Eu nunca fui bonita

Eu nunca fui bonita. Sempre soube disso. Eu tentei, muitas vezes buscar uma beleza cotidianamente vendida em revistas. Nunca cheguei nem perto.  Sonhei com cirurgias plásticas e tratamentos cosméticos que prometiam a beleza eterna, um tipo de beleza associada à juventude. Não toda juventude, mas a juventude branca, aquela das meninas com roupinhas bacanas e cabelos pintados de louro. 

Eu coloquei aparelhos e fiquei ainda mais feia. Na verdade, eu queria corrigir meu sorriso. As modelos sorriem angelicalmente, com dentes alinhados, brancos, sem cáries ou tártaros. Fiquei cinco anos usando aparelho, gastei uma pequena fortuna com manutenção e um ou outro tratamento. Claro que valeu a pena, é verdade que melhorei minha mastigação. Mas não melhorei meu sorriso, ele continuou estranho. Pouco tempo depois o espaço entre os dentes da frente voltou a abrir e, na parte inferior do maxilar, os dentes voltaram a entortar. O que teria acontecido? Eu fiz tudo certinho! Segui à risca o tratamento. Lá estava eu, me sentido profundamente decepciona e novamente com vergonha de sorrir. Meus dentes amarelados e imperfeitos não admitiam a beleza, eu era feia. Uma feia que usou aparelho para tentar deixar de ser feia.

Quando eu era criança, me chamavam de Dumbo. Tinha orelhas de abano que diziam que além de ressaltadas, eram grandes. Eu ficava triste. E toda vez que olhava no espelho a primeira coisa que observava eram as minhas orelhas de abano e sentia meu coração espremer. Eu queria ser bonita, mas eu nunca consegui. A segunda coisa que olhava era meu sorriso e meus dentes disformes. Eu queria ser bonita, mas eu nunca consegui. A terceira coisa era meu nariz. “Que narigão”, diziam enquanto eu tentava esconder meu rosto sem efetivamente se capaz, sem nunca ter conseguido criar uma técnica de esconder ou arrancar a cara. Talvez tivesse que nascer outra vez. Talvez, fosse melhor apenas sair à noite e evitar lugares muito claros, assim as pessoas notariam menos os meus defeitos. Eu me sentia um lixo. Eu achava que se eu fosse bonita, talvez as pessoas poderiam ser mais gentis comigo, me convidar para uma festa ou almoço com sua família. Isso nunca aconteceu. Na verdade, levou anos para acontecer, mas essa é uma outra história.

Eu ficava horas do dia pesquisando sobre cirurgias plásticas. Digitava no Google coisas do tipo “como ter um sorriso lindo”, “como afinar o nariz”, “preço de cirurgia de orelha”, “preço de cirurgia de nariz”... anotava nomes de médicos e via relatos de pessoas que passaram por tais procedimentos. No fundo, meu coração aquecia com uma esperançazinha de que um dia eu também pudesse realizar tais procedimentos e, finalmente, encontrar a beleza. Eu sonhei muitas noites com a beleza que eu jamais tive. A beleza machuca, é o nome de uma música da Beyonce, mas eu acho que o que machuca mesmo é a feiúra. Enquanto isso, eu tentava esconder meu rosto atrás de enormes óculos baratos que comprava no centro da cidade. Eram óculos falsificados, mas grandes o suficiente para cobrir a maior parte do meu rosto. Às vezes, eu usava maquiagem para tentar disfarçar. Dificilmente eu olhava as pessoas nos olhos e foi assim que comecei a andar olhando para chão. Eu não era apenas feia, era também, na percepção de muitos, “um travecão” com narigão, dente torto e orelhas de abano.

Mas eu não tinha apenas a cara feia: eu era completamente feia. Dos pés à cabeça, as pessoas comentam que tinha mãos grandes, ombros largos, pés grandes, que eu era quadrada, não tinha cintura, que era magra demais. O pior é que toda vez que me olhava no espelho, eu achava que as pessoas estavam certas. Eu realmente era o que elas diziam. Um dia eu desejei não ter mãos, mas eu ficava pensando como eu iria escrever ou beber água. Uma vez, comprei um vestido com as costas à mostra. Era lindo, cheio de brilho e foi literalmente uma pechincha, algo em torno de vinte reais. Coloquei para ir ao encontro de amigas também trans, amigas essas que nem mais vivas estão. Mas enquanto eu esperava o ônibus, riam do quão largas minhas costas eram e então senti uma pressão na minha costela. Um homem raivoso me deu uma voadora que quase quebrou minha coluna, gritava insultos enquanto eu chorava caída no chão rodeada de pessoas que riam de mim, incapazes de me ajudar ou mesmo de reprimir o homem: um “traveco” feio caído no chão não comove ninguém. Eu era feia e tinha costas largas, não podia me dar ao privilégio de sequer me sentir por alguns instantes minimamente arrumada. Eu não encontrei com as minhas amigas aquela noite. E foi também a partir daquela noite que além de ter que convier com a minha própria feiura, passei a conviver com uma dor na coluna que mais tarde se tornaria crônica. Aquela voadora literalmente me deixou torta e, portanto, mais feia ainda.

