Kill me and save my life
Dia aleatório (parte 1)
Faz alguns dias que entrei no facebook e, na medida em que rolava o feed, me deparei com a seguinte pergunta: "o que você tem feito nessa quarentena?". As respostas eram as mais mais variadas, teve gente que aproveitou para ler livros, outras para maratonar séries e outras que colocaram o sono em dia. Bem, confesso que fiquei um pouco tentada a responder, mas desisti na metade da frase por pura preguiça de escrever. Eu tenho sentido muito sono e dormido bastante, o que me parece francamente algo bom, mas a verdade é que eu me especializei em preparar omelete de queijo com presunto.
Dia aleatório (parte 2)
Sim, é isso mesmo que você leu. Sou oficialmente uma especialista em preparar omelete de queijo com presunto! Não que isso me torne uma chef de renome internacional, mas na boa, quem se importa com isso? MEU CÉREBRO! O sabor que sinto preencher minha lingua é quase terapêutico e eu acredito fortemente que você deveria tentar. É muito simples!
Primeiro, corte metade de uma cebola e a pique em cubinhos bem pequenos (você pode tirar a cebola se quiser). Depois, pegue um pedaço pequeno de bacon e faça o mesmo. Certifique-se que ele foi minusculamente picado. Daí refogue, em fogo baixo, a cebola e o bacon com um pouquinho de manteiga e leve fio de azeite. Enquanto isto, num recipiente, bata dois ovos e acrescente um pouquinho de salsinha bem picadinha (eu gosto de acrescentar um pedacinho de pimenta dedo de moça picada, mas você não precisa fazer isso se não desejar). Depois que os ovos estiverem batidos, pegue cerca de 4 fatias de presunto e corte-as rusticamente, faça o mesmo com dois ou três diferentes tipos de queijo (de sua preferência). Nas minhas experiências gastronômicas, notei que o queijo prato com o queijo minas funciona deliciosamente, mas eu também já testei com algumas variações de queijos franceses e ficou ótimo (exceto pelo cheiro que é um tanto desagradável). Depois que a cebola estiver bem dourada e o bacon ligeiramente frito, acrescente o presunto e mecha. Em seguida, acrescente os ovos batidos e sal à gosto, por fim junte o queijo. Prontinho!
Dia aleatório (parte 3)
Mas sabe de uma coisa? Ainda não estou 100% decidida quanto a bebida de acompanhamento. Tentei primeiro com suco de frutas, depois com Coca-Cola zero e, por fim, café com leite. Tudo me pareceu funcionar bem, dependendo exclusivamente do horário em que se faça a refeição, é claro! Tais variações podem servir para café da manhã, almoço ou lanche da tarde. Mas eu ainda não sei qual bebida é a melhor como acompanhamento. Nem em que horário. E não me venha com "diquinhas" de saúde... tou me lixando!
Semana aleatória (parte... sei lá! Porra!)
Enfim, foi isso que fiquei com vontade de responder aquele dia qualquer no facebook, mas a preguiça de escrever e começar um debate inútil me desestimulou fortemente. Seja como for, e mudando de assunto, eu tenho olhado meu cachorro trepar com o elefantezinho rosa de pelúcia que a Jaya deu a ele de presente antes de retornar à Manila. Eu acho engraçado, mas ao mesmo tempo fico com um tanto de dó do cachorro; ele só tem cinco meses e a veterinária sugeriu castrá-lo dentro de alguns meses mais. Ainda não tomei uma decisão, mas em breve terei de tomar.
Que dia é hoje? (merda...)
Alguém deveria avisar esses jornalistas da Globo News que o que eles chamam de "manifestantes", se aproximam muito mais de terroristas. T-E-R-R-O-R-I-S-T-A-S, achei melhor soletrar para que não reste dúvidas! Se você "protesta" contra o Estado Democrático de Direito, você é na verdade um terrorista, não existe outra palavra. Que merda!
Continuação
Toda essa gente sabia que o presidente era um merda de fascista com atitude autoritária. Ele não enganou ninguém, sua burrice e preconceitos incomensuráveis sempre fizeram parte de seu repertório de macho tacanho. Além disso, tão pouco é novidade seu apreço escancarado à tortura e à ditadura. O cara sempre foi esse merda que todo dia abre a boca para soltar mais merda. E se vivêssemos num país que respeita os fundamentos democráticos, esse escroto jamais teria sido eleito presidente! Vai à merda todos vocês!
Desabafo (claquete 1)
Xingar o presidente é um desabafo e tanto, eu sei, eu sei! Mas um tipo que desabafo que na redoma do meu lar me proporciona um tantinho de prazer e também funciona como uma forma de colocar para fora algumas coisas estranhas que tenho sentido durante essa quarentena. Não que se trate de um sentimento necessariamente novo, mas é que tem sido um tanto doloroso recobrar o bom senso. Vou confessar algo; acho, veja bem, ACHO, que estou voltando a ser aquela garota de cerca de 12 ou 13 anos atrás que extravasava a raiva que o mundo me fazia passar, devolvendo pro mundo de maneira quase esquizofrênica. O ódio pelo presidente é uma das muitas válvulas de escape. Eu não tenho mais paciência com homens!
Desabafo (claquete 2)
Sabe, caro leitor desconhecido, eu creio que o meu maior erro foi esperar que no meio dessa travessia de mar revolto (que para mim já dura alguns bons anos. Precisamente, 5 anos. Se você quer mesmo saber.), aparecesse um principe encantado para me salvar, como nos filmes da Disney...
