Reaprender a sonhar

 Nas intensidades, o eterno furo. Nas singularidades, a eterna expressão. 

 

Mariah Rafaela Silva

 

 

Eu precisei voltar. Algo me dizia que era preciso e sinto que realmente foi. Desta vez, havia algo diferente não na cidade em si, mas dentro de mim. Eu não consigo explicar o que está diferente, mas eu sinto.

 

Eu derramei alguns bocados de lágrimas. A primeira sensação é de que havia algo de nostálgico no breve retorno, mas não era bem assim...

 

O piloto havia anunciado o pouso e o relógio marcava 00:55. Um pouco distante, as luzes daquela cidade cintilavam, como se fossem vaga-lumes. Era lindo, pareciam constelações... de alguma forma, eram constelações, adiante no horizonte. Brilhavam como se anunciassem que antigo encontro estava por ocorrer, o encontro entre a nova – e machucada eu – e a velha – e desesperada eu -. Não que a nova eu, fosse menos melancólica, ao contrário, mas há algo de diferente e de alguma forma, esse encontro marcaria o fim de um ciclo, de uma fase de altos e baixos, talvez mais baixos do que altos. Tudo acontecia a poucos quilômetros de distância, naquele horizonte cintilante que reuniria aquela cidade e eu. A antiga eu estava lá, e de algum modo precisava ser resgatada, ela merecia ser resgatada para que a nova eu, finalmente pudesse seguir o meu caminho. E tudo ali, num lugar aonde um dia eu fui tão solitariamente infeliz, miseravelmente infeliz, onde tudo que entendia como mundo se desfez: o meu antigo e único verdadeiro amor.

 

Escrevo entre lágrimas. Sinto minha garganta apertar. A segunda sensação era a do retorno, o retorno da memória, das lembranças das noites em claro olhando para o homem que não me olhava. 

 

Eu entrei no carro por volta de 01:45 da manhã. Havia apenas o silêncio, as lembranças das ruas onde outrora eu passava carregando angústias, onde eu vagava meio a tortura de carregar um peso de uma escolha talvez inadequada. Eu odiava este lugar. Eu profundamente odiava esse lugar. Agora, não há mais ódio, nem raiva. Há apenas algo cujo movimento eu não consigo descrever. É algo entre uma paz, um sentimento nostálgico, tristeza, mas também esperança. Havia apenas eu, e um eu imersa entre recordações não tão felizes, e a brisa que fluía por meu rosto e fazia meus cabelos movimentarem ao vento de uma noite fresca, num lugar que antes eu jamais fui capaz de efetivamente enxergar. 

 

Não havia mais rancor, nem medo, nem solidão... eu finalmente entendi que a montanha russa emocional da minha velha eu, era apenas o desejo de fuga. Ela, assim como eu, sempre estivemos em constante fuga.  

 

Viver em fuga não é menos doloroso, ao contrário, é dolorosamente necessário. Mas eu ainda me pergunto por que temos que sofrer.

 

A fuga nos permite imaginar o amanhã, mesmo quando o fantasma de um passado hostil se faz presente. Que tal ironia seria essa de imaginar o amanhã quando esse parece um eterno looping do passado. Mas é preciso nomear aquilo que arranca o amanhã de nossas horizontes e furá-lo, fazer vazar intensidades. Tal exercício é um árduo trabalho de voltar-se a si. Nunca foi fácil! 

 

Já faz algum tempo que eu me pergunto quando foi que eu perdi a capacidade de sonhar. Curiosamente, foi num sonho que descobri que eu não tinha perdido a capacidade de sonhar, mas que, ao contrário, eu havia sido impedida de sonhar. Eu penso na minha breve infância, aquela mesma que um dia arrancaram cruelmente de mim. Me pego imaginando coisas com as quais eu poderia decididamente ter tido ou experimentado se o mundo não fosse dividido em dois ortodoxos ideais de verdade. Essas partículas de alegria são como uma verdadeira viagem no tempo. Mas efemeramente, elas se vão, fogem para distante quando me dou conta da realidade. Volto ao presente, e suspiro um tanto inconformada, mas não sem antes viver uma breve e gostosa nostalgia dos tempos em que ainda era possível sonhar. É que esses momentos não deixam de ser momentos de fuga, eu fujo para eles de modo epifânico e de alguma forma escapo para algum outro lugar. Não se trata de viver ilusões, trata-se de afiar as facas para o futuro com os cacos que me restam, como o dia em que sonhei em voar na minha própria máquina.

