quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Estamos assistindo um retorno à iconoclastia? Breves reflexões.

Alguns meses atrás, em Brasília, a polícia reprimiu e levou para delegacia o artista Maikon Kempinski durante a realização da performance DNA de DAN em frente ao Museu Nacional da República. A performance fazia parte de uma mostra promovida pelo SESC e a justificativa da PM brasiliense se limitou à nudez do artista dentro de uma bola de plástico supostamente denunciada por transeuntes.

Em 2011 estudantes, historiadores, artistas e críticos de arte acompanharam estarrecidos o veto ao trabalho da fotógrafa Nan Goldin por parte do Oi Futuro, no Rio de Janeiro. A justifica da companhia foi a de que a série de imagens intitulada Balada da dependência sexual continha material sexualmente explícito, no entanto, o Oi Futuro "contratou" a exposição ainda em 2010, o que daria tempo de sobra de analisar as imagens. Seis anos depois, e um golpe de Estado no meio do caminho, temos outra interdição a uma exposição artística baseada em pressupostos morais. Fortes comoções se instaurou entre aqueles que apoiam e os que são contra o veto. A exposição Queermuseu: cartografias da diferença na arte brasileira foi cancelada pelo Santander Cultural, em Porto Alegre, depois de pressões de um grupelho de extrema direita. A justificativa foi semelhante a dada pelo Oi Futuro; o conteúdo sexual das obras. 

A grande questão que se coloca diante do entrave moral, assim digamos, é que as grandes corporações são quem patrocinam e fazem circular mostras e eventos culturais e, consequentemente, são as mesmas que acabam decidindo o que o público, em geral, assistirá de acordo com uma série de questões sociais, fiscais, mercadológicas etc., entre as quais se inscrevem com força a dinâmica do capitalismo e da produção de subjetividade.

O que há de comum nessas interdições? Por que a arte contemporânea ainda é tão tão pouco compreendida? E porque temas que envolvem o corpo, a sexualidade e a diversidade (de gênero, sexual, étnica, etc.) ainda sofre tanta resistência? Certamente não pretendo esgotar o assunto nesse breve texto dada a complexidade do tema e dilatação histórica e temporal ao qual na se inscreve a história da arte. Eu busco levantar algumas hipóteses baseada em muitas e muitas leituras em diferentes áreas do conhecimento cujo tema da arte foi tomado por diferentes abordagens conceituais/ epistemológicas, estéticas, políticas e sociais.  

A primeira grande questão que me vem à cabeça é que a arte não tem qualquer compromisso em responder questões sociais e/ou políticas. Ao contrário, ela interroga questões sociais e políticas tendo como "pano de fundo" um problema estético. Portanto, ela faz perguntas que irão disparar o debate social em diferentes níveis. Nesse sentido, nos três casos que apresentei brevemente a arte cumpriu fielmente seu papel histórico e social; fazer perguntas sem necessariamente ter que respondê-las tendo como aporte conceitual distintos mecanismos estéticos. De modo que a arte torna-se um agenciamento filosófico, político e social de grandes proporções, como potência.  

A segunda questão, e aqui gostaria de me deter um tanto mais, é que dada a reatividade moral que surgiu em oposição às mostras, o que de fato se efetuou é semelhante a um dispositivo tóxico que nos remete à iconoclastia. Para pensar isso me proponho abordar de modo ligeiro a história do iconoclasmo, discutir rapidamente noções de gênero e sexualidade e por fim pensar as dinâmicas capitalistas de subjetivação que se efetuam em nossos corpos com certa toxidade especialmente a partir do advento do colonialismo.  

Arlindo Machado em seu livro O quarto iconoclasmo e ouros ensaios hereges nos apresenta de maneira sucinta os momentos na história da humanidade em que imagens foram interditadas. Para o autor, um primeiro momento de interdição das imagens ocorreu ainda na antiguidade - nas culturas judaico-cristãs, conforme registrado no Velho Testamento - tendo como referência o discurso de Moisés:
Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que há em cima do céu, nem embaixo da terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te curvarás diante delas, nem as servirás (Êxodo, 20, 4-5 apud Machado, 2001). O interdito bíblico ainda hoje é respeitado, segundo Arlindo Machado, pelas correntes mais ortodoxas do judaísmo. No entanto, poucos se dão conta que o enunciado de Moisés se dá durante um rompante de fúria ao ver seu povo admirando a imagem de um bezerro no deserto do Sinai. Na Grécia antiga o interdito acontece com algumas particularidades que devem ser observadas do ponto de vista filosófico. É que na Grécia Antiga, de acordo com Arlindo Machado (2001), as imagens não foram interditadas, "mas o iconoclasmo tomou corpo no plano intelectual" (p. 9). Platão foi o filósofo que pensou as imagem a partir de "mecanismos iconoclastas", para ele um artista é um "quimérico", ou seja, alguém que produz uma ilusão, algo que imita a aparência das coisas sem necessariamente submete-la à verdade que, para Platão, reside no "mundo das ideais", em linhas gerais. 

Entretanto um segundo ciclo do iconoclasmo ocorre durante o Império Bizantino por volta dos séculos XVIII e IX, tendo como referência a perseguição e execução de adeptos da iconofilia e da iconolatria bem como a destruição de imagens em praça pública. Um terceiro momento ocorre por volta do século XVI durante a Reforma Protestante. Tanto aqui quanto no ciclo anterior, o que se observou foi uma espécie de sobrevivência do Platonismo somado ao modelo moralizante-messiânico de conduta institucional/Estatal.  Para Arlindo Machado (2001), "esses três ciclos iconoclastas se ancoraram numa crença inabalável no poder, na superioridade e na transcendência da palavra, sobretudo da palavra escrita, e nesse sentido não é inteiramente descabido caracterizar o iconoclasmo como uma espécie de 'literolatria': o culto do livro e da letra" (p. 11). 

O quarto iconoclasmo acontece graças à manutenção do neoplatonismo. Para Machado, a interdição das imagens ocorre nos campos de produção e crítica do saber por intelectuais que condenam "massas populares reunidas ao redor de aparelhos de televisão" (p.15), mas não se limita a isso. Para o autor, essa outra forma de iconoclasmo se baseia em uma série de pressupostos dentre os quais estão a ampla disseminação de imagens em nossos tempos ("civilização das imagens"). Ou seja, para esses novos iconoclastas, nos conta Machado, "a partir do século XX, [as imagens] começaram a se multiplicar em progressão geométrica: elas estão presentes em todos os lugares, invadem nossa vida cotidiana, inclusive a mais íntima, influenciam nossa práxis com sua pregnância ideológica, subtraem a civilização da escrita, erradicam o gosto pela leitura e anunciam um novo analfabetismo e a morte da palavra" (p.16). Nesse sentido, o iconoclasmo representa também um retorno à noção platônica dos simulacros, e é sobre esse ponto que gostaria de me deter.

Ora, em certo sentido o que ocorre com a interdição das mostras supracitadas tem referência direta com o que Arlindo Machado está nos informando. No entanto, há elementos outros que circunscrevem uma outra forma de iconoclasmo e que se inscrevem no tipo de produção de subjetividade a partir do advento da era moderna (não confundir com modernismo). Entretanto, eu não diria que se trata de um "novo ciclo", desta vez no século XXI, mas de uma retomada dos quatro ciclos anteriores com pitadas reativas de neoplatonismo, fluxos de produção de subjetividade e reatualização das forças morais-intitucionais-religiosas (coloniais) tendo como aporte a "máquina" capitalismo. De fato, a "produção de sentido" na contemporaneidade é permeada por imagens, sobretudo com o "fenômeno" internet que transformou drasticamente nossas formas de nos relacionar, comunicar e informar. Contudo, as imagens constituem um dos muitos, para não dizer infinitos, pontos dessa grande estrutura semiótica a qual chamamos de capitalismo. Essa certamente é uma discussão que demandaria uma reflexão mais apurada da questão, peço desculpas por não me aprofundar sobremaneira, mas a questão é justamente trazer elementos para que possamos pensar tais dinâmicas reativas que têm nos capturado.

Como eu mencionei no início desse texto, as grandes mostras estão condicionas ao poder econômico-institucional  das grandes corporações. Essas empresas, por sua vez, estão alinhadas a um modelo de pensamento que tem como princípio o lucro e muitas vezes abdicam de qualquer compromisso ético, o noticiário da última década está recheado de exemplos (Nan Goldin deu uma entrevista - ver aqui - à época da interdição de sua mostra falando um pouco disso). Em linhas gerais, o que norteia a práxis dessas empresas é uma espécie de bússola moral porque a produção de subjetividade (capitalística) segue os fluxos de dinâmicas histórico-coloniais que estruturaram o capitalismo como tal, como "máquina hegemônica" que, embora permita linhas de fuga, sempre se efetua em agenciamentos outros que buscam nortear nossa conduta social, seja através da produção desejo/consumo, seja nas relações afetivas, seja na efetivação de paradigmas, etc. Maurizio Lazzarato (2014), seguindo o pensamento de Deleuze e Guattari, talvez tenha sido o filósofo que melhor demostrou tais questões na política de produção de subjetividade em seu livro signos, máquinas e subjetividades.

Com efeito, a mediação imagética (iconográfica) no âmbito da cultura estará inevitavelmente condicionada ao modelo institucional. O âmbito institucional é, deste modo, colonial por excelência em diversos aspectos. Engana-se quem acredita que tais interdições só vem ocorrendo recentemente, artistas como Robert Mapplethorpe e Andres Serrano já haviam experimentando a censura por terem suas imagens consideradas indecentes já na década de 1980, para ficar só em alguns exemplos. No entanto, o que tem ocorrido com cada vez mais frequência está associado a uma continuidade e tentativa de manutenção do status quo que, em linhas gerais, se posiciona contra a legitimação da multidão queer (Preciado, 2011). As semióticas (Lazzarato, 2014) que se produzem na arena política, por exemplo, giram em torno da noção apocalíptica da dita "ideologia de gênero". Isso certamente nos remete à noção platônica de simulacro e, simbolicamente, o que coloca em disputa reside no âmbito da velha dicotomia "Nós" e "Outros", tendo como aporte a produção de alteridade (uma política ao mesmo tempo de subjetivação e dessubjetivação). Em suma, o Outro (a alteridade) é sempre um cópia mal produzida de um referencial idealizado, limitado ao mundo das ideais.

Essa "mediação" assume contornos multidimensionais num mundo onde o "Outro" jamais poderá ser o "Nós", os cidadãos de bem alinhados com a moral e bons costumes, os protetores infalíveis das criancinhas (mesmo quando a pedofilia - argumento também utilizado para as interdições - seja comprovadamente uma questão sobretudo moral/religiosa e familiar). Assim,  as estratégias que buscam legitimar e efetivar a manutenção do status quo tem se tornado cada vez mais reativas uma vez que além de filtrar o conteúdo que teremos acesso (nas escolas, centros culturais, etc.), buscam limitar inclusive nosso poder de fala. Grada Kilomba (2010) em A máscara demostra as formas pelas quais o falar (e consequentemente o se expressar) foi capturado pelo modelo colonial de forma extremamente violenta através do modelo escravagista e objetos cuja a simbologia buscava uma espécie de docilização dos corpos para mecanização e produtividade da exploração da força de trabalho. Atualmente nós podemos falar, mas somente aquilo que produz inteligibilidade hegemônica ao cispatriarcado, ou seja, aquele que tem interesse e possa ser mediado por quem detém o lócus do poder. Cito um exemplo; pessoas trans são, em geral, convocadas a falar sempre a partir de uma noção de alteridade. As perguntas direcionadas a elas normalmente giram sempre em torno do "quando foi que você percebeu que era diferente?" ou "como foi ter que lidar com a violência e exclusão?". Ou seja, parte-se do pressuposto de uma construção de alteridade, uma diferença que será o tempo todo espetacularizada nos diversos meios para se efetuar o domínio simbólico (e bastante objetivo) dos "normais" sobre os "anormais, quando na verdade o processo de constituição de todos os indivíduos [cis ou trans, negros ou brancos, etc.] é socialmente compartilhado em dinâmicas de produção de subjetividade que alimentam  (e se efetivam) na grande máquina de captura (a estrutura social-capitalística) através daquilo que, em linhas gerais, Félix Guattari e Gilles Deleuze trataram como sujeição social e servidão maquínica em Mil Platôs.  