Interrompemos a programação para...
MEU CACHORRO ESTÁ FAZENDO UMA ORGIA COM OS BRINQUEDOS DE PELÚCIA DELE. PERVERTIDO! VEJA VOCÊ SE TEM CABIMENTO?
Desabafo (claquete 2.2 - caindo na real!)
Eu baixei o Tinder pela milésima vez atrás desse propósito tosco. É óbvio que não iria aparecer merda de príncipe nenhum, mas a carência afetiva é tão grande que faz você se apegar a qualquer fudido que diga que você é absurdamente linda e inteligente (mesmo que você desconfie que ele tenha dito isso para pelo menos 50 outras mulheres, no mínimo!). Em geral, as conversas no Tinder não passam de um "Oi, tudo bem?" e que tem como resposta um "tudo bem e você?". Creia em mim, quase metade das vezes as coisas vão parar por aí. É o fim da "profunda e interessante" conversa. Então, a iludida aqui faz o que? Exatamente, insiste em perder minutos do dia deslizando imagens de homens de varias cores, lugares, idades e alturas e orçamentos para esquerda ou direita. Os que vão para direita são aqueles que ela - no caso ela sou eu mesma - acha que podem ser legais (idiota!).
Pausa para respirar (desabafo da angústia)
Outro dia eu me perguntei quem me ajudava. Ok, eu reconheço que esse é um questionamento injusto. Mas a verdade é que os últimos dez anos da minha vida, praticamente uma única me pessoa realmente se importou comigo: meu ex-marido (por mais bizarro que ele tenha sido). Teve também o querido Borba e Fátima, eu os amo.
Gente, eu não aguento mais ajudar ninguém. Meu telefone toca e eu já sinto taquicardia. É essa a razão que ele tem estado 100% do tempo no silencioso. SAÚDE MENTAL, querido desconhecido leitor.
Eu sei, eu sei... estamos atravessando um momento delicado. Mas eu não estou bem, é sério. Só quero ficar encolhida na minha cama, ouvindo uma música depressiva enquanto choro. Eu não quero ajudar ninguém. Eu não aguento mais ver o sofrimento das pessoas, isso tá me fazendo muito mal. MESMO!
Eu não quero ser forte merda nenhuma. Eu só quero chorar e comer chocolate enquanto reclamo que estou engordando. Será que eu posso?
Seja como for, me enche os olhos (e o coração) a rede de afeto que criamos para ajudar vítimas de Covid, uma criança que engravidou e pessoas das favelas... eu amo vocês por me inspirarem, mas eu quero ser ajudada a fica na minha cama, debaixo do edredom chorando (e comendo chocolate) sem que ninguém me mande uma mensagem a cada cinco minutos me convocando para alguma coisa não remunerada e com alto risco de depressão pós-ação. Posso ou é pedir muito?
Saibam que fui xingada por usar máscara. Eu quero chorar na minha cama. Me ajudem não me convocando para nenhum ação solidária e nem me fazendo ter que parecer forte porque eu definitivamente não sou!
Quebrei a cara (claquete 3)!
Muito bem, eu passei a véspera do feriado do dia 1 de maio me dividindo entre a chatice de uma demanda que a Gilmara me encaminhou, leitura de um livro de ficção científica e a preparação para um encontro virtual (como eu sou estúpida, misericórdia!).
Bom, eu tinha um encontro e confesso que estava bastante animada com o encontro, mas - como sempre - hiper apreensiva. Acordei cedo, levei o cachorro na rua (é serio, a cena dele fazendo orgia com os brinquedos não sai da minha cabeça), depois voltei tomei meu café (minha deliciosa e única omelete), fiz as coisas que Gilmara pediu ("Sério? tenho que continuar fazendo isso em pleno feriado?", foi o que pensei enquanto fulminava), li um pouco e decidi que não deveria almoçar para parecer o mais magra possível (é meus caros, a ansiedade afetiva torna a gente na coisa mais estúpida do universo, não digam que não avisei!) então tomei um demorado banho ao som de Cazuza e hidratei meu cabelo.
Saí do banho enrolada numa toalha e fui direto pro meu quarto cuidar da minha pele, especialmente da pele do rosto (queria parecer com uma pele impecável na chamada de vídeo). Eu paguei os cremes e produtos que usei em mil parcelas no cartão de crédito e, sem querer parecer esnobe, custam muito mais que meu fodido salário de professora substituta. Mesmo endividada (sim, eu estou endividadíssima), eu tinha a sensação de que ninguém no planeta Terra, quiçá no universo, tivesse a pele tão macia, brilhante e perfumada quanto a minha (que ódio de mim mesma, cachorra vira-lata de última categoria!). Olhei no espelho e me senti como uma adolescente se arrumando para ir ao cinema com o menino mais bonito da escola. É que senti orgulho da mulher linda que me transformei, só Deus sabe o quanto isso foi difícil!
Terminado os cuidados com a pele, fiz a sobrancelha resmungando comigo mesma o fato de todos os salões de beleza do bairro estarem fechados ("odeio fazer a própria sobrancelha", pensei fazendo draminha de garota fodida que ascendeu à precaríssima classe média brasileira que paga tudo parcelado em mil vezes no cartão). Depois sequei o cabelo e pranchei. Que brilho! "Eu amo Kerástase", sorria internamente com o eco dessas palavras na minha mente.