 

Me pego criança, entre sorrisos discretos, com o olhar preso no horizonte, vendo a pequena eu montar sua “máquina de voar”. Depois de ter conseguido as quatro rodinhas de rolimã, eu havia passado a maior parte do dia em busca de duas tábuas retangulares. A que serviria de asa deveria necessariamente ser maior. Quando finalmente as encontrei no lixo, carreguei-as para casa, já era finzinho de tarde de verão, com o céu alaranjando, poucas nuvens e pássaros voando. Eu queria e em breve voaria. Era o cenário idílico perfeito. De alguma forma esse dia e esse cenário ainda vibram dentro de mim. De alguma forma aquela criança ainda está escondida em algum lugar dentro de mim. Eu faço fuga com ela, criamos nossa rota de fuga a cada martelada no prego. Eu ainda sou capaz de ouvir o som do martelo atingir o pego. Ainda fico levemente consternado quando alguns pregos insistem em se curvar a cada martelada. Em pouco tempo, eu vislumbro a minha “máquina de voar”. Já é noite. As estrelas passam a cintilar o céu, a lua dá o ar da graça, enquanto cigarras irritantemente passam a cantarolar. Os mais antigos, como vovó, dizem que as cigarras cantam para anunciar que no dia seguinte faria muito calor. Eu sempre acreditei nos mais antigos. Mas eu também acredito em mim e na minha mais nova máquina de voar. Aquele dia eu quase não consegui dormir de tanta ansiedade. Eu iria voar. Eu iria voar pela primeira vez.

 

Nessa época eu dormia no chão da sala. Eu não tinha um quarto. Eu nunca tive um quarto até finalmente eu ter ido morar no Lins. A Nilda me dava alguns panos para forrar no chão, eu lembro deles até hoje. Um era um cobertor azul, daqueles que tem em hospitais que certamente fazia parte da coleção de roupa de cama dela há gerações, mas eu o adorava porque nas noites frias ele era o que mais me aquecia. Havia também um lençol com flores, tão surrado que ostentava alguns rasgos. Eu fazia uma pequena e fina cama com isso e jogava por cima um travesseiro tão velho e encardido que sempre desconfiava que ele o culpado por me fazer espirrar ao ponto de praticamente expelir meus pulmões quase toda manhã. Mas naquele dia, nada disso importava. Eu iria voar dentro de pouco tempo. Era o meu sonho, eu planejei cada momento e cada parte da minha máquina depois de ver exaustivamente os aviões subirem e descerem no Santos Dumont.

 

Eu costumava andar até o aeroporto central do Rio para ver os aviões. Às vezes ia quando saia da escola. As vezes eu simplesmente faltava aula para ver os aviões me acalmava. Eu sonhava em ser como uma daquelas moças elegantes que trabalhavam servindo nos aviões. Elas podiam voar para todo canto, muitas vezes. Talvez até enjoasse de voar, mas eu certamente jamais enjoaria. No aeroporto, eu ficava imaginando a sensação de sentir o ar através das asas daqueles gigantes dos céus. Ficava me perguntando como seria ver tudo lá de cima, as cidades, o mar, as nuvens... será que podemos tocar nas nuvens? Elas são fofas como nos desenhos dos ursinhos carinhosos, pensava. Mas e as cinzas? São nuvens malvadas. Eu fiquei surpresa quando a professora de ciências disse uma vez que as nuvens cinzas são dessa cor porque estavam com água e que elas eram responsáveis pelas chuvas e as chuvas eram ácidas por conta da poluição das cidades. Eu nunca perdia as aulas de ciências.