Com efeito, toda diferença é socialmente produzida porque, a rigor, é - dado os fluxos de poder - necessário alimentar as hegemonias históricas, essa é uma condição sine qua non para capitalismo. Realizei todo esse percurso, de maneira bastante superficial, para enfatizar que a noção de simulacro, que sobrevive através de "agenciamentos neoplatônicos", produz, fundamentalmente, uma semiótica do gênero (e da sexualidade) que torna praticamente impossível para as alteridades acessar determinados "locais" de legitimidade. Angela Davis (2016) nos mostra bem, em Mulheres, raça e classe, como isso ocorreu no caso das mulheres negras cuja a dinâmica colonial e escravagista jamais as permitiu acessar o status de seres humanos. Eram coisas, objetos, máquinas reprodutivas... jamais humanas, portanto sempre passíveis de controle. A alteridade é, por assim dizer, aquilo que se busca controlar.

Mas o que isso tem a ver com a interdição das mostras? Tudo! Todas as mostras interditadas buscavam tratar questões de gênero e sexualidade (de modo direto ou indireto), todas as mostras tinham o corpo como aporte estético para "narrar" instâncias/dinâmicas de poder e de subjetivação. É claro, que cada mostra, e consequentemente cada obra, utiliza diferentes estruturas iconográficas (quadro, performance, fotografia, video, etc.) para exprimir uma ideia. Portanto, a interdição não foi propriamente das imagens (um termo geral), mas sim da "imagem" da diversidade em sua forma potente, real, do não-simulacro, daquilo que escapa os domínios da "representação" idealizada. A interdição ocorre limitar as questões que o queer levanta, para limitar o pensamento, a criatividade por isso se inscreve de maneira violentamente reativa. Toda hegemonia é capitalisticamente produzida, trata-se, portanto, de uma efetivação da "marginalidade" a qual a alteridade historicamente foi submetida. Sendo assim, tudo que busque tratar a alteridade emancipando-a, empedrando-a estará inevitavelmente sujeito à reatividade desse modelo histórico-institucional. Seja na "imagem" ou não. São nesses limites em que se inscrevem a reatualização do iconoclasmo, um retorno aos quatro grandes eixos históricos tendo dessa vez o corpo, o gênero e a sexualidade com os "monstros" a ser combatidos. O corpo só se tornará inteligível e representável se for capaz de efetivar-se na lógica hegemônica que invariavelmente condiciona gênero e sexualidade cuja a síntese é a típica família branca, cisheterossexual e feliz nas propagandas de margarina. Os domínios agora (ou sempre) são os da "corpoclastia", ou melhor, os da "alteroclastia"; das imagens que correspondem a um singelo sintoma desses agenciamentos reativos. Em suma, o que temos assistido é uma tentativa violenta de epistemicídio (porque condena a produção de conhecimento, sentido e sensibilidade na arte) e altericídio (porque a alteridade precisa ser de todo modo controlada, gerida e regulada).

Referências

MACHADO, Arlindo. O quarto iconoclasmo e outros ensaios hereges. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2001
LAZZARATO, Maurizio. Signos, máquinas, subjetividades. São Paulo: Edições Sesc SP/N-1 Edições, 2014
DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo, 2016
KILOMBA, Grada. The mask. In: Plantation Memories: episodes of everyday racism. Münster: Unrast, 2010. 
PRECIADO, Beatriz. Multidões queer: notas para uma política dos anormais. Estudos Feministas, Florianópolis, (19)1:312. Janeiro/Abril, 2011. 






sexta-feira, 30 de junho de 2017

Ferida

Estou ferida
Ninguém notou
Alguém tinha que se importar?
Eu sigo ferida
Mas sigo em paz
Paz?
Eu sigo ferida...

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Por que eu grito na "acadimia"

A universidade tem uma dupla "unidade" de subjetivação. Paradoxalmente, esse duplo dispositivo que produz políticas de subjetivação age simultaneamente num dado campo de forças que é imanente e fundamentalmente assimétrico. Imanente porque ele cristaliza uma "forma-força" que toma aspectos de naturalidade, operando e efetivando o status quo e modo de existir pautado numa ficção que aqui chamarei de "ética diplomática". Em outras palavras, nada mais é que a aglutinação de um fazer acadêmico sustentado pela dinâmica do privilégio, dos códigos e dos modus operandi repetidos à exaustão ao qual historicamente se convencionou chamar de burocracia. Na verdade, o que vemos aí ativado é um "maniqueísmo burocrata" que enrije todo corpo vibrátil nesse espaço de poder e distinção social. Em suma, a força dessa "unidade" é a da automatização dos processos, da religiosidade dos métodos, da planificação política do espaço que, invariavelmente, assujeita as relações intersubjetivas e produz um modelo muito específico de subjetivação: o pedesto-intelectual*.

Por outro lado, é também uma unidade assimétrica dado que a disposição é sempre político-relacional. Ou seja, em todo campo de forças os agentes estarão em conflito (ético, político, epistemológico, social, etc) criando relação de poder por vezes intransponíveis dado todo arcabouço histórico e institucional. Isso implica dizer que - mesmo que não salte aos olhos de alguns - as relações de gênero, de raça, de sexualidade, de poder econômico, capacidade cognitiva, etc., estarão sempre em agenciamento com profundas políticas de subjetivação, ocasionalmente ou invariavelmente produzindo subalternização e perpetuação de uma prática colonial. Isso precisa ser criticado. A colonização não é apenas um processo de domínio de um território geográfico sobre outro na forma "Estado-nação". Corpos também são "territórios" e assim ficam suscetíveis às forças capitocoloniais* ou, simplesmente, semióticas.  Isso cria modelos específicos de subjetivação e consolidam um fazer acadêmico que, ao meu fazer, não faz mais sentido porque é justamente uma reprodução de uma estrutura maior de força atualizada no tempo-espaço.

Por que disse tudo isso? Bom, recentemente - quem acompanha o blog deve ter visto - reclamei da forma como a universidade onde faço mestrado conduziu a organização de um evento que abordaria as questões que envolvem as capturas das transexualidades (ver aqui) . O evento intitulado "TRANSfronteiras" ao meu ver acabou reiterando a mesma prática ao qual ele supostamente estaria criticando (as transfobias) e ao deixar de levar em consideração o que as pessoas trans tinham a dizer sobre si e o modo institucional em voga, seguiu o caminho oposto e ignorou a "materialidade" das pessoas trans. Em suma, foi uma evento cis, para pessoas cis sobre pessoas trans, minando assim qualquer possibilidade de se TRANSformar, ou de se TRANSpor às fronteiras sociais, epistemológicas e institucionais que captura os modos de vida trans.  O que se efetuou foi a "limitação territorial" - restringindo o lugar histórico e compulsoriamente subalterno dessas pessoas - que aprisiona as subjetividades trans, seja na forma do "objeto" de pesquisa, seja na docilização dos corpos, seja na perpetuação do discurso vitimista (como se elas só tivessem histórias tristes e violentas para contar), seja numa prática de subjetivação específica ao qual o próprio evento tratou como transfobia; um paradoxo! Mas por que essas vozes não foram ouvidas? Por que a organização não levou em conta outros roteiros? Seria um eco insconsciente do laudo médico ou uma ideia de senso-comum difundida socialmente de que essas pessoas não prestam pra nada? Não seria isso um uso simbólico e indevido dos corpos trans? Seja lá qual for a resposta eu me coloquei de modo bastante combativo junto a organização do evento. Novamente gritei.

Mas o exemplo acima é só uma das muitas formas pelas quais a "acadimia" pode lidar com as pulsações intensas de vida. É que no fundo o que se opera a partir do velho modelo institucional atualizado é o que Oswald de Andrade chamaria de "baixa antropofagia" porque o paradigma do homem acadêmico é o do "Homem Cordial" diria Sérgio Buarque de Holanda. E isso não é apenas na universidade onde faço mestrado, esse modelo está difundido amplamente desde sempre porque ele é resíduo tóxico do velho modelo colonial.

Mais recentemente ainda, houve uma conversa em grupo de WhatsApp onde um professor que ministra certa disciplina alega ter esquecido de disponibilizar no xerox um determinado texto. Normal, humanos são "suscetíveis" ao "erro" e no fundo eu até acho que a postura de reconhecer o esquecimento tenha sido louvável. Diante da impossibilidade de não ter acesso ao texto em tempo hábil, e antes de professor alegar sua falha, uma aluna sugere que a aula fosse transferida para um outro dia. O que no fundo é definitivamente válido, mas isso de algum modo implicaria a disponibilidade de agenda de outros. Isso quer dizer que implicaria em compromissos, como por exemplo, reagendamento de entrevistas, faltas não programadas ao trabalho, reagendamento de campo, reagendamento de eventos ou mesmo de questões pessoais, afinal nem mesmo os professores deixam de ter vida própria embora também sejam muito ocupados. Diante desse cenário, a minha colocação foi definitivamente impessoal, iniciei dizendo algo como "por mim está ok, mas que não se cobre falta" e concluí dizendo algo do tipo "esse seria o segundo encontro trocado aleatoriamente (sem motivos densos) e os alunos se inscreveram para um disciplina em horário x e dia y". Ou seja, o que queria mostrar é que alunas e alunos se programaram para frequentar aquela disciplina em um dia e horário específico, mas tudo bem que se altere desde que quem não possa comparecer não seja punido. E foi aí que ativou o modelo de força institucional em seu aspecto autoritário.

A resposta do professor, ao meu ver, contraria qualquer senso lógico da afirmação supracitada. Ele reclama o seguinte: "[...] De qq forma, bolsistas são dedicação integral ao programa e se submetem ao calendário do programa - não o contrário [...]". Ora, temos aí justamente a efetivamente das minhas colocações iniciais sobre a forma da dupla "unidade" de subjetivação, e aqui diria inclusive de assujeitamento. Se há um calendário previamente definido, difundido e tipificando claramente os dias e horários das aulas, isso implica dizer que a colocação do professor não é apenas arbitrária, é autoritária. Além disso, em nenhum momento anterior a esse se falou em "bolsistas" porque nem todos os estudantes do programa (e consequentemente da referida turma) são bolsistas. O que se percebe aí então é uma "pessoalização" do debate que a princípio se iniciou de forma impessoal. Isso não é apenas definir um tipo de sujeito, mas produzir um tipo específico de assédio, o assédio acadêmico-institucional. Não obstante, bolsistas de fato são dedicação integral, mas aos estudos não ao programa. E isso significa afirmar que o Programa de Pós-Graduação não pode agir de forma arbitrária e abusiva para com os estudantes. Bem como, "dedicação integral" não significa "subalternização integral". Precisamos TRANSformar essa lógica acadêmica de capitalização do saber. Entre as diversas atribuições de um aluno de mestrado (ou doutorado), está o compromisso ético e epistemológico com sua pesquisa, de modo que tão necessário quanto participar das aulas é participar de eventos ou atividades que digam respeito à sua formação. Sendo assim, é razoável que todos tenham uma programação definida que invariavelmente não pode estar condicionada aos desatinos de uma pessoa com uma posição estratégica em um programa de pós-graduação. Gritem.