"Quero uma maquiagem leve e natural", disse a mim mesma enquanto mudava de Cazuza para minha playlist de músicas românticas da década de 1990. Comecei com "Underneath the Stars" da Mariah Carey, eu particularmente amo essa música e acho que ela é perfeita enquanto você se arruma para encontrar (pela internet) seu mais novo futuro "homem da sua vida" (como é que eu posso ser tão idiota assim? Tava na cara que eu ia quebrar a fuça! Alguém me cobre de porrada, pelo amor de Deus!)
One summer night
We ran away for while
Laughing, we hurried beneath the sky
To an obscure place to hide
That no one could find
And we drifted to another state of mind
And imagined I was yours and you were mine
As we lay upon the grass
There in the dark
Underneath the stars...
Cantava Mariah enquanto euzinha arrasava na minha make leve e natural. Minutos depois eu estava pronta, linda e magra (que merda, como é que eu posso reproduzir tantos estereótipos assim? Como é que eu, uma pesquisadora e ativista ferrenha, me deixo capturar desse modo. Acho que as semióticas são mais resistentes e estratégicas do que pensamos!).
Escolhi um top jeans e um short descoladinho da Colcci. Joguei um kimono colorido por cima e borrifei pelo corpo o meu Chanel Coco Mademoiselle (que já está quase acabando... ai Jesus, mais uma dívida vindo aí!). Seja como for, eu estava linda! Para completar o look, resolvi usar meu óculos para parecer inteligente (não sei quem inventou isso, mas funciona!) e sexy (sem estar vulgar).
Respondi a mensagem de Whatsapp doidiota boy da seguinte maneira: "estou pronta em cinco minutos, apenas terminando umas escritas". Mentira, eu não estava escrevendo nada, só não queria parecer ansiosa demais. Mas eu estava.
Horas e horas a fio!
Como eu queria parecer que realmente era uma garota séria (juro que essa merda desse rótulo é uma perversidade comigo mesmo), resolvi que faria a chamada a partir do meu escritório, com minhas estantes de livros aparecendo ao fundo. Enquanto mastigava uma banana, lembrei de alguma bobagem que havia lido na internet tempos atrás: "seja uma piranha, mas uma piranha com estudo", creio que foi a fada da Tati Quebra-Barraco que disse, mas não tenho certeza. Bem, eu tenho estudo e sou séria, mas não tenho um namorado e quero sair desse deserto afetivo, será que é pedir muito?!
Uma chamada de vídeo pula na tela do meu celular (e faz o meu coração disparar), é oidiota boy que conheci no Tinder (É sério, como é que eu posso ser tão iludida assim? Não bastava a experiência com imbecil do Stephan por que me apaixonei e tenho que lutar para esquecer? Por que eu insisto em me iludir achando que um homem do outro lado oceano vai ser o mais novo "homem da minha vida"?).
Deixe-me tentar descrever um pouco do cara. Ele é um charmoso homem inglês, com o sotaque característico dos londrinos (ai, que saudade de Londres, como eu amo esse lugar!), com 34 anos de idade. Classe média. Branco (ouço ecoar no fundinho do meu ouvido a voz do Fabrice me chamando de palmiteira), com cerca de 1.82 cm de altura. Por alguma razão desconhecida, quando eu vi sua foto no Tinder senti uma vontade enorme de beijar aqueles lábios rosas. Então, eu faria todo possível para conhecer-lo, quem sabe assim o Stephan finalmente ficasse no passado? Quando começamos a trocar mensagens, o assunto foi acontecendo de maneira tão natural que aquele "tudo bem?" do estágio inicial-final da conversa (lembra?) havia ficado soterrado na maravilhosa e agradável conversa.
Ficamos quatro horas e meia naquela chamada de vídeo (para ser específica foram 4 horas e 33 minutos). Falamos de tudo um pouco... da família, de relacionamentos, de viagens, trabalho, estudos, sexo, restaurantes, sobre como seria nosso primeiro encontro real... é sério, foi muito bom! "Finalmente encontrei um cara que posso curtir a presença e o papo", pensei enquanto dava gritinhos internos feito uma menina que tinha acabado de dar seu primeiro beijo. O que é que a carência não faz conosco... Ela pinta com a nossa cara, ou melhor, com nosso coração.
Desdobramentos (tragédia 1)
"Por que raios o meu cachorro insiste em latir para deus e o mundo?", resmungava mal-humorada numa manha de sábado enquanto Vartan me arrastava pela coleira (sim, parecia que eu é quem estava na coleira!). O meu rancor com o latido do cachorro foi interrompido com o celular vibrando com a mensagem que acabara de chegar: Good morning, beautiful. I really loved our conversation yesterday. I do hope to talk to you again today. Eu li a mensagem imaginando o sotaque forte inglês, ai que merda, tou apaixonadinha assim tão fácil?
Pisei no cocô, caralho!
Desdobramentos (tragédia 2)
O senhor do prédio ao lado me parou. Ele queria me dizer como eu deveria alimentar meu cachorro, vê se pode uma coisa dessas? Pegue um peito de frango e o cozinhe, mas não coloca sal. Depois o desfie e misture com cenoura ralada porque é bom para os olhos dele. Blá blá bla... Por dentro eu estava fulminando, mas não queria demostrar antipatia e fingi que estava prestando atenção, enquanto fingia um sorriso escondido pela máscara anti-coronavírus. Na verdade, eu só queria ir para casa lavar meu chinelo e responder a mensagem doidiota boy.