 

Eu acordei cedo. O Ademir havia me dado um real que naquela época dava para comprar dez pães no seu Chico. Desta vez, ele não me pediu para falar para o seu Chico colocar na conta, um caderninho em que aquele velho homem anotava toda vez que comprávamos fiado, certamente o Ademir já tinha recebido e passado lá para acertar o que devia, mas não me importei em perguntar. Eu corri para fazer tudo a tempo. Eu iria voar. 

 

Novamente os antigos estavam certos, fazia muito calor. “As cigarras nunca erram”, pensei. A venda do seu Chico não era longe, ficava na parte mais alta do 117, quase na divisa com o Rodo. Peguei os pães e desci correndo. Peguei minha máquina de voar, um pão, calcei os chinelos e saí em direção ao Sumaré enquanto comia o pão e tentava desajeitadamente carregar aquele trambolho até a pare mais alta possível da estrada. Eu precisava de velocidade. Era assim que os aviões voavam no Santos Dumont, corriam e voavam. Mas, ao contrário, a minha máquina correu, correu e não voou. Até que uma das rodas de bilha soltaram e eu fui lançada para o lado, me ralando todinha no asfalto.

 

Eu não chorei. Mesmo quando vi o sangue nos braços e pernas. Mas me senti muito frustrada. Uma fracassada. Eu normalmente me sinto uma fracassada, até hoje. Mas nada disso me fez desistir de tentar voar. Eu só precisava descobrir outro meio. Talvez, tudo que era preciso era permanecer em fuga... para os sonhos... para a felicidade... não importa, basta permanecer em fuga.

 

Eu ainda me pergunto quando foi exatamente que perdi a capacidade de sonhar. Ainda hoje me pergunto se essa não é a maior violência do mundo. Quando foi que abri mão sonhar? Melhor, quando foi que me permiti me fazerem deixar de querer sonhar? Eu não sei. 

 

Manaus está diferente, mas o Rio também. Há muito já não é mais a mesma cidade daqueles tempos em que eu insistia em vagar pelos dias e noite em busca de algo que não sabia bem o que era. Talvez eu estivesse buscando amor. Eu não sei, mas eu apenas vagava em busca de fuga possível.

 

Certa vez li um livro que versava sobre como conquistar seus objetivos na vida. Tudo parecia bem simples, se não fosse por um único detalhe: as pessoas não partem do meu lugar. Acho que esses livros de autoajuda fracassam nestes detalhes. Elas partem da ideia de que há uma aparente igualdade no mundo, uma suposta simetria de valores, crenças e corporeidades. Mas eu me esforcei, eu juro que havia me esforçado. Dedicava horas e horas do dia aos estudos, às leituras, me policiava para manter o foco nas coisas que realmente poderiam me fazer atingir o sucesso, mesmo que eu não soubesse que o sucesso era ter uma família, dinheiro, carro, casas e dinheiro aplicado no banco.

 

Na minha visão de sucesso, eu só precisava me transformar naquela garota que berrava dentro de mim. Eu devia ter uns 11 anos de idade. Era isso o sucesso: ser vista como a menina que eu sempre fui. O sucesso era poder ir à escola sem que zombassem de mim. O sucesso era poder usar os vestidos e pintas as unhas sem ser agredida por isso. Eu sempre pensei que era isso o sucesso. Foi meu primeiro fracasso.

 

Eu sou uma fracassada. Eu não tenho dinheiro. Nem carro. Nem casa e nem família. Eu também não tenho amor, mas ainda assim eu me pergunto quando foi que eu perdi a capacidade de sonhar. A frase, “a família é a base do sucesso”, sempre me pareceu uma verdade, mas o que nos resta quando nossas famílias nos desprezam? O que nos resta quando nossas famílias nos colocam portas à fora? Só restaria o fracasso? Ou a fuga? A fuga para o sonho de constituir sua própria família? Que infeliz mimese! 

 

Bom, foi mais ou menos isso que eu fiz. Passei a sonhar que era possível ter uma família. E tudo não passou de um pesadelo. Tentei no Rio. Não consegui. Achei que indo para Manaus, daria. Me enganei. O que encontrei não foi uma família, foi a solidão. Voltei ao Rio, emocionalmente desintegrada. A sanidade parecia mancar, e eu ainda não sei como foi que eu perdi a capacidade de sonhar.   