 O referido professor conclui dizendo que "vamos manter o bom senso e entender que na pós-graduação o importante não é cumprir tabela. A aula é para todos". Aparentemente há uma contradição no que ele diz a princípio. Se o importante não é cumprir tabela, porque raios há uma programação "tabelar" a ser cumprida? Eu entendo que ele se referia à qualidade do debate em aula, mas ao pessoalizar a discussão neste nível precário e autoritário de recurso discursivo quem parece faltar com o bom senso é justamente o professor. A pós-graduação, assim como a graduação, também não é operada exclusivamente dentro do espaço arquitetural da sala de aula. Ela é efetivada nas entrevistas, nas bibliotecas, nos diversos livros, nos debates em seminários, congressos e palestras, etc. Ou seja, "na experiência palpável da vida" diria o velho Oswald. Ao afirmar que "a aula é para todos", ele traz indiretamente à luz duas questões fundamentais, (1) a de que a universidade pública é PÚBLICA, portanto qualquer aula racionalmente deveria ser para todos (de todo que toda alteração deve ser consensual) e (2)  que ao pessoalizar o debate, pressupondo que ele está sendo atacado, ele cai na contradição essencialista do modelo institucional de aula supostamente democrática, mas as categorias "Eu" e "Mesmo", elencadas por Michel Foucault, operam em dicotomia de poder e alteridade. E usar esse poder de forma arbitrária não o tornaria um tirano? Gritem.

Dada as arbitrariedades, eu grito novamente! Não tenho qualquer compromisso ético com supostas práticas diplomáticas do discurso. Recorrer discursivamente à bolsa - um instrumento de pesquisa sistematicamente verificado por agencias fomentadoras e tipificado em sua estrutural legal - como técnica de produção de uma política de subjetividade nefasta em forma de coação indireta ao velho modelo institucional da reprovação é desleal, é arbitrário, é ilegal, não é ético e, ao meu ver, não é uma medida eficiente de verificar qualidade. Exigir indiretamente que bolsistas se subalternizem em função de alterações para sanar um "problema" pessoal (a falta de disponibilidade de um texto que altera a data de aula para um dia não previamente acordado e pior NÃO UNANIMEMENTE ACORDADO) é irresponsável, é - como ele mesmo disse - uma falta de bom senso e de zelo com o próprio código de conduta ética do educador. Gritem.

De todo modo, o professor pressupõe que eu é quem iria faltar a aula, tanto que recorre ao instrumento das faltas como forma de reprovação e da bolsa como obrigação (e não direito conquistado) uma vez que eu sou bolsista, sendo que sua colocação indica claramente que ele tomou para si o comentário anterior e sequer foi capaz de ser crítico ao próprio conteúdo da conversa. Não seria eu quem faltaria, mas um dos colegas havia anunciado previamente que não poderia estar presente em aula em função de compromissos outros. Além disso, nem todos os estudantes se pronunciaram, produzindo uma lacuna consensual à alteração da aula. Ou seja, não foi a maioria quem decidiu pela alteração. Mas o modelo institucional se baseia pela autoridade, a última palavra pertence sempre a quem detém o poder. Não é isso que teria feito Michel Temer dizer "não renunciarei" mesmo tendo rejeição esmagadora ao seu governo?* Uma universidade não existe apenas em função dos professores, ela é antes de tudo um espaço destinado aos estudantes e à produção de conhecimento. Professores são parte dessa engrenagem, tão importantes e tão relevantes quanto aos estudantes. Quem representa os estudantes? Se o Programa/Universidade tem a Procuradoria no seu modelo legal e institucional, quem dinamiza os interesses dos estudantes que não eles mesmos? Gritem!

Nessa conjuntura, é importantíssimo que se grite! O grito, neste caso, é o dispositivo semiótico que ativa o corpo vibrátil e produz tipos específicos de (re)existência. Nenhuma revolução no mundo foi feita com distribuição de flores. Pelo contrário, distribuir flores, em seu sentido simbólico, seria o equivalente às "sublimações antagônicas trazidas nas caravelas" como diz Oswald de Andrade em seu Manifesto Antropófago. Seria cair na armadilha dócil e erudita da violência institucional que faz da academia brasileira um espaço estanque. É evidente que a academia também pode produzir a libertação do caráter criativo e revolucionário de seus estudantes, professores e funcionários, mas somente se ela não for capaz de aprisionar e "planificar" as pulsões de vibrantes, esvaziar-las de sentido. No meu caso, esse modelo tem produzido desinteresse, desânimo, desgosto... eu nunca me senti tão presa quando deveria justamente me libertar e voar alto.  Gritem porque "Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz".

Gritem!







* O intelectual no pedestal
* Junção da ideia de capitalismo com colonialismo como políticas densas de subjetivação.
* Sem contar as conversas gravadas que o comprometiam

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Reflexões a cerca da violência institucional em seis cenas

Cena 1

Um grupo acadêmico resolve organizar um evento que discuta as especificidades e desafios das pessoas trans. Entre eles e elas há uma pessoa trans que sugere uma outra abordagem afim de reduzir a violência simbólica e o local de subalternidade histórica sob a égide do violento "objeto de pesquisa". Ela é rechaçada!

Cena 2

O grupo é formado por cis-doutores, em sua maioria, com especial participação masculinista.

Cena 3

Lançam o folder do evento; tudo se vê, menos as cores da bandeira trans - num evento que vai tratar sobre transexualidade - mas as cores do arco-íris são estampadas. O mito do termo-guarda chuva - que, neste caso específico, apaga e inviabiliza as singularidades e as especificidades trans - é (re)ativado.

Cena 4

Embora a pessoa convidada seja extremamente querida, o que se efetua pela organização é a perpetuação do modus operandi histórico e hegemônico da academia. É difícil combater as forças reativas institucionais que historicamente efetivaram o paradigma especifico de visibilidade intelectual na figura da doutoridade; homem, cis, branco... há ainda a desestabilização do sujeito-objeto em contraposição à representatividade do especialista-pesquisador. Nenhum problema, se não fosse um evento chamado TRANSfronteiras (me parece bastante simbólico).

Cena 5

A ficha de inscrição prevê escolaridade mínima "ensino médio", mas num evento sobre pessoas trans provavelmente os organizadores desconhecem que relevante percentagem dessas pessoas não podem estar na escola em função da transfobia estrutural, institucional e cultural. Além disso, não há qualquer espaço para uso do nome social, uma realidade legal mas pouco difundida no meio "mainstream". Por consequência, havia a necessidade de vínculo institucional restringindo ainda mais o público alvo.

Cena 6

Depois de reclamar publicamente, mudam a ficha de inscrição, mas o modus operandi...

Conclusão

A velha política só "mudou de roupa", ela continua a manutenção de seus ideais colonizadores, violentos e assimétricos pautados no privilégio da figura do especialista e na subalternidade do sujeito-objeto, este ou esta operando muitas vezes na qualidade de coisa. Novamente: É difícil produzir algo novo quando a velha política institucional opera suas forças reativas restringindo certas existências ao seu lugar de subalternidade histórica. Só a potência nômade-antropofágica nos une! A luta continua, mais só do nunca! Mas continua!