Na portaria do meu prédio, o bolsominion do meu vizinho reclamou do cheiro de merda. Senti vontade de jogar o chinelo cheio de bosta na cara dele, mas achei prudente me conter e apenas fingir demência.
Desdobramentos (tragédia 3)
Fui tomada por uma forte onda de insegurança. "Ai meu deus! E agora?", é assim que muitas mulheres trans se sentem no início de qualquer relação, por mais efêmera e superficial que esses tipos de relações possam ser.
Eu não havia contado para o homem inglês de sotaque londrino forte que eu era uma mulher trans, mesmo tendo pensando nisso em diversos momentos das conversas anteriores e na chamada de vídeo 4 1/2. Embora tivéssemos falado sobre sexo, eu queria de fato mostrar que apesar de tudo eu sou uma mulher como outra qualquer, que trabalho, que estudo, que tenho sonhos e desejos (mesmo que isso não seja necessariamente qualidades destacáveis).
Por alguma razão, a conversa chegou nesse lugar e senti que deveria falar.
Falei, inseguramente, falei. Contei sobre minha cirurgia de readequação sexual, sobre o motivo de não ter dito antes e que, completo dizendo, que estava muito afim dele.
Vou tentar resumir o que passou para a história não ficar longa e repetitiva demais:
Ele disse que não esperava. Ele disse que eu era uma mulher absolutamente linda. Ele disse que não se importava que eu fosse trans. Mas... (senta lá, porque é a mesma ladainha de sempre) que ele queria ter filhos.
Por que as pessoas justificam seus preconceitos recorrendo a uma biologia essencialista e profundamente metafísica? Ou recorrendo às diferenças culturais como "máquinas" intransponíveis. Porra, tava na cara do babaca que ele estava super atraído por mim. Honestamente, eu odeio a humanidade e sua incessante hipocrisia e costumes morais.
Ranço... (de mim e do mundo - latitude 0).
É justo que ele queira ter filhos. Mas usar isso como argumento em pleno século XXI com toda tecnologia reprodutiva disponível no planeta? Justo ele, que trabalha em um hospital de Londres?
Seja como for, o ranço se instalou. Não necessariamente nele, ranço de mim, por mim. Que saber, raiva dele também! Sim, ódio. Caralho, eu sou uma escrota, idiota do cacete! Afinal, essa não é a primeira vez e, honestamente, não acho que será a última. Senti raiva de mim por ter me permitido ser tão ingênua, por ter perdido horas da minha vida com um nada. Não esqueçam, eu conheci o cara no Tinder, e por mais que houvesse química, eu meio que já estou habituada com essa escrotidão cisgênera.
Ranço... (longitude... ai, que se foda!)
Eu passei o dia bem mal hoje. Puxa, às vezes a gente se deixa iludir justamente pra viver uns momentinhos bacanas. Se sentir menos lixo que o lixo da cisgeneridade. Mas o ranço vem quando a gente cai na real. A gente cria essas imagens na tentativa de não sufocar, mesmo sabendo que as chances de quebrar a cara são infinitamente maiores.
Tentei atribuir esse momento de fraqueza ao isolamento social, mas convenhamos... eu sei tanto quanto você que as mulheres trans sempre estiveram à margem de uma vida afetiva plena. Eu sempre estive em isolamento social. Na pura verdade, meus relacionamentos começaram muito tarde, mesmo os profissionais e acadêmicos, mas isso é outra história. Eu estou acostumada com essa merda, não posso me deixar afundar nessa merda, porra!
Seja como for, já foi. Vivi o momento Cinderela (que eu mesma inventei) porque quis tentar enganar a solidão ao invés de aceita-la e enfrentá-la maduramente. E que se foda o babaca de Londres!
O que será que será?
Depois da chuva de hoje, eu ouvi os pássaros entoarem cânticos. Eu amo ouvir os pássaros. Me acalmam. Esqueci o amor vendaval pelo boy lixo. Sabe de uma coisa? Talvez eu fique realmente sozinha... Não devo esperar que surja um principe encantado e salve a minha vida... a gente dedica horas, dias, anos de nossa vida acreditando nisso. Acreditando numa abstração perversa enquanto interiorizamos a culpa por sermos o que somos.
Ontem à noite, eu fiz Caldo Verde pela primeira vez. Mas só fiz porque eu tava muito fodida e decidi ocupar minha mente com alguma coisa. Peguei um desses tutoriais no Youtube (Se duvidar, você aprende até a fazer cirurgias, tem gente ensinando de tudo... resta saber se o conhecimento é embasado). Seja como for, eu só queria um caldo para a fria noite de 22 graus no Rio de Janeiro (tremia entre soluços e a tentativa inútil de me aquecer por pura preguiça de pegar um casaco... eu sou uma merda mesmo).
Deu certo! No fim, fiz do meu próprio jeito porque fiquei com preguiça de ver o video todo. Por que raios esses Youtubers fazem de tudo para parecerem idiotas? Bom, ninguém parecia mais idiota do que euzinha esperando que um fodido do Tinder fosse a solução de um amor imaginário, é verdade! Voltei a chorar de raiva e tristeza de mim (um pouco de pena também).
Eu voltei ao facebook hoje. Tinha milhares de posts sobre a Covid-19. Isso tá me deixando com medo. Não deveria, mas tenho medo. Por mim, pelas minhas, por esse mundo lixo.... Resolvi responder um desses quizzes estúpidos.... "Opá, sou boa mesmo em geografia! Acertei 22 países entre 25".