 

Eu passei parte do voo da volta tentando compreender se haveria uma diferença significativa entre sonhar e imaginar. Se eu perdi mesmo a capacidade de sonhar, talvez de algum modo eu possa continuar imaginando. Imaginar tem a ver com vislumbrar, com repetir cenas ou literalmente projetar cenas. Imaginar não é lembrar ou recordar, imaginar é experimentar com o corpo um mundo. Não parece muito diferente dos sonhos, exceto em um aspecto. A intensidade do desejo. Nos sonhos, nós projetamos metas. Nos sonhos queremos construir a solidez da felicidade, repercutir nossas conquistas... mas, se o mundo desabado sobre mim ao mesmo tempo em que a terra se rompe sob pés, me deixando em constante, com a sensação de constante sufocamento, como poderia construir algo sólido? Se o sonho tem mesmo a ver com isso, como eu poderia?

 

Às beiras da adolescência, eu sonhei em ser uma jogadora de vôlei. Era meu esporte favorito. Ficava fascinada com os movimentos quase sincronizados, como uma dança cujo ritmo era ditado pelo vai e vem da bola. Aquilo me capturava tão profundamente que eu sonhei que era possível jogar voleibol. Eu tive o meu primeiro contato com o esporte na escola, e devo admitir a magia da dança no voleibol me trazia alívio. Durante as partidas de vôlei nas aulas de educação física, eu finalmente estava autorizada a dançar. Eu ia sacar a bola e podia sentir meu coração bater de alegria, conduzido pela melodia daquele esporte. Era tudo como uma grande dança onde eu podia revelar o calor que havia dentro de mim na forma de risos, toques, saques e ataques. 

 

Eu sempre fui proibida de dançar. As pessoas riam de mim porque diziam que eu dançava como uma "bichinha". Eu não sabia bem o que era uma bichinha, mas certamente devia ser algo muito bom porque há muita grandeza espiritual na dança. Se as bichas dançam é porque podem mostrar seu espírito. Mas não era bem assim... meus pais se sentiam incomodados e passaram praticamente a proibir músicas em casa a não ser que fosse numa festa. Contudo, se eu dançava nas festas eu era imediatamente reprimida. Minha mãe dizia que eu só trazia vergonha e desgosto. Eu olhava sem entender, como pode o corpo que dança – e que traz alegria – causar nojo, desgosto e vergonha em alguém? Um dia, numa festa dos padrinhos do meu irmão mais novo eu dancei tanto que todas as pessoas da festa pararam para me olhar e rir porque diziam que eu dançava como uma bichinha. Eu comecei a apanhar na festa, na frente de todos, sem que ninguém fizesse nada, e terminei de apanhar em casa quando o sangue já escorria pelo meu nariz. E eu não entendia por que a dança incomodava tanto os meus pais. Aquela foi a última vez que dancei na frente de alguém por muitos e muitos anos. 

 

Então o vôlei era a fuga, a imanência. O mundo e a dança. Eu e o espírito. Era tudo isso porque era fuga, a intensidade da fuga. No vôlei não apenas sonhava, eu também imaginava. Eu queria ser uma jogadora de vôlei para dançar no ritmo da bola. Mas veio o segundo estupro e o incontestável fato de eu era uma criança trans. Talvez um monstro, uma aberração, uma eterna farsa. E eu ainda me pergunto quando foi que eu perdi a capacidade de sonhar.

 

Aprendemos que temos que mostrar que somos fortes e que mostrar a fraqueza ou a vulnerabilidade seria algo menor, quase que uma desqualificação existencial. Mas não seria a força produto do desejo? O que é a força? É resistir às dificuldades? Como sabemos que somos fortes se não experimentamos a fraqueza, o insucesso, o fracasso?

 

Eu tinha muitos sonhos, mas eu ainda não sei quando eu deixei de sonhar. Se perder os sonhos é perder tudo, que ao menos tenhamos uma nova chance de começar tudo outra vez, do zero, reaprender a sonhar. Eu voltei pro Rio. Não havia diferença, apenas singularidade, somente a inteligibilidade das lutas. É preciso reaprender a sonhar. E isto é urgente. 

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