A ciência (ou sobre a eterna redundância)
Dizem que os amores de verão são intensos e inesquecíveis. São regidos pela força da nossa estrela e toda sua luminescência nos corpos e desejos dos amantes. Em geral, fala-se sobre amores rápidos, intempestivos, sublimemente incandescentes e cuja intensidade dura tão pouco quanto os meses cálidos de verão.
Eu fico buscando na minha memória coisas que talvez um dia eu tenha experimentado e que pudesse chegar perto das descrições particulares desse tipo de paixão fumegante e tudo que encontro é desprezo, desculpas, e distanciamento. Eu nunca tive um amor de verão.
Eu também busquei na minha memória traços ou pistas da ausência desse tipo de experiência na minha formação como pessoa, buscando entender algumas nuances ou impactos desse tipo de processo na minha subjetividade. Tudo que eu encontrei foram feridas e processos de fixação de feridas e modos de perceber meu próprio corpo, minha estética física. Eu passei a me esconder nos verões, aprofundei um tipo de relação com meu próprio corpo que oscilava entre a vergonha e a angústia. Por fim, eu passei a detestar os verões, a evitar as praias e aglomerações pelo simples medo de ser notada. Todo esse processo me levou à ciência de que eu tinha apenas um corpo espectral, um tipo de corpo que se consome apenas nas sombras, entre a clandestinidade do prazer sujo e a completa ausência do afeto.
Por quê? Essa tem sido uma pergunta constante, algo que invade minhas frustrações e conduz meu pensamento desde quanto eu me entendo por gente. Eu não sei... às vezes sou forçada a concluir que se trata da transfobia e do racismo. Outras vezes, penso que pode ser sobre meu modo de me relacionar com as pessoas: há muito eu não sei oferecer o que há de melhor em mim. Quando só se recebe raiva e desprezo, tudo o que se tem para oferecer é raiva, mesmo que por dentro você tenha uma represa de afeto, carinho e paixão para doar, você não sabe como encontrar um modo de deixar isso escoar e emanar profusamente de dentro de você. Esse foi o legado que o mundo me deixou, foi como eu aprendi a administrar a intolerância. Talvez eu não tenha aprendido a como doar meu amor, mas a verdade é que toda vez que eu tentei eu fui mortalmente ferida. Deixada de lado sob as desculpas de que "não é minha praia", ou "eu gosto de mulher de verdade", ou ainda "podemos ser amigos, mas não sei se sou capaz de me relacionar com você". Por outro lado, aqueles que ousam se aventurar - admitindo a contragosto seu desejo - o fazem de forma oculta, longe da multidão, longe do seu bairro ou em lugares herméticos. Gozam e somem como quem se punisse por desejar uma mulher que "não é uma mulher de verdade". Isso seria como uma mancha em seu currículo da masculinidade, uma "bola fora", um motivo de chacota para os amigos. Algo que eles não suportariam, porque no fundo, eles mesmo não se suportam.
Enquanto isso eu sangro emocionalmente entre arrepios de solidão e traços de depressão e insegurança que eu exaustivamente busco mascarar através de compras de produtos de cabelos, roupas e cuidados com a pele. Por trás da imagem dessa suposta menina segura e confiante de si, reside um ser completamente devastado, frio e obliterado pelo desprezo. Portanto, devo admitir que estou completamente ciente de que os homens que se relacionam comigo tem como objetivo exclusivamente o sexo casual e clandestino, porque para eles eu, e para muito outros, eu estou perfeitamente longe de assumir o papel das mulheres que eles teriam prazer em apresentar aos amigos e familiares, não porque não me desejam, mas porque no fundo me veem como coisa, como um depósito de esperma, um simulacro de corpo feminino cujo sexo é como o entorpecente que usa na surdina em tempos remotos da formação pessoal de cada um, como seu fosse uma boneca sexual sempre disposta a abrir as pernas porque meter o pau em mim não é apenas um sacrifício para eles, mas um verdadeiro gesto de benevolência que os descola por um instante do real e os fazem mergulhar nas entranhas do exótico, do mítico, do pernicioso. Aquilo que só se deve fazer em ocasiões em que se busca algo sujo onde, muitas vezes, nem mesmo o nome deve ser mencionado.