Vixe... isso tá esquizofrênico!
Aff... alguém precisa me salvar de mim mesma... o ciclo teria recomeçado?
Sei lá, mas antes que seja... someone please, kill me and save my life.
Faz alguns dias que entrei no facebook e, na medida em que rolava o feed, me deparei com a seguinte pergunta: "o que você tem feito nessa quarentena?". As respostas eram as mais mais variadas, teve gente que aproveitou para ler livros, outras para maratonar séries e outras que colocaram o sono em dia. Bem, confesso que fiquei um pouco tentada a responder, mas desisti na metade da frase por pura preguiça de escrever. Eu tenho sentido muito sono e dormido bastante, o que me parece francamente algo bom, mas a verdade é que eu me especializei em preparar omelete de queijo com presunto.
Dia aleatório (parte 2)
Sim, é isso mesmo que você leu. Sou oficialmente uma especialista em preparar omelete de queijo com presunto! Não que isso me torne uma chef de renome internacional, mas na boa, quem se importa com isso? MEU CÉREBRO! O sabor que sinto preencher minha lingua é quase terapêutico e eu acredito fortemente que você deveria tentar. É muito simples!
Primeiro, corte metade de uma cebola e a pique em cubinhos bem pequenos (você pode tirar a cebola se quiser). Depois, pegue um pedaço pequeno de bacon e faça o mesmo. Certifique-se que ele foi minusculamente picado. Daí refogue, em fogo baixo, a cebola e o bacon com um pouquinho de manteiga e leve fio de azeite. Enquanto isto, num recipiente, bata dois ovos e acrescente um pouquinho de salsinha bem picadinha (eu gosto de acrescentar um pedacinho de pimenta dedo de moça picada, mas você não precisa fazer isso se não desejar). Depois que os ovos estiverem batidos, pegue cerca de 4 fatias de presunto e corte-as rusticamente, faça o mesmo com dois ou três diferentes tipos de queijo (de sua preferência). Nas minhas experiências gastronômicas, notei que o queijo prato com o queijo minas funciona deliciosamente, mas eu também já testei com algumas variações de queijos franceses e ficou ótimo (exceto pelo cheiro que é um tanto desagradável). Depois que a cebola estiver bem dourada e o bacon ligeiramente frito, acrescente o presunto e mecha. Em seguida, acrescente os ovos batidos e sal à gosto, por fim junte o queijo. Prontinho!
Dia aleatório (parte 3)
Mas sabe de uma coisa? Ainda não estou 100% decidida quanto a bebida de acompanhamento. Tentei primeiro com suco de frutas, depois com Coca-Cola zero e, por fim, café com leite. Tudo me pareceu funcionar bem, dependendo exclusivamente do horário em que se faça a refeição, é claro! Tais variações podem servir para café da manhã, almoço ou lanche da tarde. Mas eu ainda não sei qual bebida é a melhor como acompanhamento. Nem em que horário. E não me venha com "diquinhas" de saúde... tou me lixando!
Semana aleatória (parte... sei lá! Porra!)
Enfim, foi isso que fiquei com vontade de responder aquele dia qualquer no facebook, mas a preguiça de escrever e começar um debate inútil me desestimulou fortemente. Seja como for, e mudando de assunto, eu tenho olhado meu cachorro trepar com o elefantezinho rosa de pelúcia que a Jaya deu a ele de presente antes de retornar à Manila. Eu acho engraçado, mas ao mesmo tempo fico com um tanto de dó do cachorro; ele só tem cinco meses e a veterinária sugeriu castrá-lo dentro de alguns meses mais. Ainda não tomei uma decisão, mas em breve terei de tomar.
Que dia é hoje? (merda...)
Alguém deveria avisar esses jornalistas da Globo News que o que eles chamam de "manifestantes", se aproximam muito mais de terroristas. T-E-R-R-O-R-I-S-T-A-S, achei melhor soletrar para que não reste dúvidas! Se você "protesta" contra o Estado Democrático de Direito, você é na verdade um terrorista, não existe outra palavra. Que merda!
Continuação
Toda essa gente sabia que o presidente era um merda de fascista com atitude autoritária. Ele não enganou ninguém, sua burrice e preconceitos incomensuráveis sempre fizeram parte de seu repertório de macho tacanho. Além disso, tão pouco é novidade seu apreço escancarado à tortura e à ditadura. O cara sempre foi esse merda que todo dia abre a boca para soltar mais merda. E se vivêssemos num país que respeita os fundamentos democráticos, esse escroto jamais teria sido eleito presidente! Vai à merda todos vocês!
Desabafo (claquete 1)
Xingar o presidente é um desabafo e tanto, eu sei, eu sei! Mas um tipo que desabafo que na redoma do meu lar me proporciona um tantinho de prazer e também funciona como uma forma de colocar para fora algumas coisas estranhas que tenho sentido durante essa quarentena. Não que se trate de um sentimento necessariamente novo, mas é que tem sido um tanto doloroso recobrar o bom senso. Vou confessar algo; acho, veja bem, ACHO, que estou voltando a ser aquela garota de cerca de 12 ou 13 anos atrás que extravasava a raiva que o mundo me fazia passar, devolvendo pro mundo de maneira quase esquizofrênica. O ódio pelo presidente é uma das muitas válvulas de escape. Eu não tenho mais paciência com homens!
