"Você tem que entender"

 Há alguns anos atrás, estávamos juntos eu e o homem que dizia me amar de mãos dadas caminhando na rua, até que ele avista alguém que o conhecia. O gesto é repentino: ela larga minhas mãos e se afasta, me deixando um pouco atrás enquanto buscava dissimular que não me conhecia. Eu entendi não apenas o gesto, mas meu lugar no afeto, a contínua clandestinidade.

Não interrompi sua dissimulação - embora, hoje penso que seria trivial - e segui em estilhaços meu caminho, tentando segurar as lágrimas, a angústia que vinha forte quase que esmagando meu peito. Apenas segui alguns metros, enquanto sou novamente acompanhada pelo homem que dizia que me amava. Ele estava visivelmente constrangido, mas não pediu desculpas, nem tão pouco voltou a segurar minhas mãos. Aquela foi, na verdade, a última vez que caminhamos de mãos dadas. Não houve outro momento em que isso voltasse a acontecer. Não porque eu não desejasse, mas porque havia algo que era maior que o amor: a vergonha de se namorar ou estar ao lado de uma mulher trans.

Lembro que depois daquele dia, sempre que saíamos ele ia um pouco à frente ou atrás, nunca de mãos dadas. Até conversámos em público, mas trocávamos poucas palavras. Aos poucos, fomos deixando de conversar. Não porque eu não desejasse, na verdade eu inclusive insistia que falássemos um com o outro, era bom, me fazia bem conversar com ele, mas havia algo que nos impedia: a vergonha de ser falar com uma pessoa trans.

Curiosamente, nos casamos. Não deveríamos. Um casamento marcado pela solidão e, sobretudo, pelo silêncio. Um casamento fincado na vergonha. Era amor? O que era? Como chegamos tão longe? Sabe, às vezes me sinto burra por ter me permitido apaixonar e amar uma pessoa que sentia vergonha de mim. Mas eu sempre me pergunto se é possível controlar o que sentimos. Se é possível escolher quem amamos. As respostas navegam em incertezas, são inconclusivas. 

Certa vez, em meio a um misto de raiva e tristeza, o interpelei: por que não podemos caminhar de mãos dadas? Por que não podemos conversar como antes. A resposta foi curta, mas assustadoramente comum: "você tem que entender".

Essa frase indica uma ação reflexiva que demanda dos sujeitos algo que aparentemente deveria ser algo inato, dada sua "condição natural de subalternidade", ou seja, a própria condição do Ser-precário patente no processo autoconsciência do indivíduo, como uma substância que sempre esteve localizada no sujeito que sofre a ação, e não na sociedade que efetivamente produz a ação. 

Eu a ouço desde de bem nova, desde a infância: "você tem que entender que isso não é normal" (quando meus pais se referiam às minhas vestimentas ou "jeito"de ser), "você tem que entender que isso não é coisa de Deus" (quando desesperadamente eu buscava me livrar do "pecado" buscando apoio espiritual), "você tem que entender que não é fácil para as pessoas lidar com isso" (quando pessoas aleatórias se remetiam à transexualidade), "você tem que entender que não é razoável" (nas inúmeras vezes que tentei uma vaga de emprego), "você tem que entender que não é fácil" (em conversas com amigos sobre a possibilidade de ser amada, "você tem que entender que não posso ser visto" (quando homens buscam sexo clandestino com pessoas trans)... 

A frase "você tem que entender" acompanhada de inúmeras inflexões, conduzem ao infinito a inexistência do meu lugar, o caráter compulsório da minha monstruosidade, da minha animalidade. Às vezes sou ingênua o suficiente para indagar quando, na verdade, é que os outros vão entender que isso fere mortalmente? Quando vão entender que isso alarga feridas? Quando vão entender que eu eu não tenho que entender? Quando?

Enquanto isso, sigo eu "sem entender" que a angústia e a solidão não podem ser características fundamentais da minha experiência em sociedade. Elas são marcas indeléveis. 

Você tem que entender que eu sangro toda vez que você busca justificar sua incapacidade de me reconhecer humana afirmando que eu eu tenho que entender que, na verdade, este mundo - e os afetos que  nele são produzidos - não é lugar pra mim, não podem me pertencer porque há "monstruosidade" em excesso no meu ser.

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