A falta
O relógio marcava 03:47 da manhã quando levantei para minha sessão de terapia comigo mesma. Eu não conseguia dormir e já estava cansada de continuar tentando. Lembrei da vovó que dizia que para o sono vir é preciso ficar com os olhos fechados. Eu tentei, fiquei horas a fio assim.
O meu quarto já estava escuro desde mais ou menos seis da tarde, tudo porque que a lâmpada queimou e eu fiquei com profunda preguiça de ir comprar. Pensei em substituir pela lâmpada do banheiro de empregada (que transformei numa casa para Vartan, meu cachorro), mas achei melhor não trocar. No fundo, queria economizar com a conta de luz, então resolvi desligar quase tudo que fica em standby da tomada.
Na noite anterior fiz sopa de legumes e depois de jantar resolvi me recolher. Tomei um pouco de água e segui para o banheiro para escovar os dentes e então deitei. Instintivamente, peguei o celular e tentei abrir o Instagram, como fazia todas as noites antes de dormir, mas lembrei que temporariamente bloqueei meu perfil. As redes sociais estão ocupando um tempo desnecessário da minha vida e insistentemente, para não dizer idiotamente, eu fico querendo saber da vida de Stephan, o homem que eu amo, mas que não me ama. "Que bom não acessar as redes sociais, isso me poupa de ser estúpida", pensei sentido saudade daquele infeliz.
E foi assim que fechei inutilmente os olhos, tal qual vovó havia me ensinado décadas atrás. Nunca funcionou antes, não poderia funcionar agora, mas as crenças populares tem seus apelos emotivos e por isso fingimos acreditar nas coisas que sabemos que não existem ou não são reais. Então às 03:47 me sentei na beirada da cama, lutando para não chorar. Todo esforço foi inútil; eu desabei!
"Como é possível sentir falta de algo que nunca tivemos?", minha mente indagou com o mesmo tom da psicóloga com quem tive consultas meses antes, mas que desisti em algum momento porque eu nunca cheguei efetivamente falar, só sabia chorar.
"Acho que nosso inconsciente projeta coisas e constrói desejos para nos manter minimamente interessada pela vida. Talvez seja por isso que sentimos falta de coisas que nunca tivemos, essas coisas só existiam no desejo", respondi a minha própria consciência.
Fiquei sentada durante minutos imaginando como seria a minha vida se eu não fosse trans. Como teria sido a minha infância e a minha adolescência. Com teriam sido os meus relacionamentos ou mesmo a minha vida escolar. Estranhamente pensar sobre essas coisas é profundamente doloroso. Foi aí que uma devastadora pergunta surgiu: "do que é que eu sinto falta?"
É justamente por isso que escrevo aqui esse desabafo. Escrevo porque eu não tenho a resposta, escrevo porque não sei exatamente do que sinto falta, só sei que sinto falta. Uma angústia latente que espreme meu coração e me traz lágrimas aos olhos. Me sinto invadida por uma carga emocional tão sutilmente mortal que a única forma de lidar com isso é sentido saudade. Daí minha mente começa a divagar pelos fragmentos de memórias do que vivi na busca de alinhar as peças dessa quebra-cabeça... creio que é o desejo entrando em ação para buscar reequilibrar as emoções e, talvez, a sanidade.
Desejo é ação, é vontade de potência. Trata-se um movimento ético importantíssimo cuja função é buscar o reequilíbrio vital, uma ação "atômica", operando no agenciamento molecular. Eu sei que esses conceitos acadêmicos são chatérrimos, mas eles têm me ajudado a reconfigurar as minhas paisagens emocionais. Eu tenho sido a minha própria terapeuta. Quem me conhece sabe que eu falo bastante, mas poucas vezes me abro tão profundamente assim, então em geral as pessoas só conhecem um lado meu que está ligado a uma falsa imagem de inteligência. Eu nunca fui inteligente, eu sempre fui curiosa, ousadamente curiosa. Em só estabeleço conversas com as pessoas porque sou curiosa sobre temas que constroem a abstrata vida em sociedade. Se eu pudesse mesmo, eu não falaria com ninguém, mas a curiosidade em querer ouvir e montar esse cabeça é maior que o meu ímpeto antisocial.
Mas, de todo modo, eu continuo sem saber do que é que sinto falta. Seria dessa habitabilidade social? seria de um relacionamento afetivo? Seria falta de ter laços mais profundos com minha família? Pode ser um pouco disso tudo junto, talvez.
Eu resolvi ir à cozinha pegar água. Na volta, sentei na poltrona da sala, no escuro e fiquei lembrando da neve em Nova Iorque e do quanto eu estava feliz. Tentei lembrar dos pequenos detalhes, das falas e dos gestos e também como fizemos para chegar à Times Square... não consegui. Esses fragmentos de memória aos poucos vão sendo depositados no interior de um grande buraco negro que tudo suga até o ponto de não existir mais nada, até o ponto de não existir mais memória. Esmaece. Enfraquece e apaga. Talvez esses fragmentos tenham perigosamente se aproximado do horizonte de eventos, a linha que marca o limite entre o ser e a sua completa destruição. Mas é justamente aí onde opera a singularidade... nos rastros, nos vestígios, na radiação de um passado-futuro onde o presente é a intersecção do espaço-tempo. A memória, e também os sentimentos, operam justamente na sua força gravitacional que atravessa o espaço-tempo e constrói a possibilidade de ficção, ou seja, uma realidade imaginada e experimentada mas que em tudo depende da caótica singularidade. Sabemos que existiu pelos seus rastros, mas não sabemos exatamente como.
Acho que a minha falta é um pouco disso, está localizada no interior de um grande grande buraco negro que é meu próprio inconsciente. Isso me leva a crer que o inconsciente, portanto, é feito de camadas e que há, nas mais profundas dessas camadas, um limite ao qual podemos chamar de horizonte de eventos.
Sinto falta de uma infância que não vivi, então imagino uma infância que gostaria de ter vivido. Sinto falta de uma adolescência que não vivi, então imagino uma que me apetece. Sinto falta de amores e coisas que gostaria de ter e abraçar, então suspiro deploravelmente num esforço de imaginar ou de construir uma imaginação que torne isso minimamente real: tudo que é imaginário é, tem e existe, Estamira estava corretíssima.
Volto para minha cama e, assim, para a luta com meu próprio son(h)o. Fecho os olhos. Sinto falta... só sei sentir que o vazio é ocupado pela falta. O vazio é falta, ou melhor, vazio-falto inseparáveis. Choro, mas busco imaginar o oposto da falta, que não é necessariamente a presença... chego a mim mesma, no meu mais profundo eu-estilhaço. Foi assim que terminou a minha sessão terapêutica da noite passada, mas eu ainda não sei do que sinto falta, talvez eu jamais venha saber.

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