domingo, 23 de abril de 2017

Open Letter to Chimamanda Ngozi Adichie/ Carta aberta à Chimamanda

Open letter to Chimamanda Ngozi Adichie

Dear Chimamanda,
Recently you have become a powerful feminine voice in the fight against gender asymmetries which have historically conditioned women around the world, especially black women. I’ve watched with huge enthusiasm many of your interviews and some conferences and internally I felt so represented by you, not only because of your skin color but because the impact that your words had on my life experience. It is amazing to see black women standing out and having their voices legitimized among the masculinist tidal wave that surrounds and subjugates our experiences. However, one of your latest interviews promoted a real disservice to thousands of other women, including black women, who, unlike you, were born without a vagina. Given the conjuncture of your speech and, above all, the answer you gave to it, I would like to list some things that have bothered me so much.
First of all, Chimamanda, I think that it is important to make it clear that we, trans WOMEN (yes, I am a trans black woman), do not need the authorization of any other cis woman to be women. I think it is fundamental to start with this point in order to clearly understood. We do not need any one (cis men or women) to say what we are and what we can be because of the risks of falling into the trap of a single story, as you warned in one of your conferences. You spoke about the danger of a single story. So it is important to make justice to your ideas and let us speak out loud! Why is it important to score this point? One of the reasons is that, like the “vaginated women at birth” – since the term “cis”, as you claim, is not an organic part of your vocabulary – we, woman born without a vagina, have our voices silenced. But now the times are different and we want and we will speak for ourselves!
Having said this, and in the certainty that I have made myself clear enough, I would like to move on to the second point which seems even more problematic to me. As my argument moves on, I have clarity that I will return somehow to the first point as I show the inconsistencies of your discourse, in my opinion. I was quite concerned when you referred to privileges. You claimed that a trans woman was supposed to have experienced the privileges of being born a "man" or, to make justice to you words and taking into account the slippery dynamics of translation, "male", because this was written originally in Portuguese. Well, I cannot completely disagree with your statement, but I'm very worried that it sounds like a naïve, silly, and uncritical generalization. Do you know why, cis sis? Some experiences (as a matter of fact, many of them) are absolutely asymmetrical from the moment of birth. And here - assuming the risks of narrating an individualized and therefore particular experience - I would like to take my experience and put it into action with thousands of other individualized experiences to refute some of your statements. I was born into a poor family and lived most of my life in one of the most violent favelas in Rio de Janeiro (Brazil). As you may probably know, most people living in favelas are black people who grow up without adequate access to basic sanitation, health or schooling. In a sense, it is as if the lives of these people, men and women, are worthless. My mother is a black woman who did not even finish elementary school (as is the case of thousands of black women in my country). My father is a descendant of Spanish immigrants who, given the dynamics of life, could not graduate, like my mother, from elementary school. Both my father and mother have worked since childhood, without any exaggeration. For some life experiences, work is more important than school (it shouldn’t be) and I am aware that you know that as well as I do. My mother, still in her infancy, needed to go and pick up food scraps around the city with her older brother, my uncle Aderbal, to have something to eat and to feed her six younger siblings. I grew up listening to stories of how hungry she was, of how she was mistreated and how she had to deal with my grandfather's alcoholism. My father did not have a different story either. He has been working since he was eight to get something to eat as well. When I was born, in a sense, my parents' lives were better, at least that's what we always listened to. Well, at least me and my two older sisters have never starved in childhood like our parents. My father always managed to bring rice and beans to our table. My mother always brought remains food of the middle class madams’ houses where she worked and we always had something to eat, so in that sense we really were privileged. I remember that every month, my father exchanged his transportation vouchers for food in a market in Copacabana. Every month we performed a ritual of getting the 473 bus with market bags to carry shopping basket essentials. Every month I asked my parents for a packet of cookies, but I could not always buy them. But still we were privileged, if that's what you consider privilege. We had food, differently from many of our neighbors. However, the fact of having rice and beans on the table did not stop me from suffering misogyny!
I was an extremely effeminate child, with a very feminine voice and behavior. This caused me a lot of inconvenience inside and outside my home. But in my mind there was no difference between me and my sisters; we played the same games. One of our favorite games was to make mud cakes and decorate them with flowers that grew on the grounds of our house. We also played “little house” and dreamed of having the same toys that we saw in the advertisements on TV; I do not remember receiving any! One day during a hot summer in Rio de Janeiro, we were taking shower in the yard and, looking at my sisters 'genitals, I asked to my mother why my "little thing pee" was different from my sisters' “little thing pees”; the answer was quite objective: "because you are a boy". I was five years old. That statement never made any sense to me but it instilled in me a process of non-recognition, an anguish that, over time, only increased.
At the age of seven I was raped for the first time. A seventeen or eighteen-year-old boy said he wanted to show me something and stuck his fingers in my anus. It was a traumatic experience that had several harmful consequences in me. Three years later, shortly after completing ten years old, I was raped again. I will never forget the warmth of hot blood running down my legs and giving pain that was not only physical but that subjugated even my soul. By now my life was a real hell; I had become an extremely aggressive child and could not bear all the bullying I suffered. I have often sought ways to end that suffering, I have never been able to do it! Somehow, I was no longer afraid of dying, but I could never really end my life. As terrible as the rape, it was to hear from my mother that it only happened "because I wanted to be a girl and she had put an innocent in jail." I will never forget that, but for a long time I was forbidden to talk about it.
Like many women around the world, the trauma of sexual violence does not end there: we are humiliated in the police station, at the Medical Legal Institute, in the hospital when we seek help. I just thought that nothing in my life was worth it and sharp pictures of depression and violence only made me an increasingly unhappy child. But I survived, somehow I survived. I do not know if I reached complete in my teenager, but I was alive and I still had a damn penis between my legs, so as you say I really was very privileged, after all I was still alive, even if it was a living dead!
You know, Chimamanda! Since your speech I was able to reflect and realize how much I was and I am privileged to be born with a penis, I just need to know if this automatically made me a privileged person? Well, it has made me today a more sensitive person to all forms of existence, created in me an empathy for life in all its complexity. However, I wonder what is the level of this privilege especially when we come across the statistics of the young black people killed in Brazil. Of the young black people who are not in the universities. Of the young blacks that crowd the prisons of my country. So the answer to my own question is no! A penis does not automatically make us privileged people. A penis is just a sex organ symbolized and capitalized on socially shared power dynamics. And then, I come to the conclusion that we need to problematize more intensely what is privilege. This is where my life story crosses with that of millions of people around the world who seek representativeness, visibility. What is the privilege of being beaten up by just saying, as a child, that you are not really a boy? What is the privilege of not being able to access the formal education system? What is the privilege of having been denied medical care? What is the privilege of not being able to participate in the labor market? What is the privilege of not having the most basic of guaranteed rights: to pee?
In this way, I believe we have to go beyond and problematize the very notion of gender by broadening this notion and historically recognizing the origin of this device. This causes us to put into question supposedly stable, naturalized, essentialized categories such as "woman" and "man" or simply "female" or "male."
Curiously, as I was growing and getting older I realized that the flow of my life was similar (and similar does not mean the same) to thousands of women, cis or trans, no matter!
I left the house when I was fifteen. For the first time in my life I was hungry; for the first time in my life I knew what the pain of hunger was. By then I had already begun my gender transition. It was very slow and painful. I was spit on; I got punches in the eyes and in the stomach. I lived alone in a very poor shack and had to choose if the instant noodles I bought thanks to the sale of cans and cardboard would be eaten at lunch or dinner. As time went by, I met other transgender women, some had to become prostitutes - and prostituted themselves since childhood - others lived on crumbs and the non-recognition of their family. Our histories, although private and individualized, were composing a common cartography, a plan of immanence peculiar to the potentialities of trans experiences. We had many dreams, some unfortunately had their dreams interrupted as they were being slaughtered thanks to our everyday transphobia. One of those was my first trans friend, Carol. Carol was sixteen and had been taking hormones since the age of nine. Carol was beautiful and cheerful, but one day her body was found stretched out on the asphalt of Brasil Avenue, one of the main streets in Rio de Janeiro; "A car started firing, she died with a bullet in the head," I was informed by another friend who had burnt marks on her arms. But according to what you propose we had our share of privilege for having been born with a penis. I never prostituted myself, although this often crossed my head given the pain of hunger and the anguish of not knowing if I could pay the hundred reais of my rent at the end of each month. I always had to choose; or I eat or I pay the rental. I slept on the street for a while; I was very scared. I cried copiously. But I had faith that someday everything would change. It changed, but that's another story. The fact that I did not prostitute myself was not only because I was afraid to have the same destiny as my first trans friend, but because we, trans WOMEN, learned that we need to hate our bodies so we can be legitimated as a woman or something close to that because this category is supposed to be so essentialist that a simple affirmation (I am girl / woman) puts at risk the symbolic structure of a much larger group of people. As if the utterance “I am a woman” would put at risk all the rights and achievements of thousands of other “vaginated women at birth”. We know very well that it is not correct, don’t we, cis sis!? But trans subjectivity is permeated by the authorization of an alterity that is supposed to be more legitimate, genuine. And so, not only our bodies, but our voices and our experiences always pass through the sieve of an expert. In order to have our names, and even our morphological sex, legally recognized, we have to deal with the ghost of the medical reports about everything in our lives. These medical reports not only pathologize us, but also take away our ability to speak about our desire for recognition, our legitimacy as thinking beings, actively and humanly capable of taking control of our own lives. There is much privilege in having your voice reduced by the importance of the gender expert, don’t you think so?
Notice then that we return to the gender problem again. I do not require and cannot stand the invasiveness of saying what someone should or should not read, but I am encouraged to say that I was pleased to read papers by Teresa de Lauretis and Paul B. Preciado in addition to, of course, texts produced by transgender women, black or not, from Brazil or from other corners of the world, where the gender dispositif was historically placed in debate. So, in addition to how the world treats us, as you put it, I can understand gender as a laboratory device forged to feed the bowels of capitalism, to homogenize and empty of meaning our own experiences in order to homogenize everything for its own sake, for its own interest, for the sake of a hegemonic interest. I agree with you when you say that our experiences are not homogeneous, but I say that it is necessary to make clear that any experience, cis or trans, is always singular, always powerful, always a cartography that registers rhizomatically at the same time that we act our own bodies and our voices with the world. And in that sense, I find it foolish and unnecessary to insist on the debate on the legitimacy of identities and trans bodies given the delicate side that we women, all of us, are! And this does not mean hierarchizing our suffering or our anguishes, but giving a warning sign to the discourses that have more to contribute to the other side (do not understand as good or evil, in a dichotomous logic), with the side of capitalist supremacy that historically subjugated all of us!
Therefore, politically it is important that we defend "womanhood". It is important to recognize the necro politics that historically encloses our experiences in certain spaces or places and thus we fight to combat the forms of oppression that capture all women. If we do not delve into ideas such as privilege, gender, and (anatomical) sex, we are at risk of perpetually reproducing the hegemonic discourse that remains since World War II, created and expanded in the laboratory or in the corridors of factories, which authorizes violence against our bodies or asymmetries in the labor market, for example. Equally damaging, we run the risk of insisting on a single, universal, dichotomous and masculinist story!
Finally, I'd like to end by saying that I do not think you're transphobic in any way. But it is important and extremely relevant to say that your speech has the powerful and dangerous capacity to feed the transphobic thought that crushes our experiences and reduces us to mere simulacra, essentializing and territorializing everything. Let us speak for ourselves, help us join forces!
A big kiss, with affection!