Por que eu digo isso? Certa vez conheci um cara num aplicativo de relacionamento. No meu perfil eu mencionava que era trans e que tinha feito uma cirurgia de readequação sexual. Demos match e a primeira frase dele foi "eu nunca conversei com uma trans, sempre tive curiosidade de saber como é". Como é o que? Conversar? Obviamente ele estava se referindo a sexo. Eu tentei a todo custo desviar do assunto "sexo", não por tabu, mas porque eu acho que mereço mais que isso. Mesmo assim ficamos conversando por aproximadamente dois meses, meses de verão, e nunca houve a iniciativa do cara de marcar um encontro. Vi que nunca daria em nada e desisti da conversa, dias depois recebo uma mensagem do tipo "oi, sumida". Engatamos a conversa e em algum momento percebo que o cara nunca havia me chamado pelo nome, sempre usava adjetivos do tipo "linda", "gata" "fofa" e resolvo perguntar se ele sabia meu nome. A resposta? "rsrsrs". Por fim, a admissão "pô gata, vou confessar que não me lembro". Falamos por mais de dois meses, um verão quase inteiro e o homem sequer se preocupou em saber meu nome, apenas o meu nome. Respirei e pensei que melhor isso que perguntar "qual seu nome de verdade, aquele que seus pais te deram". Em meio a esse pensamento, tomei ciência que em nome da vulnerabilidade afetiva que me encontro sou capaz de aceitar migalhas, restos de atenção. Esse hipótese se confirma em inúmeras outras situações que ocorrem comigo seja no verão, seja no inverno, primavera ou outono.
Recentemente, fui procurada no instagram por um homem. Era um estrangeiro que vive entre São Paulo e Tel Aviv e com quem eu havia conversado pelo Tinder cerca de um ou dois anos atrás. A conversa fluiu, falamos de coisas gerais, mas insistentemente o cara queria falar sobre sexo, mesmo eu tendo deixado claro que meu objetivo era conhecer uma pessoa não com finalidade sexual, mas afetiva. Ele, é claro, disse que também tinha o mesmo interesse. E continuamos a conversar. Conversamos intensamente durante uma semana até que um dia ele resolver expor suas "fantasias", dizendo que isso era segredo e que maioria das mulheres não entendiam ou aceitavam isso. Ouvi. Aceitei a pessoa como ele é, com suas fantasias e sua arrogância, não porque aquilo é minha fantasia, mas porque eu já estou cansada de estar sozinha e em nome desse cansaço me submeto a coisas que me ferem, que não me excitam... aceito, me submeto e... quebro a cara.
Depois de um "sexo virtual" com troca de nudes, o cara some e me bloqueia tanto no instagram quanto no telegram. A minha conclusão? Esses homens são fracos. Eles não suportam a ideia de que eles se sentem atraídos por nós seres do abismo. Como fetiche, somos tudo aquilo que eles querem em suas horas recreativas. Como mulheres, somos "uma cópia mal feita", "incompletas". Negam seu próprio desejo para se enquadrar constantemente no fluxo de invenção do homem do humanismo. Os homens - esses e aqueles que dizem que "não é minha praia" - sentem-se profundamente atraídos por nós, mas não são capazes de admitir porque existe um sistema de lei simbólica que eles mesmo investiram como forma de organizar e controlar o mundo. Como homo sapiens contemporâneos, negam tudo aquilo que escapa à ordem da inteligibilidade desejante e reiteram o lugar da monstruosidade aberrante que jaz na alteridade.
Eu tenho redundantemente a ciência que não sou o que me inventaram para ser, mas "sou" - a contragosto - aquilo que suas fantasias me fazem ser. Eu nego essa amputação do ser, e tenho ciência da negação, mesmo que isso já tenha me condenado à solidão perpétua.
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