Desabafo (claquete 2)
Sabe, caro leitor desconhecido, eu creio que o meu maior erro foi esperar que no meio dessa travessia de mar revolto (que para mim já dura alguns bons anos. Precisamente, 5 anos. Se você quer mesmo saber.), aparecesse um principe encantado para me salvar, como nos filmes da Disney...
Interrompemos a programação para...
MEU CACHORRO ESTÁ FAZENDO UMA ORGIA COM OS BRINQUEDOS DE PELÚCIA DELE. PERVERTIDO! VEJA VOCÊ SE TEM CABIMENTO?
Desabafo (claquete 2.2 - caindo na real!)
Eu baixei o Tinder pela milésima vez atrás desse propósito tosco. É óbvio que não iria aparecer merda de príncipe nenhum, mas a carência afetiva é tão grande que faz você se apegar a qualquer fudido que diga que você é absurdamente linda e inteligente (mesmo que você desconfie que ele tenha dito isso para pelo menos 50 outras mulheres, no mínimo!). Em geral, as conversas no Tinder não passam de um "Oi, tudo bem?" e que tem como resposta um "tudo bem e você?". Creia em mim, quase metade das vezes as coisas vão parar por aí. É o fim da "profunda e interessante" conversa. Então, a iludida aqui faz o que? Exatamente, insiste em perder minutos do dia deslizando imagens de homens de varias cores, lugares, idades e alturas e orçamentos para esquerda ou direita. Os que vão para direita são aqueles que ela - no caso ela sou eu mesma - acha que podem ser legais (idiota!).
Pausa para respirar (desabafo da angústia)
Outro dia eu me perguntei quem me ajudava. Ok, eu reconheço que esse é um questionamento injusto. Mas a verdade é que os últimos dez anos da minha vida, praticamente uma única me pessoa realmente se importou comigo: meu ex-marido (por mais bizarro que ele tenha sido). Teve também o querido Borba e Fátima, eu os amo.
Gente, eu não aguento mais ajudar ninguém. Meu telefone toca e eu já sinto taquicardia. É essa a razão que ele tem estado 100% do tempo no silencioso. SAÚDE MENTAL, querido desconhecido leitor.
Eu sei, eu sei... estamos atravessando um momento delicado. Mas eu não estou bem, é sério. Só quero ficar encolhida na minha cama, ouvindo uma música depressiva enquanto choro. Eu não quero ajudar ninguém. Eu não aguento mais ver o sofrimento das pessoas, isso tá me fazendo muito mal. MESMO!
Eu não quero ser forte merda nenhuma. Eu só quero chorar e comer chocolate enquanto reclamo que estou engordando. Será que eu posso?
Seja como for, me enche os olhos (e o coração) a rede de afeto que criamos para ajudar vítimas de Covid, uma criança que engravidou e pessoas das favelas... eu amo vocês por me inspirarem, mas eu quero ser ajudada a fica na minha cama, debaixo do edredom chorando (e comendo chocolate) sem que ninguém me mande uma mensagem a cada cinco minutos me convocando para alguma coisa não remunerada e com alto risco de depressão pós-ação. Posso ou é pedir muito?
Saibam que fui xingada por usar máscara. Eu quero chorar na minha cama. Me ajudem não me convocando para nenhum ação solidária e nem me fazendo ter que parecer forte porque eu definitivamente não sou!
Quebrei a cara (claquete 3)!
Muito bem, eu passei a véspera do feriado do dia 1 de maio me dividindo entre a chatice de uma demanda que a Gilmara me encaminhou, leitura de um livro de ficção científica e a preparação para um encontro virtual (como eu sou estúpida, misericórdia!).
Bom, eu tinha um encontro e confesso que estava bastante animada com o encontro, mas - como sempre - hiper apreensiva. Acordei cedo, levei o cachorro na rua (é serio, a cena dele fazendo orgia com os brinquedos não sai da minha cabeça), depois voltei tomei meu café (minha deliciosa e única omelete), fiz as coisas que Gilmara pediu ("Sério? tenho que continuar fazendo isso em pleno feriado?", foi o que pensei enquanto fulminava), li um pouco e decidi que não deveria almoçar para parecer o mais magra possível (é meus caros, a ansiedade afetiva torna a gente na coisa mais estúpida do universo, não digam que não avisei!) então tomei um demorado banho ao som de Cazuza e hidratei meu cabelo.
Saí do banho enrolada numa toalha e fui direto pro meu quarto cuidar da minha pele, especialmente da pele do rosto (queria parecer com uma pele impecável na chamada de vídeo). Eu paguei os cremes e produtos que usei em mil parcelas no cartão de crédito e, sem querer parecer esnobe, custam muito mais que meu fodido salário de professora substituta. Mesmo endividada (sim, eu estou endividadíssima), eu tinha a sensação de que ninguém no planeta Terra, quiçá no universo, tivesse a pele tão macia, brilhante e perfumada quanto a minha (que ódio de mim mesma, cachorra vira-lata de última categoria!). Olhei no espelho e me senti como uma adolescente se arrumando para ir ao cinema com o menino mais bonito da escola. É que senti orgulho da mulher linda que me transformei, só Deus sabe o quanto isso foi difícil!
Terminado os cuidados com a pele, fiz a sobrancelha resmungando comigo mesma o fato de todos os salões de beleza do bairro estarem fechados ("odeio fazer a própria sobrancelha", pensei fazendo draminha de garota fodida que ascendeu à precaríssima classe média brasileira que paga tudo parcelado em mil vezes no cartão). Depois sequei o cabelo e pranchei. Que brilho! "Eu amo Kerástase", sorria internamente com o eco dessas palavras na minha mente.