VERSÃO EM PORTUGUÊS
Carta aberta à Chimamanda Ngozi Adichie
Querida Chimamanda,
Sei que ultimamente você tem sido uma voz feminina poderosa em prol da diluição das assimetrias de gênero que historicamente condicionou mulheres ao redor do mundo, especialmente mulheres negras. Vi com muito entusiasmo muitas de suas entrevistas e algumas conferências e internamente me senti representada por você, não apenas em função da sua cor de pele, mas pelo impacto que suas palavras provocaram na minha experiência de vida. É muito bom ver mulheres negras se destacando e tendo suas vozes legitimadas meio ao maremoto masculinista que nos circula e nos subjetiva. Contudo, uma de suas últimas entrevistas soou como um verdadeiro desserviço a milhares de outras mulheres, inclusive negras, que, diferente de você, nasceram sem vagina. Tendo em vista a conjuntura do seu discurso e, sobretudo, a resposta a ele; gostaria de pontuar algumas coisas que me incomodaram demasiadamente.
Em primeiro lugar, Chimamanda, nós MULHERES trans (sim, eu sou uma mulher trans negra) não precisamos da autorização de nenhuma outra mulher cis para sermos mulheres. Penso que é fundamental começar com esse “clarifying” para fazer com que minhas palavras não sejam destorcidas e serem claramente entendidas. Não precisamos que nenhuma pessoa (mulher ou homem cis) diga o que somos e o que podemos ser, sobre os riscos de cairmos nas armadilhas de uma história única ou, como você mesma alerta numa de suas conferências, para ficarmos atentas ao “the danger of a single story”. Por que é importante pontuar isso? Porque assim como as “mulheres vaginadas” – já que o termo “cis”, como você afirma, não é parte orgânica do seu vocabulário – nós, mulheres que nascemos sem vagina, temos nossas vozes silenciadas. Mas agora, ainda bem, os tempos são outros e queremos e vamos falar por nós mesmas! 
Tendo dito isto, e na certeza que me fiz clara o suficiente, gostaria de partir para o segundo ponto que me parece ainda mais problemático, com a consciência tranquila que retornarei ao primeiro ponto na medida em que for destrinchando as inconsistências do seu discurso. Fiquei bastante preocupada quando você se refere ao tema privilégio, alegando que supostamente uma mulher trans experimentou os privilégios por ter nascido como "homem" ou, para fazer jus à sua palavra e levando em consideração as dinâmicas texto-gramaticais de uma tradução, “male”, se assim preferir. Bom, eu não posso discordar 100% da sua afirmação, mas fico muito preocupada que ela soe como uma ingênua generalização tola e pouco crítica. Sabe por quê, companheira? Porque algumas experiências, para falar a verdade muitas, são absolutamente assimétricas desde o momento do nascimento. E aqui – assumindo os riscos de narrar uma experiência individualizada, portanto particular – gostaria de tomar a minha vivência e coloca-la em agenciamento com outras milhares e milhares de experiências individualizadas, para retomar algumas de suas afirmações. Eu nasci pobre numa das mais violentas favelas do Rio de Janeiro, como você deve saber a maior parte das pessoas que vivem na favela são pessoas negras que crescem sem acesso adequado à saneamento básico, à saúde ou à educação. Em certo sentido, é como se a vida dessas pessoas, homens e mulheres, valessem menos. Minha mãe é uma mulher negra que sequer concluiu a antiga quarta série do ensino fundamental. Meu pai é um descente de imigrantes espanhóis que, dada as dinâmicas da vida, não pôde concluir, como minha mãe, o ensino fundamental. Tanto meu pai como minha mãe, trabalharam desde crianças, sem qualquer exagero. Para algumas experiências de vida, o trabalho é mais importante que a educação e tenho consciência que você sabe tão bem disso quanto eu. Minha mãe, ainda em sua infância, precisava ir catar restos de comida nas feiras da cidade com seu irmão mais velho, meu tio Aderbal, para terem o que comer e também alimentar seus outros seis irmãos mais novos. Eu cresci ouvindo o quanto ela passou fome, foi abusada e teve que lidar com o alcoolismo do meu avô. Meu pai também não teve uma história diferente. Trabalhava desde os oito anos de idade nas obras para ter o que comer. Quando eu nasci, em certo sentido, a vida dos meus pais estava melhor, pelo menos era isso que nós sempre ouvíamos. Bom, ao menos eu e minhas duas irmãs mais velhas, jamais passamos fome na infância como nossos pais. Meu pai jamais deixou faltar arroz e feijão. Minha mãe sempre trazia os restos das casas das madames que ela trabalhava e sempre tínhamos algo para comer, então, nesse sentido, realmente éramos privilegiados. Lembro que todo mês, meu pai trocava seus vales transporte por alimento em um mercado em Copacabana. Todo mês cumpríamos um ritual de pegar o 473 com bolsas de mercado com a cesta básica. Todo mês eu pedia aos meus pais um pacote de biscoito, mas nem sempre dava para comprar. Mas ainda assim, éramos privilegiados, se é isso que você considera privilégio. Tínhamos comida diferente de parte dos nossos vizinhos. Contudo, o fato de ter arroz e feijão na mesa, não fazia com que eu deixasse de sofrer misoginia, pasmem! 
Eu era uma criança extremamente efeminada, com voz e jeito muito femininos. Isso me gerava muitos transtornos dentro e fora de casa. Contudo, na minha cabeça não existia qualquer diferença entre eu e minha irmãs; brincávamos das mesmas coisas. Uma de nossas brincadeiras favoritas era fazer bolinho de lama e enfeita-lo com flores que cresciam no terreno de nossa casa. Também brincávamos de casinha e sonhávamos em ter os mesmos brinquedos que víamos nas propagandas da Estrela na TV, não lembro de ter ganho nenhum! Um dia durante um verão escaldante do Rio de Janeiro, tomávamos banho no quintal e, ao observar a genitália das minhas irmãs, eu perguntei a minha mãe porque o meu “pipi” era diferente do “pipi” das minhas irmãs; a resposta foi bastante objetiva: “por que você é um menino”. Eu tinha cinco anos de idade. Aquela afirmação jamais fez qualquer sentido para mim mas instaurou em mim um processo de não reconhecimento, uma angústia que, com o passar o tempo, só fez aumentar. 
Aos sete anos de idade eu fui violentada pela primeira vez. Um menino de dezessete ou dezoito anos disse que queria me mostrar algo e enfiou dedos em meu ânus. Foi uma experiência traumatizante que teve diversas consequência nefastas em mim. Três anos mais tarde, pouco depois de completar dez anos de idade, eu sofri novamente um estupro. Nunca vou esquecer do calor do sangue quente escorrendo pelas minhas pernas e dar dor que não era apenas física, mas que que subjugava inclusive minha alma. A esta altura a minha vida era um verdadeiro inferno, eu já tinha me tornado uma criança extremamente agressiva e não suportava mais todo o bullying que sofria. Muitas vezes busquei meios de encerrar aquele sofrimento, nunca consegui! De algum modo, eu já não tinha mais medo de morrer, mas nunca consegui de fato encerrar a minha vida. Tão terrível quanto o estupro, foi ouvir de minha mãe que aquilo só aconteceu “porque eu queria ser uma menina e que ela tinha colocado um inocente na cadeia”. Eu nunca vou esquecer disso, mas durante muito tempo fui proibida de falar sobre isso.
Como muitas mulheres mundo afora, o trauma pós violência sexual não se encerra aí: somos humilhadas na polícia, no Instituto Médico Legal, nos hospitais quando vamos buscar ajuda... Eu só pensava que nada na minha vida valia a pena e quadros agudos de depressão e violência só me tornavam uma criança cada vez mais infeliz. Mas eu sobrevivi, de algum modo sobrevivi. Não sei se cheguei inteira na minha adolescência, mas eu estava viva e ainda tinha um maldito pênis entre as pernas, então como você diz eu realmente fui muito privilegiada, afinal ainda estava viva, mesmo que uma morta-viva!
Sabe, Chimamanda! A partir do seu discurso pude refletir e perceber o quanto eu fui e sou privilegiada por ter nascido com um pênis, isso automaticamente me fez uma pessoa privilegiada? Isso me fez hoje uma pessoa mais sensível a todas as formas de existir, criou em mim uma empatia pela vida em toda sua complexidade. No entanto, eu fico pensando qual é o nível desse privilégio sobretudo quando nos deparamos com as estatísticas dos jovens negros mortos pelo Brasil afora. Dos jovens negros que não estão nas universidades. Dos jovens negros que lotam os presídios do meu país. Então a resposta a minha própria pergunta é não, um pênis não nos torna automaticamente pessoas privilegiadas. Um pênis é apenas um órgão sexual simbolizado e capitalizado nas dinâmicas de poder socialmente compartilhadas. E aí, eu chego a conclusão que precisamos problematizar mais densamente o que é privilégio. É aqui que minha história de vida cruza com a de milhões de pessoas pelo mundo que buscam por representatividade, por visibilidade. Qual é o privilégio em ser espancada por apenas dizer, ainda na infância, que na verdade você não é um menino? Qual é o privilégio de não poder acessar o sistema formal de educação? Qual é o privilégio de ter atendimento médico negado? Qual é o privilégio de não poder participar do mercado de trabalho? Qual é o privilégio de não ter o mais básico dos direitos garantidos: o de fazer xixi?
Deste modo, acredito que temos que ir além e problematizar a própria noção de gênero. Ampliando essa noção e reconhecendo historicamente a origem desse dispositivo. Isso faz com que coloquemos em questão categorias supostamente estáveis, naturalizadas, essencializadas como “mulher” e “homem” ou, simplesmente “female” ou “male”.
Curiosamente, a medida que eu ia crescendo eu ia percebendo que o fluxo da minha vida era semelhante (e semelhante não quer dizer igual) ao de milhares de mulheres, cis ou trans. 
Eu saí de casa aos quinze anos de idade. Pela primeira vez na vida eu senti fome, pela primeira vez na vida eu soube o que era a dor da fome. A essa altura eu já havia iniciado minha transição. Foi muito lenta e dolorosa. Eu fui cuspida, eu recebi socos nos olhos e no estômago. Eu vivia sozinha num barraco e tinha que optar se o macarrão instantâneo que comprei graças a venda de latinhas e papelão seria comido no almoço ou na janta. Ao passar do tempo conheci outras mulheres trans, algumas precisavam se prostituir – e se prostituam desde a infância – outras viviam com as migalhas e com o não reconhecimento de sua família. Nossas histórias, apesar de particular e individualizadas, ia compondo uma cartografia comum, um plano de imanência peculiar às potencialidades das vivências trans. Tínhamos muitos sonhos, algumas infelizmente tiveram seus sonhos interrompidos à medida que iam sendo dizimadas graças à transfobia nossa de cada dia. Uma dessas foi minha primeira amiga trans, Carol. Carol tinha dezesseis anos e tomava hormônios desde os nove. Carol era linda e alegre, mas um dia seu corpo foi encontrado estirado no asfalto da avenida Brasil; “um carro passou atirando, ela morreu com um tiro na cabeça”, foi o que me informou uma outra amiga que tinha marcas de queimadura nos braços. Mas, de acordo com o que você propõe tivemos nossa parcela de privilégio por termos nascido com pênis. Eu nunca cheguei a me prostituir, embora isso tenha passado muitas vezes pela cabeça dada a dor da fome e angústia de não saber se poderia pagar os cem reais do meu aluguel ao fim de cada mês. Eu precisava sempre optar; ou como ou pago o aluguel. Dormi na rua durante um tempo, senti muito medo. Chorei copiosamente. Mas tinha fé que um dia tudo mudaria. Mudou, mas isso é outra história. O fato de eu não me prostituir não era só porque eu sentia medo de ter o mesmo destino de minha primeira amiga trans, mas porque nós, MULHERES trans, aprendemos que precisamos odiar nossos corpos para podermos ser legitimadas como mulher ou algo perto disso porque essa categoria é, supostamente, tão essencialista que uma simples afirmação (eu sou menina/mulher) põe em risco a estrutura simbólica de um grupo muito maior de pessoas. Como se o fato de eu me assumir mulher coloque em jogo todos os direitos e conquistas de outras milhares de mulheres vaginadas. Sabemos muito bem que não, não é querida companheira!? Mas a subjetividade trans é permeada pela autorização de uma alteridade que supostamente é mais legitima, genuína. E assim, não apenas nossos corpos, mas nossas vozes e nossas experiências passam sempre pelo crivo de um especialista. Já não bastasse a dificuldade para termos nossos nomes, e mesmo o sexo, reconhecidos juridicamente, temos de lidar com o fantasma dos laudos para tudo em nossas vidas. O laudo não apenas nos patologiza, mas retira de nós a capacidade de pontuar nosso desejo de reconhecimento, nossa legitimidade enquanto ser pensante, ativamente e humanamente capazes de tomar as rédeas de nossas próprias vidas. Há muito privilégio em ter sua voz reduzida à importância do especialista em gênero e sexualidade! 
Perceba, então, que novamente retornamos ao problema de gênero. Eu não requisito e não suporto a posição impositiva de dizer o que alguém deve ou não ler, mas me sinto encorajada em dizer que tiver muito prazer em ler textos como o Teresa de Leuretis e Paul B. Preciado além, é claro, de vários outros textos produzidos por mulheres trans, negras ou não, do Brasil, ou do mundo, onde o dispositivo de gênero foi colocado historicamente em debate. De modo que, para além de como o mundo nos trata, como você mesma diz, eu possa entender gênero como um dispositivo laboratorial forjado para alimentar as entranhas do capitalismo, homogeneizar e esvaziar de sentido nossas próprias experiências afim de planificar tudo em prol de seu próprio interesse, em prol de um interesse hegemônico. Eu concordo com você quando você diz que nossas experiências não são homogêneas, mas afirmo que é preciso deixar claro que toda e qualquer experiência, cis ou trans, é singular, sempre potente, sempre uma cartografia que se inscreve rizomaticamente ao mesmo tempo que agenciamos nossos corpos e nossas vozes com o mundo. E nesse sentido, considero tolo e desnecessário insistirmos no debate sobre a legitimidade das identidades e dos corpos trans dado o lado delicado que nós mulheres, todas nós, estamos! E isso não significa hierarquizar nosso sofrimento ou nossas angústias, mas dar um sinal de alerta aos discursos que tem mais a contribuir com o outro lado (não entenda como bem ou mal, numa lógica dicotômica), com o lado da supremacia capitalística que historicamente subjugou todas nós! 
Logo, politicamente é importante que defendemos uma “mulheridade”. É importante reconhecer o caráter necropolítico que historicamente encerra nossas experiências a determinados espaços ou lugares e, assim, lutemos para combater as formas de opressão que capturam todas as mulheres. Se não aprofundarmos ideias como privilégio, gênero e sexo (anatômico) corremos o risco de reproduzir perpetuamente o discurso hegemônico que remanesce do pós guerra, criado e ampliado em laboratório ou nos corredores das fábricas, o mesmo que autoriza a violência contra nossos corpos ou as assimetrias no mercado de trabalho, por exemplo. Igualmente danoso, corremos o risco de insistirmos numa história única, universal, dicotômica e masculinista! 
Por fim, eu gostaria de encerrar dizendo que eu não acho de forma alguma que você seja transfóbica. Mas é importante e extremamente relevante dizer que o seu discurso tem a capacidade de alimentar com muito mais potência justamente o pensamento transfóbico que cotidianamente esmaga nossas vivências e nos reduz a meros simulacros. Que essencializam e territorializam tudo. Deixe que nós falemos por nós, ajude-nos a somar forças! 
Um beijo grande, com carinho!

quinta-feira, 9 de março de 2017

Não empobreça seu ativismo!

