobre os bailes funks da favela. Toda narrativa de "coitadice" dos moradores, das violências policiais (que de fato ocorriam)... bla blá blá, até chega ao comentário sobre o qual ela dizia que havia ido na favela para um baile funk (que desconfio que era um pesquisa de campo) e disse que se sentiu "até bastante segura". Irritei-me, oras! "Por quê vocês não vão estudar os moradores do Leblon? Verificar como vivem? Verificar seu hábitos? Porque não vão verificar a segurança aqui na zona sul? Por que não vão conversar com as madames que mandam suas empregadas passear com os cachorros no calçadão?". Há um silêncio brutal. Um constrangimento brutal. Mas não pense que acontecia coisas diferentes no fundão, nas aulas de história da arte. A academia é uma ilusão necessária para efetivação social. Triste realidade a da sociedade que se constrói a partir de estruturas racionais e civilizatórias em busca do próprio espaço social. Triste a minha realidade. Triste a nossa realidade! Que a enfrentemos criticamente!

O conhecimento deveria estar à serviço da sociedade e disponível à sociedade. Não deveria jamais fabricar ídolos. Os mitos fabricados pelo conhecimento solidificam papéis sociais, posições sociais e ecoam a perversidade da academia, mais que isso; ecoam as perversidades sociais e a ilusão da meritocracia. O que adianta criar um grande projeto, com com financiamento, se as "pessoas-objetos" desse projeto não são capazes de se empoderar?! O que adianta escrever grandes livros se eles não vão estar acessíveis a todos? O que adianta radicalizar os conceitos se os mesmos conceitos nos aprisionarão em categorias?! Que conhecimento é esse que empodera quem produz ao invés de empoderar quem é produzido? Que conhecimento é esse que estabelece,cristaliza e reverbera hierarquias?! Que conhecimento é esse que constrói mitos ou ídolos?! É preciso urgentemente descolonizar o conhecimento caso contrário continuaremos construindo paredes intransponíveis!

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