"Quero uma maquiagem leve e natural", disse a mim mesma enquanto mudava de Cazuza para minha playlist de músicas românticas da década de 1990. Comecei com "Underneath the Stars" da Mariah Carey, eu particularmente amo essa música e acho que ela é perfeita enquanto você se arruma para encontrar (pela internet) seu mais novo futuro "homem da sua vida" (como é que eu posso ser tão idiota assim? Tava na cara que eu ia quebrar a fuça! Alguém me cobre de porrada, pelo amor de Deus!)
One summer night
We ran away for while
Laughing, we hurried beneath the sky
To an obscure place to hide
That no one could find
And we drifted to another state of mind
And imagined I was yours and you were mine
As we lay upon the grass
There in the dark
Underneath the stars...
Cantava Mariah enquanto euzinha arrasava na minha make leve e natural. Minutos depois eu estava pronta, linda e magra (que merda, como é que eu posso reproduzir tantos estereótipos assim? Como é que eu, uma pesquisadora e ativista ferrenha, me deixo capturar desse modo. Acho que as semióticas são mais resistentes e estratégicas do que pensamos!).
Escolhi um top jeans e um short descoladinho da Colcci. Joguei um kimono colorido por cima e borrifei pelo corpo o meu Chanel Coco Mademoiselle (que já está quase acabando... ai Jesus, mais uma dívida vindo aí!). Seja como for, eu estava linda! Para completar o look, resolvi usar meu óculos para parecer inteligente (não sei quem inventou isso, mas funciona!) e sexy (sem estar vulgar).
Respondi a mensagem de Whatsapp do
Horas e horas a fio!
Como eu queria parecer que realmente era uma garota séria (juro que essa merda desse rótulo é uma perversidade comigo mesmo), resolvi que faria a chamada a partir do meu escritório, com minhas estantes de livros aparecendo ao fundo. Enquanto mastigava uma banana, lembrei de alguma bobagem que havia lido na internet tempos atrás: "seja uma piranha, mas uma piranha com estudo", creio que foi a fada da Tati Quebra-Barraco que disse, mas não tenho certeza. Bem, eu tenho estudo e sou séria, mas não tenho um namorado e quero sair desse deserto afetivo, será que é pedir muito?!
Uma chamada de vídeo pula na tela do meu celular (e faz o meu coração disparar), é o
Deixe-me tentar descrever um pouco do cara. Ele é um charmoso homem inglês, com o sotaque característico dos londrinos (ai, que saudade de Londres, como eu amo esse lugar!), com 34 anos de idade. Classe média. Branco (ouço ecoar no fundinho do meu ouvido a voz do Fabrice me chamando de palmiteira), com cerca de 1.82 cm de altura. Por alguma razão desconhecida, quando eu vi sua foto no Tinder senti uma vontade enorme de beijar aqueles lábios rosas. Então, eu faria todo possível para conhecer-lo, quem sabe assim o Stephan finalmente ficasse no passado? Quando começamos a trocar mensagens, o assunto foi acontecendo de maneira tão natural que aquele "tudo bem?" do estágio inicial-final da conversa (lembra?) havia ficado soterrado na maravilhosa e agradável conversa.
Ficamos quatro horas e meia naquela chamada de vídeo (para ser específica foram 4 horas e 33 minutos). Falamos de tudo um pouco... da família, de relacionamentos, de viagens, trabalho, estudos, sexo, restaurantes, sobre como seria nosso primeiro encontro real... é sério, foi muito bom! "Finalmente encontrei um cara que posso curtir a presença e o papo", pensei enquanto dava gritinhos internos feito uma menina que tinha acabado de dar seu primeiro beijo. O que é que a carência não faz conosco... Ela pinta com a nossa cara, ou melhor, com nosso coração.
Desdobramentos (tragédia 1)
"Por que raios o meu cachorro insiste em latir para deus e o mundo?", resmungava mal-humorada numa manha de sábado enquanto Vartan me arrastava pela coleira (sim, parecia que eu é quem estava na coleira!). O meu rancor com o latido do cachorro foi interrompido com o celular vibrando com a mensagem que acabara de chegar: Good morning, beautiful. I really loved our conversation yesterday. I do hope to talk to you again today. Eu li a mensagem imaginando o sotaque forte inglês, ai que merda, tou apaixonadinha assim tão fácil?
Pisei no cocô, caralho!
Desdobramentos (tragédia 2)
O senhor do prédio ao lado me parou. Ele queria me dizer como eu deveria alimentar meu cachorro, vê se pode uma coisa dessas? Pegue um peito de frango e o cozinhe, mas não coloca sal. Depois o desfie e misture com cenoura ralada porque é bom para os olhos dele. Blá blá bla... Por dentro eu estava fulminando, mas não queria demostrar antipatia e fingi que estava prestando atenção, enquanto fingia um sorriso escondido pela máscara anti-coronavírus. Na verdade, eu só queria ir para casa lavar meu chinelo e responder a mensagem do
Na portaria do meu prédio, o bolsominion do meu vizinho reclamou do cheiro de merda. Senti vontade de jogar o chinelo cheio de bosta na cara dele, mas achei prudente me conter e apenas fingir demência.