O dia internacional da mulher é uma data importantíssima para fomentar o debate histórico sobre a necessidade de constituir políticas públicas que visem ampliar não apenas o debate sobre gênero, mas sobretudo ações que busquem reduzir as assimetrias sócio-políticas entre homens e mulheres. Uma data que traz a relevância do papel social da mulher enquanto agente, enquanto protagonista histórica na luta pela redução das desigualdades e o enfrentamento secular de uma subalternidade compulsória.  Não vou me ater sobre a data em si e tão pouco sobre os necessários enfrentamentos que infelizmente ainda são precisos. Gostaria de expor algo que me incomodou profundamente no último 8 de março.

Vi diversos posts nas redes sociais que podem ser problematizados do ponto de vista da trajetória dos movimentos sociais e do próprio aspecto social hierárquico que, como sabemos, nos segmentou em classe, raça e gênero. Muitas mulheres brancas, cisgênero, classe média, funcionárias públicas postavam mensagens em suas redes como, por exemplo, "Não queremos rosas, nem tão pouco parabéns", entre outras milhares de mensagens com o mesmo sentido. Contudo eu só tive consciência da implicação simbólica desses enunciados quando precisei pegar o carro para ir ao mercado ontem à tarde. A princípio, estava inclinada em concordar com essas influentes e bem-sucedidas mulheres. Afinal a data é um marco na luta social por direitos da mulher. Porém, não podemos nos dar o luxo de ignorar a realidade social, histórica e política do nosso país cuja mentalidade se constituiu colonializada, assimétrica e perversa, ainda mais na atual conjuntura. Eu digo isso porque ao passar pela portaria do prédio onde vivo, na cidade de Manaus, fui interpelada pelo porteiro. Seu J (trata-lo-ei assim neste texto para não o expor) é um senhor humilde, de origem não-branca, não hegemônica e que sequer concluiu o ensino fundamental e que vive na periferia de Manaus, um trabalhador que cumpre longas jornadas de trabalho e que precisa cotidianamente levantar ainda de madrugada e se submeter à precariedade do transporte público da capital amazonense que eu, mesmo tendo vindo de origem humilde e da favela, jamais experimentei, para sustentar sua família. Eu vivo num dos bairros com o maior IDH da capital amazonense, num condomínio de classe média alta onde é comum conversar com os vizinhos sobre as nossas recentes viagens internacionais, coisas que provavelmente seu J, e milhares e milhares de outros homens (e também mulheres) jamais saberão o que é. É claro, que não podemos ignorar a situação de milhões de outras mulheres e esse texto está muito longe disso. No condomínio que vivo muitas delas estão servindo, limpando o chão, cuidando do jardim, cuidando dos filhos de minhas vizinhas. Muitas, sabe-se lá, estão trabalhando sem carteira assinada e sem qualquer garantia social. Este texto, e sobretudo minha postura, jamais ignoraria a realidade dessas mulheres! O que eu problematizo aqui é a precarização do ativismo de mulheres social e economicamente bem estabelecidas, formadoras de opinião e que cegamente verbalizam seus anseios nas redes sociais muitas vezes ignorando a estrutura política, histórica e social do Brasil. Enfim, é um desabafo contra todo essencialismo e toda verborragia tola que pude ler no dia internacional da mulher.

Ao me ver, seu J abriu um caloroso sorriso e o diálogo se estabeleceu mais ou menos dessa forma;
Seu J: Que bom que voltou de viagem, dona Mariah, sentimos sua falta!
Eu: Obrigada, seu J! Cheguei essa madrugada! Está tudo bem?
Seu J: Sim, tudo bem! Dona Mariah, parabéns pelo dia de hoje! (e estende a mão me cumprimentando)

A conversa continuou por cerca de uns dez minutos e durante esse período algumas outras mulheres (moradoras ou trabalhadoras), passaram por nós e seu J gentilmente parabenizava cada uma delas com o mesmo respeito, reconhecimento e empatia que dirigiu a mim! É evidente que seu J, dada sua história e sua condição social, nos parabenizava não apenas por educação, mas pelo reconhecimento por uma data simbólica que é extremamente mal discutida e difundida socialmente. Nesse aspecto, a luta feminista é um exercício pedagógico diário de emancipação que não pode e não deve ser precarizado pelo clamor verborrágico de mulheres supostamente bem instruídas e economicamente estáveis. Muitas dessas mulheres, e aqui eu posso me incluir, ascenderam socialmente. Conhecem as facetas e as dinâmicas que nos condicionam enquanto cidadãs, enquanto pessoas. Portanto, elas sabem das dificuldades e do calo social que capturam milhões de pessoas Brasil afora! Infelizmente, a maior parte delas (pelo menos das que pude ler as mensagens) vivem no eixo mais privilegiado do país e ignoram esse fato. Isso me impede de penalizar, no sentido crítico, seu J ou qualquer outro homem não-branco e/ou sem acesso aos mesmo meios de informação/educação,  por me parabenizar uma vez que a própria difusão da informação enfatiza as nuances desse "cardápio". A nossa mídia, em geral, não cumpre o papel de informar, mas de docilizar e homogeneizar as experiências, todas elas! Eu li, em diversos veículos, mensagens altamente problemáticas que culminou com a mediocridade do discurso do usurpador presidente da República! Um homem branco, supostamente bem informado, autor de livros e que ocupa a tribuna mais importante do país e cuja voz deveria ser uma luz para o povo que diz querer governar, um presidente ilegítimo que ocupa um espaço na mídia com um discurso ultrapassado, medíocre e que assujeita as vivências e precariza o status-quo das mulheres encerrando suas infinitas experiências às contas de mercado e à economia do lar. Quando um homem como esse ocupa um papel de destaque na mídia, pior; quando ocupa o cargo mais importante do país, não podemos culpar aqueles que como seu J, precisam lutar de forma desigual de sol a sol para por comida na mesa de suas famílias.

Além disso, o ato de seu J não pode ser visto nem entendido como deslegitimação da luta feminista. Pelo contrário, ao parabenizar a mim e outras mulheres, pode-se criar um senso de empatia, respeito e reconhecimento não apenas pela data, mas pela luta histórica e pelo lugar que aos poucos vamos conquistando. Me despedi e segui o meu caminho. Mas cruzei com outras mulheres e homens que vendiam flores nos sinais da capital amazonense. Novamente, surge um impasse crítico às mensagens que li nas redes sociais. Volto para casa decidida a posta algo no face e me deparo com algumas postagens de mulheres felizes porque receberam flores, porque, mesmo que por um instante, foram reconhecidas. Certamente, as pessoas que estavam vendendo flores não estavam ali pela importância de uma data simbólica, mas pela necessidade de pagar suas contas, de vestir-se e, até mesmo, de comer! Homens e mulheres que não podem se dar ao luxo de perder horas de seu dia criticando "machos sem noção" nas redes sociais porque a dinâmica de suas condições sociais não o favorecem, porque historicamente sempre estiveram do lado subalternizado, precarizado pelas condições sociais do trabalho e segmentarizados, hierarquizados, por fim, condicionados numa assimétrica e perversa ordem capitalística. Se constitui, portanto, uma cadeia que com esforço podemos entender como pedagógica, do ponto de vista político e social; alguns vendem flores para viver, outr@s recebem flores e aparentemente agenciam uma micropolítica. Não podemos exigir de mulheres que, diferente de nós, não tiveram as mesmas oportunidades de acesso à educação e à informação. Essas mulheres e homens também fazem política com seus corpos!

Assim, gostaria de citar um pequeno trecho de um dos livros que li recentemente e que me marcou profundamente. Em Mulheres, Raça e Classe, Angela Davis diz que "O sistema escravista definia o povo negro como propriedade. Já que as mulheres eram vistas, não menos do que os homens, como unidades de trabalho lucrativas[...]." E continua dizendo que "No que dizia respeito ao trabalho, a força e a produtividade sob a ameaça do açoite eram mais relevantes do que as questões relativas ao sexo. Nesse sentido, a opressão das mulheres era idêntica à dos homens". Essa pequena citação me parece bastante pertinente para sustentar o que busco defender aqui. É claro que os tempos são outros e a própria Angela Davis, reconhece que as mulheres eram vítimas de outros tipos de violência como o estupro, por exemplo. Mas não deixa de fazer sentido na contemporaneidade, dada a dinâmica que ainda enxergar nossos corpos como mercadoria. Como máquinas que precisam produzir e gerar lucro a todo custo e, sabemos, é bem por isso que o capitalismo busca aglutinar tudo para assim esvaziar de sentido e potência as lutas não apenas das mulheres cis ou trans, mas dos negros, dos nordestinos, dos indígenas, etc. Portanto, quando nos deparemos com uma pessoa vendendo rosas no dia internacional da mulher, penso o que está por trás disso! E penso, sobretudo que receber uma rosa pode ser o menor dos problemas os dos enfrentamentos que temos e isso não quer dizer que deslegitimo o ativismo/feminismo dessas mulheres, mas critico o "emburrecimento" que as fazem negligênciar que por trás de uma rosa esconde-se a necessidade de um prato de arroz com feijão à mesa, não apenas de outras mulheres, mas de homens como seu J que historicamente foram deslegitimados por uma estrutura econômica desigual.

Por fim, para não me prolongar ainda mais, me espantou a carga essencialista imposta sobre a data, desconsiderando que a história também mostra a luta de mulheres não cis e, portanto, não hegemônicas nessa seara do poder. Li muita coisa com as palavras "buceta", "útero", etc. Preciso enfatizar que entendo a necessidade sobretudo política de se pontuar a imanência de um órgão sexual e reprodutivo em tempos de luta pela legalização do aborto e controle, literal, dos direitos reprodutivos. No entanto,  ao frisar somente a potência de um lado da balança, inviabilizamos a luta de milhares de outras mulheres que não nasceram com vagina, ou não tem vagina ou útero. Mulheres que são igualmente assujeitadas por esse Cistema necropolítico que desqualifica não apenas os corpos, mas as próprias vozes, as experiências e a pluralidade da nossas vidas! Amigas, por favor não empobreçam seu ativismo! Que juntas, lutemos e ressistemos contra essas armadilhas que nos rodeiam!

à luta, por todes!

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Pela importância dos temas menores

Segundo Anne Sauvagnargues ao introduzir "Kafka: por uma literatura menor" de Deleuze e Guattari, uma obra é uma espécie de "toca, espaço de habitação, de deambulação e de reserva nutritiva, uma máquina política e experimental que transforma realmente nossas experiências". De fato, ao lidar com uma produção, seja ela acadêmica ou não, lidamos com um duplo acontecimento na ordem da subjetividade: a imanência de uma aposta política, que pode ser literalmente de vida e o próprio deslocamento das nossas experiências enquanto sujeitos. É sobre esses dois pontos que gostaria de tratar aqui de modo bastante tímido e breve.