Eu catei latas durante muito tempo. Era minha fonte de renda. Normalmente catava mais à noite para evitar atritos desnecessários, nem sempre funcionava. Para tentar disfarçar a minha magreza colocava calças que sempre eram fruto de doações e blusas largas e velhas que, em geral, eu também ganhava de doadores. Não importava o calor que fazia, eu usava calças e blusão sempre e também usava chinelos gastos. Sempre ouvia gritos do tipo “saí daí rua demônio” e meu corpo era atingido por algum objeto arremessado, às vezes latas com mijo, às vezes pedras, às vezes cusparadas. Era minha rotina, a rotina de um monstro social, preto, favelado e catador. 

O meu cabelo era seco e cacheado. Tinha um volume imenso, e sempre que eu acordava ele estava pro alto. Eu confesso que eu amava o meu cabelo, mas as pessoas não. Me diziam que deixavam o meu rosto ainda maior. Diziam que eu podia esconder o que eu quisesse dentro do meu cabelo, até drogas pois talvez nunca encontrariam. Às vezes gritavam que ele era duro. Uma vez, voltando da escola, distraída olhando pro chão, senti uma parte do meu rosto e orelha arderem com um tapa enquanto uma voz mulher gritava “vai cortar esse cabelo, viado do inferno”. Ela me desferiu um tapa porque meu cabelo crespo e volumoso a incomodava. Eu tentei revidar, mas foi inútil pois o homem que a acompanhava me deu uma banda e depois outra. Eu fiquei no chão caída, deitada olhando para o céu. Me sentia triste. Tinha que dar um jeito no cabelo. A partir desse dia passei a trançar meu cabelo, fazia trança nagô na frente e deixa solto e volumoso atrás. Eu não queria cortar o cabelo pois era uma das poucas coisas que eu realmente gostava no meu corpo. Mas também não podia usar tal penteado; diziam que deixava minha testa grande, além de ressaltar minha orelha e nariz de “preto”. Não tinha jeito, tudo que tentava fazer, eu inevitavelmente esbarrava com a feiura. Ela era mais que minha sombra, era minha própria personificação. Eu me sentia um monstro humano. Sem forma, sem sorriso, uma emulação, um humanoide. Aflita, passava noites em claro buscando alternativas de tentar parecer menos feia. Noites perdidas. 

Eu perdi a esperança na beleza e foi assim que deixei de deseja-la. Eu só queria paz. No fundo, só queria poder ir ao mercado ou à padaria sem ter que ouvir insultos, risos ou piadas. Eu só queria ser gente. Ser como outras pessoas que também não eram bonitas, mas não precisavam lidar com o horror das “brincadeiras” sobre seu corpo ou seus traços físicos. Eu sabia que as pessoas me odiavam, mas não sabia que esse ódio se chamava racismo e transfobia.  

Eu não era feminina. Culpava a feiura pelos traumas e decepções. Uma amiga disse que eu deveria “me atracar” com a Perlutan. Passei a tomar até três injeções por semana. No fundo, havia a crença que ficaria com a pele mais macia e hidratada, com a voz mais doce e feminina, com os cabelos mais sedosos, mas o que ganhei foi um princípio de trombose e uma hepatite crônica. Passei a ficar com os pés e as pernas inchadas e doloridas. Mas, foi verdade também que depois disso as agressões físicas e verbais aos poucos foi diminuindo. 

O tempo passou e um dia – por sorte ou piedade, nem sei mais – encontrei um namorado. Eu o amava, mas não sabia direito o que era amor, nem sabia devolver bons sentimentos. Ficava apreensiva ao dar as mãos, abraçar ou beijar em público. Não conseguia. Sentia meda de ataques e insultos. Seja como for, ele pagou para mim as cirurgias que eu desejava: orelha, nariz e de quebra fiz preenchimento na bochecha.

