volta à estaca zero é o novo(?) comum

Voltei à estaca zero.

Não porque eu realmente queria, mas porque esse é o lugar comum.

Estar aqui é como estar em suspensão. A estaca zero é o meu lugar, um lugar no espaço-tempo onde o avanço é o retrocesso.

É o lugar da eterna procura, e também da frustração. Eu busco um abraço, não encontro. Então continuo buscando, como o ponto de partida fosse sempre o mesmo lugar que não lugar.

Eu busco uma conversa, mas - quando encontro - esbarro num interrogatório antropológico onde seres curiosos me perguntam e perguntam sem de fato estabelecerem um diálogo. Eles acham que conversam, mas interrogam. São alternativas - e para demonstrar gentileza - eu falo. E só posso falar sem ter certeza de que de fato estou sendo ouvida.

Então volto à estaca zero. O mais (in)comum dos lugares na minha experiência. É um estado natural da existência sem agência. O zero é o produto da equação existencial. 

Sinto como se estive despencando tentando agarrarem qualquer coisa pelo caminho apenas para encontrar a suposta segurança de um afeto que não dificilmente acho que posso ter. Então, volto à estaca zero. E continuo caindo.

Eu sou convidada para jantar, mas não há jantar, apenas comida e interrogatório. Como foi sua infância? Como foi sua transição? Como foi sua relação com a família? Por quê? Por quê... Mas quando eu faço uma pergunta, o olhar baixar, o tom muda, a conversa muda de rumo... e então volto à estaca zero.

Será que não sou atraente? Será que não sou digna de um abraço? Será que não sou realmente vista como a mulher que sou? Me sinto dilacerada, mas me mantenho plácida, estou acostumada com o desprezo, estou acostumada com o não. Me calo e finjo que está tudo bem, mas não está. 

Acho que sou profundamente educada, ou profundamente conformada com o nada. Reviro minha mente me indagando por que crio tanta expectativa num encontro. Seria o cansaço da solidão? Não sei... não encontro resposta e sigo sorrindo, mesmo que internamente eu me sinta cada vez desesperanças, triste. 

Tolamente espero um atitude que racionalmente sei que não vai acontecer. Me mantenho civilizadamente sentada, respondendo perguntas absolutamente íntimas a um estranho. Por fim me sinto um lixo, mas busco manter a dignidade.

Sigo plácidamente à estaca zero. Entro no Uber e sinto uma lágrima rolar. Não é o fim, é o recomeço de uma busca que nem faz mais sentido. Represo os sentimentos, voltei à estaca zero. O único avanço é aquele que se remete à solidão. Me conformo. Estou de onde nunca saí, o limbo afetivo.

Abro o aplicativo de relacionamento. Recomeço. Desse vez com menos esperança do que antes. Fui perdendo ela ao longo dos retornos à estaca zero. E me preparo psicologicamente. Volto ao normal: a busca. Não sei mais como proceder, não tenho estratégias, nem mais argumentos. A questão não é mais sobre ser ou não ser, mas dizer ou não dizer. Não sei mais como expressar. Não quero mais me esforçar.

Chutei o balde. Resolvi ser o que sou sem medos. Não quero mais me torturar numa busca de afeto. Será que não sou digna de um abraço? Será que não valho à pena? Acho que não.

Voltei à estaca zero. Não porque eu quis, mas porque as convenções sociais quiseram. 



Comentários

Postagens mais visitadas