Ainda impactada pela dinâmica que uma recente apresentação numa aula do mestrado, venho defender a importância dos temas menores. Para Deleuze e Guattari (2015), "uma literatura menor não é a de uma língua menor, mas antes a que uma minoria faz em uma língua maior. Mas a primeira característica, de toda maneira é que nela, a língua é afetada de um forte coeficiente de desterritorialização" (p.33). Coeficientes de desterritorializandoção se operacionalizam, ao meu ver, na própria dinâmica dos abalos. Por que eu digo isso? Tentarei sintetizar para depois retomar. Apresentava um trabalho onde eu recuperava dados de um projeto que visa mapear a violência contra pessoas trans em nível global (a referência você pode ver aqui), explicava de forma resumida o método que essa ONG utilizava para produzir essa cartografia. Em linhas gerais, o TGEU colhe esses dados a partir das noticias de jornal sobre os assassinatos das pessoas trans ao redor do mundo. Quando questionada por um colega, de maneira bastante pertinente a princípio, sobre uma possível arbitrariedade na coleta dos dados, uma vez que, segundo ele haveria desníveis na imprensa mundial. De fato há desnível, nisso concordamos. Contudo, ao tentar contra-argumentar fui novamente interrompida. Ele dizia algo com esse sentido; "através desse método o Brasil vai ser sempre o líder em mortes das pessoas trans". Eu digo que sim, que o Brasil é o líder e que ao decorrer da minha explanação mostraria os motivos e volto um ou dois slides onde trazia uma referência de uma pesquisadora com sólida pesquisa na área de direitos humanos que dizia, entre outras coisa, o seguinte; "países com nível SEMELHANTE de liberdade de impressa e mobilização social". Novamente sou interrompida e ele diz algo próximo a isto "há sensacionalismo na imprensa brasileira, sendo assim os dados do Brasil serão sempre maiores". A partir daí iniciou um bate-boca desnecessário e completamente desrespeitoso de sua parte. Mas eu gostaria de me ater em alguns pontos que me parecem pertinentes para os temas, sejam da literatura ou não, menores.

O primeiro deles é que nível semelhante não significa nível igual ou mesmo nível, algo que eu gostaria de ter explicado melhor porque esse é um ponto crucial, extremamente bem explicado no relatório do TGEU. Mas quando eu falo "sim, deixa eu concluir, depois eu voltar a esse ponto e você fala", ouço de forma grosseira e machista que "não, você VAI ME OUVIR porque você me interrompe e é um direito meu falar, você não tinha nem que estar nesse lugar", entre outras coisas. E conclui o que tinha de dizer na marra mesmo, no típico autoritarismo patriarcal tão naturalizado socialmente. Ouço e revido de modo categórico: "quando um homem assume que uma mulher DEVE ouví-lo, isso evidencia um machismo e agora é você quem vai me ouvir", e continuo a dizer o que eu tinha que dizer. O fato é que eu não o proibi de falar, pelo contrário, apenas disse que eu falaria de algum modo dessas questões que ele trazia e que ele PODERIA contribuir, se assim fosse, no momento em que eu tratasse da questão, justamente dois ou três slides adiante. Também disse que quando eu falava jamais para desqualificar como ele claramente fazia. Se sua questão era problematizar o papel da mídia, que acho justo e concordei, antes de mais nada era preciso justamente problematizar o papel da cultura que legitima e naturaliza a violência contra milhares e milhares de pessoas LGBT, além disso, aqui eu chego no segundo ponto, liberdade de imprensa também não é a mesma coisa que manipulação de dados pela imprensa, justamente porque a imprensa, sobretudo a nacional, não tem qualquer interesse em prestigiar de forma positiva as existências trans dada as dinâmicos culturais que normatização nossas práxis. Aliás, eu estava tratando justamente da violência das normas SOCIALMENTE INSTITUÍDAS que condicionam as subjetividades trans, nesse sentido - no sentido criminológico, me interessava analisar o peso das normas sobre esses corpos, e não o peso da mídia numa produção discursiva e imagética. Ou seja, por mais que seja interessante analisar o papel da mídia, meu recorte não privilegiava tal dinâmica.

Através dessa ótica surge um terceiro ponto, a dizer a própria dinâmica dessa norma na manutenção do privilégio patriarcal e reivindicação do lugar de fala. É evidente que numa aula a troca de ideias é importante e fundamental, contudo quando alguém que impor de modo autoritário sua verdade, estamos reterritorializando um status quo que historicamente privilegiou os homens. Se ele fizesse um esforço minimamente cognitivo, teria percebido que o que estava sendo apresentado ali era apenas uma parte de um todo: um mapa do TGEU, onde no extenso relatório apontava item por item as dificuldades de coletas de dados dada as dinâmicas culturais de cada país. Concordo que a imprensa brasileira é sensacionalista, mas é graças a esse "sensacionalismo" que temos minimamente algum dado, e eu não tenho o menor interesse em defender a imprensa nacional. Além disso, como falei, é evidente que os dados de outros países poderiam vir a ser maiores, mas isso também é abordado sistematicamente em TODOS os relatórios do TGEU, mas o desejo em agenciar seu privilégio de fala não me permitiu concluir da forma como queria minha explicação. E justamente nesse último ponto que gostaria estabelecer um link coma  citação de Deleuze e Guattari, sobre os coeficientes de desterritorialização e a política menor. Para Deleuze e Guattari uma das características das "literaturas menores" é carga política delas. "Tudo nelas é político" (p.36). Quando eu apresento um tema simbolicamente entendido como "menor" há uma espécie de fluxo de intensidades contínuo que agencia as micropolíticas em operação. É justamente a micropolítica em sua linha de intensidade que sacodem e desestruturam o outro de algum modo. Os dados apresentados desestruturam justamente porque operam a partir do que é menor e quando esse menor é enunciado por uma existência igualmente menor que reclama esse lugar, o incomodo é imediato e assim tudo toma um valor coletivo. Não entenda isso como vitimismo, mas como resistência. Um agenciamento coletivo de enunciação que passa, de algum modo em uníssono, denunciar as dinâmicas de opressão simbolicamente circunscritas na norma. Acontece que o simbólico também pode ser material e como disse na apresentação "no universo da criminologia crítica os processos subjetivos tornam-se extremamente objetivos uma vez que produzem nos corpos efeitos muito concretos".

Está dada aí a importância dos temas menores, eles nos desestabilizam, nos deslocam. A força dos enunciados menores é a própria micropolítica. Eu poderia tratar de outras tantas questões, inclusive da própria mídia, mas meu foco era justamente produzir uma reflexão a partir das normas que aprisionam existências trans* e que literalmente as matam! Recentemente uma colega transvestigenere postou em sua timeline que havia sofrido tentativas de homicídio, não era a primeira vez que a tentavam matar (veja aqui). Essa colega é membro de um projeto social muito importante mas considerado menor porque lida com vidas "menores". A própria academia opera a partir desse lugar que fundamentalmente desqualifica o que é entendido como menor. A questão que se coloca é, e aqui recorro a Bourdieu, é justamente romper com o comum e operar a partir de um lugar onde violência simbólica seja minada com posicionamentos em prol de qualificar o que é menor. Uma utopia? Talvez, mas eu ainda sou permitida a sonhar.

Por fim, penso que é importante resgatar aqui necessidade de se refletir sobre o lugar de fala e os teus menores, agenciando assim as micropolíticas. Sugiro a leitura do Geledés clicando aqui. A tentativa de desqualificação de um dado menor, o que em certa medida compõe o repertório do contraditorium, é praticamente inevitável quando tratamos de violências já naturalizadas socialmente. A questão que se coloca é, ao meu ver, o auto questionamento. De que modo posso comprovar a veracidade do que está sendo dito? Os dados citados tem refências que podem ser consultadas? A minha contra-argumentação está baseada em quê? Eu entendo do que está sendo tratado ou lido com o senso-comum? Qual é o fator de a(fe)tivação que agencia a minha captura? Enfim, o risco do "tiro às cegas" é justamente a violência simbólica que se materializa nos enunciados inflados pelo ego e que não operam em outro lugar a não ser o senso-comum. De todo modo, o percurso dos temas menores jamais serão em campos floridos, mas sempre em terrenos arenosos, densos e inseguros. A aposta é sempre uma aposta pela vida, por uma desterritorialização que possa agenciar uma linha de fuga, que possa afetar linhas de intensidades. Ou seja, o menor opera sempre na dobra de uma dupla região de intensidades cujas pinças buscam capturar possíveis. Encontrar a imanência do menor, assim, é sempre um processo cartográfico.

A verdade é que o debate sobre o menor sempre engravida a micropolítica e as dinâmicas da linha de vida que se agenciam. O menor é sempre uma eterna aposta...

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

A esquerda tem a obrigação ética de ser reinventar!

Tenho pensado bastante nos resultados das últimas eleições no Brasil e analisado superficialmente a composição partidária dos prefeitos eleitos (ou reeleitos) nos municípios sobretudo no Rio de Janeiro. Acredito que a esquerda tem a obrigação ética de reinventar! De norte a sul do país, o levante da direita produziu resultados. Isso não significa propriamente que a direita tenha se reinventado, pelo contrário, continuou apropriada de sua velha tática somado a uma pitada de fascismo. Eu não sou cientista política, de modo que falo a partir do que eu acompanho e penso. Contudo, a situação do Rio é especialmente reveladora (embora São Paulo tenha exigido Dória) porque evidencia de algum modo uma ascensão conservadora que literalmente entregou a segunda maior cidade do país nas mãos da igreja e tudo que esse projeto de poder representa! No entanto, há uma linha de fuga: a quantidade de abstenções e é aí que a esquerda deve debruçar-se! Isso nos dá pistas de que há uma insatisfação política sobre a qual deve-se trabalhar! 

Eu estive em São Paulo nessa semana e tive o privilégio de assistir a uma das palestras de Antonio Negri com o Peter Pál Pelbart e outros nomes. Negri falava que a esquerda socialista havia chegado ao seu limite portanto que havia sido "encerrada", Peter no entanto trouxe na sua fala as manifestações de 2013 e, de certo modo, uma dimensão temporal que culmina nos processos políticos de 2016 que produziu efeitos que ainda estamos tendo que lidar sócio-politicamente. Eu dirigi uma pergunta a Negri questionando o papel da micropolítica agenciada pela macropolítica. Na minha concepção, houve por parte da esquerda um enfraquecimento dos agenciamentos micropolíticos sobretudo no que diz respeito as demandas reclamadas pelos feminismos (transfeminismo e intesserccional) para uma política dos corpos e das subjetividades. Nesse sentido, é inevitável não lembrar que o próprio PT em nome da governamentabilidade estabeleceu alianças com os setores mais reacionários da direita resultando em alianças questionáveis e levando ao poder nomes como os de Crivella e Marcos Feliciano, entre outros. A própria presidenta Dilma disse que não faria "propaganda de opção sexual" (veja aqui) quando ainda em 2011 tentava-se levar para as escolas o debate sobre a homofobia. Os setores mais conservadores da população reagiu e nomeou pejorativamente o projeto como "kit gay" e Dilma simplesmente proibiu a circulação do material. Dilma também não se pronunciou a respeito do cargo de presidente da Comissão de Direitos Humanos estar, à época, nas mãos de Marco Feliciano (veja aqui). Além disso, nomeou para o cargos de ministros nomes ligados ao que há de mais conservador e retrógrado no Brasil, num gesto claramente ruía a ideologia vigente da esquerda. E é sobre esse ponto específico que gostaria de me ater. 