Desdobramentos (tragédia 3)
Fui tomada por uma forte onda de insegurança. "Ai meu deus! E agora?", é assim que muitas mulheres trans se sentem no início de qualquer relação, por mais efêmera e superficial que esses tipos de relações possam ser.
Eu não havia contado para o homem inglês de sotaque londrino forte que eu era uma mulher trans, mesmo tendo pensando nisso em diversos momentos das conversas anteriores e na chamada de vídeo 4 1/2. Embora tivéssemos falado sobre sexo, eu queria de fato mostrar que apesar de tudo eu sou uma mulher como outra qualquer, que trabalho, que estudo, que tenho sonhos e desejos (mesmo que isso não seja necessariamente qualidades destacáveis).
Por alguma razão, a conversa chegou nesse lugar e senti que deveria falar.
Falei, inseguramente, falei. Contei sobre minha cirurgia de readequação sexual, sobre o motivo de não ter dito antes e que, completo dizendo, que estava muito afim dele.
Vou tentar resumir o que passou para a história não ficar longa e repetitiva demais:
Ele disse que não esperava. Ele disse que eu era uma mulher absolutamente linda. Ele disse que não se importava que eu fosse trans. Mas... (senta lá, porque é a mesma ladainha de sempre) que ele queria ter filhos.
Por que as pessoas justificam seus preconceitos recorrendo a uma biologia essencialista e profundamente metafísica? Ou recorrendo às diferenças culturais como "máquinas" intransponíveis. Porra, tava na cara do babaca que ele estava super atraído por mim. Honestamente, eu odeio a humanidade e sua incessante hipocrisia e costumes morais.
Ranço... (de mim e do mundo - latitude 0).
É justo que ele queira ter filhos. Mas usar isso como argumento em pleno século XXI com toda tecnologia reprodutiva disponível no planeta? Justo ele, que trabalha em um hospital de Londres?
Seja como for, o ranço se instalou. Não necessariamente nele, ranço de mim, por mim. Que saber, raiva dele também! Sim, ódio. Caralho, eu sou uma escrota, idiota do cacete! Afinal, essa não é a primeira vez e, honestamente, não acho que será a última. Senti raiva de mim por ter me permitido ser tão ingênua, por ter perdido horas da minha vida com um nada. Não esqueçam, eu conheci o cara no Tinder, e por mais que houvesse química, eu meio que já estou habituada com essa escrotidão cisgênera.
Ranço... (longitude... ai, que se foda!)
Eu passei o dia bem mal hoje. Puxa, às vezes a gente se deixa iludir justamente pra viver uns momentinhos bacanas. Se sentir menos lixo que o lixo da cisgeneridade. Mas o ranço vem quando a gente cai na real. A gente cria essas imagens na tentativa de não sufocar, mesmo sabendo que as chances de quebrar a cara são infinitamente maiores.
Tentei atribuir esse momento de fraqueza ao isolamento social, mas convenhamos... eu sei tanto quanto você que as mulheres trans sempre estiveram à margem de uma vida afetiva plena. Eu sempre estive em isolamento social. Na pura verdade, meus relacionamentos começaram muito tarde, mesmo os profissionais e acadêmicos, mas isso é outra história. Eu estou acostumada com essa merda, não posso me deixar afundar nessa merda, porra!
Seja como for, já foi. Vivi o momento Cinderela (que eu mesma inventei) porque quis tentar enganar a solidão ao invés de aceita-la e enfrentá-la maduramente. E que se foda o babaca de Londres!
O que será que será?
Depois da chuva de hoje, eu ouvi os pássaros entoarem cânticos. Eu amo ouvir os pássaros. Me acalmam. Esqueci o amor vendaval pelo boy lixo. Sabe de uma coisa? Talvez eu fique realmente sozinha... Não devo esperar que surja um principe encantado e salve a minha vida... a gente dedica horas, dias, anos de nossa vida acreditando nisso. Acreditando numa abstração perversa enquanto interiorizamos a culpa por sermos o que somos.
Ontem à noite, eu fiz Caldo Verde pela primeira vez. Mas só fiz porque eu tava muito fodida e decidi ocupar minha mente com alguma coisa. Peguei um desses tutoriais no Youtube (Se duvidar, você aprende até a fazer cirurgias, tem gente ensinando de tudo... resta saber se o conhecimento é embasado). Seja como for, eu só queria um caldo para a fria noite de 22 graus no Rio de Janeiro (tremia entre soluços e a tentativa inútil de me aquecer por pura preguiça de pegar um casaco... eu sou uma merda mesmo).
Deu certo! No fim, fiz do meu próprio jeito porque fiquei com preguiça de ver o video todo. Por que raios esses Youtubers fazem de tudo para parecerem idiotas? Bom, ninguém parecia mais idiota do que euzinha esperando que um fodido do Tinder fosse a solução de um amor imaginário, é verdade! Voltei a chorar de raiva e tristeza de mim (um pouco de pena também).
Eu voltei ao facebook hoje. Tinha milhares de posts sobre a Covid-19. Isso tá me deixando com medo. Não deveria, mas tenho medo. Por mim, pelas minhas, por esse mundo lixo.... Resolvi responder um desses quizzes estúpidos.... "Opá, sou boa mesmo em geografia! Acertei 22 países entre 25".
Vixe... isso tá esquizofrênico!
Aff... alguém precisa me salvar de mim mesma... o ciclo teria recomeçado?
Sei lá, mas antes que seja... someone please, kill me and save my life.
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