Compreendo que não se faz política sem alianças, mas quais são preços dessas alianças?! Bom, acredito que o PT tenho sentido na pele os efeitos do impeachment da presidenta Dilma como resultado de alianças espúrias e questionáveis. Na verdade, toda a população, não importa se de esquerda ou direita, vem sentido os efeitos desse impeachment, não preciso nem dizer que quem sente mais esses efeitos são os pobres. O partido também teve de lidar com inúmeros escândalos de corrupção o que de certo modo facilitou o discurso "anti-PT". Sob a égide da "não corrupção", que se tornou praticamente um devir discursivo, a direita foi capinando o terreno para literalmente assassinar a democracia no país. A narrativa do impeachment foi replicada inesgotavelmente pelos meios hegemônicos de comunicação com pitadas de sensacionalismo. Em suma, estava em curso um golpe apoiado judicialmente na retórica da "não-corrução". A questão é que criminalizou-se apenas o PT e partidos como PMDB (que abraça nomes como os de Eduardo Cunha, Michel Temer e Pezão - que faliu o Rio de Janeiro), PSDB, DEM e muitos outros de algum modo foram blindados pelo judiciário. Em seguida iniciou-se uma espetacularização e/ou uma hiper midiatização do ritual judiciário. Conversas entre Lula e Dilma foram divulgadas de modo questionável e arbitrário, houve milhares de mandatos de segurança contra as ações de Dilma de nomear Lula como seu ministro, entre outras tantas coisas. Tudo isso deixa claro para mim duas coisas: a primeira, o projeto conservador e patriarcal de poder de uma direita cisheterocêntrica e branca (basta olhar para a composição do des-governo Temer) e, segundo, as costuras que formam um verdadeiro Estado de Excessão composto pelas alas mais conversadoras e retrógradas junto com o poder judiciário (que logo em seguida ao impeachment obteve reajuste de 41,4% dos salários que vale frisar são os mais altos do funcionalismo público, veja aqui). Tudo isso somado às diversas outras questões que seria impossível nomear aqui forçam a esquerda eticamente a ser reinventar! Reinventar ideologicamente, e aqui concordo com Negri ao pontuar o fim de uma esquerda socialista e reconhecer que a dinâmica do mundo contemporâneo vai muito além de uma polaridade entre classes e reconhecendo que o projeto socialista durou o que tinha que durar diante das amarras e das forças globais do capitalismo. É claro, que isso não significa que não haverá mais lutas de classe, de dominação e etc., mas que a dinâmica política não flui somente neste eixo! Reinventar-se no sentido também das assimetrias de gênero e sexualidade tendo em vista que há setores da esquerda absolutamente conservadores, machistas e homo-transfóbicos.   Reinventar-se em suas dinâmicas econômicas e aqui reconheço o quão denso isto é. Primeiro porque a lógica de mercado é extremamente dinâmica e assimétrica, depois porque o "mercado" ainda está nas mãos de poucos o que dificulta a aposta socialista da esquerda. É necessário pensar sobre esse ponto tendo em vista a própria experiência de alianças que o PT estabeleceu e o levou à ruína! Por outro lado, projetos sociais como os efetivados pelo governo do eterno presidente Lula foram extremamente bem sucedidos e retirou da linha de pobreza extrema milhões de pessoas!

Enfim, não acredito que a esquerda tenha "acabado" ou sido destruída como puder ler em alguns sites da direita. Houve sim uma derrota expressiva do projeto político da esquerda, mas só o tempo nos dirá os rumos que devemos tomar, neste ponto resgato sutilmente a fala de Peter Pál Pelbart sobre o tempo e acrescento que o tempo carregar em si um dispositivo micropolítico que fará frente à macropolítica conservadora e retrograda por hora em voga. Talvez levemos cerca de uma década para assimilar os efeitos dessa "nova"-velha política que ao meu ver nada mais é que um projeto de resgate colonial extremamente danoso. Um ponto no entanto deve ser imediatamente revisto, a força do poder judiciário de legislar não só sobre nossas vidas e corpos, mas assumir papel de destaque na dinâmica política. Não significa extinguir o judiciário, mas reavaliar os privilégios e poderes excessivos de juízes, promotores e desembargadores, afinal deveria valer aquela velha máxima "somos todos igual perante a lei".

Por fim, as próximas eleições são importantíssimas e a esquerda precisa se atinar para isso. Elegeremos deputados federais, senadores e presidente. O rumo do país dependerá da composição da Camara e do Senado, se elegermos os mesmos atores pouca coisa ou nada irá mudar! Efetivamente é importantíssimo que os partidos de esquerda busquem novas táticas discursivas e outros modos de operar porque a direita está com a faca e o queijo nas mãos!   

domingo, 9 de outubro de 2016

Gritar é preciso porque viver é preciso

Em 2013 eu li um texto da Tatiana Lionço com o qual me identifiquei imediatamente. Naquela ocasião, tal qual Tatiana, eu gritava bastante! Dada as devidas diferenças, Lionço explicava os motivos que a levaram gritar na Câmara dos Deputados (você pode conferir aqui). A frase "estupro moral", que Tatiana usa, me parece bastante pertinente para justificar os abusos e as violências simbólicas aos quais tive que lidar durante toda minha vida. Em 2013 eu gritava pelos corredores da UFRJ, aliás o grito foi a tática mais utilizada naquela instituição desde o momento em que coloquei meus pés lá dentro. Hoje, no entanto, passados três anos e já no mestrado penso que é importante continuar gritando em outros espaços, inclusive na instituição onde atualmente curso o mestrado, a Universidade do Estado do Amazonas.  

Curiosamente, essa semana conversava com uma amiga e falávamos justamente sobre o grito como uma forma de resistência, ela me dizia que tinha a sensação que estava do outro lado do rio apontando o dedo e vociferando sem com isso obter resultados profícuos e que talvez fosse necessário encontrar novas táticas de sobrevivência e de resistência. Eu tendo a concordar com ela, mas não posso me dar ao luxo de não gritar! A tática do grito está impregnada no meu corpo, na minha subjetividade. É importante frisar que certas existências só são possíveis pelo viés da ruptura, mas romper exige, muitas vezes, gritar! Gritar tanto que nem a rouquidão seja capaz de te calar. Infelizmente (ou felizmente) o grito se faz necessário porque viver é preciso! Todos os dias nós (r)existimos! 

"Nunca foi um hábito ou predileção argumentativa", diz Tatiana em seu texto. Na verdade para a maioria das pessoas cis e brancas, o grito jamais se constituirá como hábito. Diante das dinâmicas históricas desse país, os brancos, e sobretudo os homens (cis) brancos, não precisaram gritar, a não ser para impor ao povo goela abaixo suas vontades políticas! A tribuna é o espaço institucional do grito por excelência! No caso de Tatiana, foi praticamente inevitável tomar o grito como hábito. O que há, no entanto, no grito é o caráter mais intrínseco da resistência, da dor, do desespero. Gritamos quando estamos com medo, gritamos quando sentimos fortes dores, gritamos quando somos estupradas... gritamos... gritamos... O estupro moral também exige nosso grito, tal qual Tatiana, eu e muitas outras mulheres negras e trans nos sentimos estupradas moralmente todos os dias. Sendo assim, é urgente voltar a gritar!

Meses atrás eu gritei no meu prédio. Na ocasião me pareceu bastante necessário porque vizinhos soltavam fogos quando a presidenta legitimamente eleita fora criminosamente deposta de sua função. Gritei sozinha na varanda! Berrava vigorosamente enquanto algumas pessoas me observavam perplexas!  Fazendo uma breve retrospectiva, esse também foi um ano de muitos gritos! Gritamos ao lado de amigos nos diversos "Fora Temer" no Rio de Janeiro, gritei nas passeatas da esquerda, gritei de desespero ao tentar socorrer meu avo que sucumbia à vida diante dos meus olhos, segurando em minhas mãos, gritei com meus pais que apoiavam o impeachment sem levar em consideração suas próprias histórias e suas próprias realidades... gritei muito! Gritei à mesa durante almoço de páscoa, em 2014, com os irmãos e a cunhada do meu marido que faziam piadas transfóbicas: destruí o simbolismo e a chatice daquele almoço! Venho gritando o tempo todo!  Valeu a pena? Funcionou?  Talvez não. Não consegui mudar as estruturas de opressão e as dinâmicas de poder que me capturam dia após dia. Mas continuo gritando porque acredito, sobretudo, na micropolítica! Nos pequenos abalos, nos sutis deslocamentos: eu grito porque preciso viver! Eu grito para me salvar!

A angustia não pode me calar, tirarei dos pulmões toda força, todo ar para emitir ao menos um som. O som do grito ativa em mim diversos sentidos e produz no outro, ainda que de forma discreta, fissuras! Embora não seja 100% eficaz, o grito nos conduz a uma espécie de presentificação. Um estado de existência momentânea, nos conduz a uma humanidade, mesmo que fraturada. Para Tatiana, serviu como uma forma de devolver, minimamente, sua dignidade tão atacada! Para mim, funciona na mesma linha! Eu acredito que o grito se configura como uma linha de fuga, tomando o pensamento de Deleuze e Guattari. Ele é em si um rizoma porque carrega, ou melhor, aglutina em seu interior uma série de dispositivos que se agenciam coletivamente no calor do momento em que sai de nossos pulmões, quando faz tremer nossas cordas vocais e torna vibrátil nossos sentidos, nosso próprio corpo! 

Na UEA, cada vez mais percebo que é importante gritar. Dias atrás encontrei o prédio da reitoria completamente paralisado para realização de uma missa em comemoração ao aniversário do reitor. Nada funcionava durante a missa! Não sou e nem quero ser especialista em direito, deixo isso para a multidão ensandecida da internet, mas isso configura uma grave e clara violação ao Estado Laico e ao funcionamento ético das instituições. A violência simbólica exercida por um professor, no curso de mestrado, é outro fator que me traz preocupação com os rumos e as próprias dinâmicas da Academia, não se liberta a criatividade com medo, pelo contrário, aprisiona-a!  Aliás, não desejo provocar discussões bairristas, mas violações institucionais e corporativistas são bastante comuns em Manaus, uma cidade profundamente violenta nas relações interpessoais, sobretudo no que diz respeito à classe social, "negritude" e outras tantas "variantes demográficas" (em aspas porque coloco esses termos em suspensão e suspeição). Na verdade, pensando aqui com meus botões e para ser justa com Manaus, isso ocorre no Brasil inteiro! Acabei de relatar acima que gritava muito da UFRJ e no Rio, ou São Paulo, ou Brasília, ou Belo Horizonte, ou Curitiba... não importa aonde! O nosso país é pautado pela imposição violenta do patriarcado que ceifa a vida de milhares de mulheres (cis e trans) e jovens negros todos os dias, fruto do nosso passado-presente colonial! Nosso país odeia os pobres e temos que gritar uníssono! Nos unir em nossas próprias multidões, efetivar e empoderar nossas coletividades e denunciar toda violência, ou melhor, todo estupro moral ao qual acabamos condicionados nessa dinâmica perversa e extremamente assimétrica! Gritemos!   

Quais devem ser, já que o grito se mostra muitas vezes ineficiente, as outras ou novas estratégias de combate? Com que armas poderíamos lutar se não o próprio corpo! Se o corpo é um campo de batalha é com ele que devemos ir à luta (entenda isso metaforicamente e literalmente)! Creio que já passamos o limite da resiliência, a desobediência civil urge antes que sejamos destruídos por rolos compressores! Por hora, na carência de outras táticas, o grito, mesmo que fraco, é a máquina de guerra mais acessível para resistirmos às diversas violências simbólicas. Que possamos dispor dele, e de nossos corpos, para resistirmos à PEC 241. Que possamos antropofagar o modus operandi dessas instituições caretas, normativas e cristalizadoras dos modos produção de vida (em seu sentido mais amplo), afinal, como bem já dizia Oswald de Andrade, "só a ANTROPOFAGIA nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente".

Parafraseando Tatiana, "basta de estupro moral, de satanização e de atribuição de desvalor" aos nossos corpos e subjetividades. Que possamos agenciar nossos pulmões e gritar coletivamente porque viver é preciso!