Finalmente talvez eu tenha estado bonita. Cheia de hematomas eu chorei de alegria, tolamente havia acreditado que a beleza havia chegado para mim. Mas eu passei a engordar e aquele mesmo homem que me dizia que me amava passou a me dizer que eu estava gorda. E toda aquela insegurança de antes voltou. A feiura voltou a me torturar. Minha barriga tinha crescido, a pele da perna ficou flácida e a do rosto com marcas. O cabelo, agora alisado e com alongamento, passou a quebrar. 

Eu nunca fui bonita, apenas me deslumbrei com a possibilidade dos restos da beleza. Um dia o amor que ele dizia sentir acabou – e hoje eu desconfio que nunca se tratou de amor, mas de pena – e aos poucos foi se tornando cada vez mais frio e distante. As conversas foram diminuindo até ao ponto de se tornarem profundos monólogos onde eu, internamente devastada, buscava formas de contar sobre os dias e os planos abstratos de um futuro que só existia na minha imaginação. Também acabou o sexo e os beijos. Em geral, nossos dias passaram a se resumir a um “oi” e as noites com meu corpo feio e gordo mirando o teto até o amanhecer enquanto o travesseiro inundava de lágrimas e o meu ouvido com os roncos dele. Eu não era apenas feia, havia me tornado num zumbi que miseravelmente implorava carinho e atenção. Feia e rejeitada. 

Minha mente passou a ser povoada por perguntas-fabulações do tipo “o que devo fazer para ele voltar a me amar?”, “o que devo fazer para voltar a me chamar de amor como antes?”, “o que devo fazer para ter sua atenção?”. Fiz cursos de culinária, busquei no YouTube dicas de como ser uma boa dona de casa, tentei presentar e contar coisas alegres e inspiradoras. Nada funcionou. Eu me tornei então ranzinza e aquele antigo ódio que sentia pelo mundo voltou com força e com ele a insegurança se instalou definitivamente. Um dia, esgotada de tanto implorar carinho, eu resolvi me separar. Nos separamos durante uma viagem estrategicamente elaborada por mim para buscar algum tipo de aproximação. Não funcionou. Eu havia falhado ou talvez fosse o mundo que estivesse em pane. Não importa! Eu me sentia um nada, aliás; eu sempre fui um nada!

Mesmo separada eu tive que continuar vivendo com ele. Eu não tinha um único centavo: eu era um nada, feia, gorda e fodida! Então, mudei de quarto e sofria toda vez que ele saía para algum encontro enquanto eu ficava em casa olhando fixamente para o chão, lutando para não chorar em sua frente. Devastada, sentia uma dor que não cabe em palavras. Ficava repetindo baixinho que um dia tudo isso ia passar e eu seria feliz. Quando ele voltava do seu encontro, a casa estava limpa, as roupas lavadas e a comida pronta. Para viver na mesma casa eu tinha que retribuir as despesas me tornando uma empregada doméstica. Trabalhava pela manhã e estudava à tarde, quando era por volta das seis da tarde, hora que ele chegava, eu saía do meu quarto e preparava a janta, e foi assim religiosamente durante um ano e meio. Mas no fundo, eu continuava internamente desesperada implorando por amor e beleza. E acreditava nisso porque não tínhamos assinado o divórcio. Mas eu sentia falta de uma vida que nunca vivi. Via nas revistas, filmes e novelas as histórias com finais felizes e pensava que a minha seria a mesma coisa. Não foi. 

Foi assistindo televisão que eu me senti inspirada a fazer a “vingança do corpo”. O programa apresentado por Khloé Kardashian, mostrava pessoas feias, gordas e infelizes que se vingavam das pessoas que lhes causaram traumas através de dietas intensas e treinamentos físicos extenuantes. Resolvi ir malhar, comecei uma dieta radical e perdi peso. Passei a chamar atenção de outros homens, mas não do homem que eu amava e que um dia jurou que me amou. Separada, resolvi buscar outros amores. Mas bastava dizer que eu era trans que o interesse se tornava em repudio, ou se interessavam apenas por sexo. Sempre me perguntavam se eu havia operado e ao dizer que “sim”, a conversa rapidamente passava a girar em torno do “como é sua vagina?”, “eu tenho muita vontade de provar?”, “você goza?”, “você aguenta um pau dentro de você”. Eu era “bonita”, mas até ir para cama ou mandar a nude que eles tanto insistiam, lago depois vinha a realidade: eles me bloqueavam ou fingiam não me conhecer.

Consertei os dentes, gastei dinheiro com novas cirurgias plásticas, cuidei da pele, do cabelo e não alcancei a beleza. Continuei frustrada, quieta e pensativa na minha própria solidão enquanto transava com caras que diziam que eu era “uma gata” só porque eu estava profundamente carente e brutamente machucada. No fundo, eu achava que ao topar ir para cama, aquele homem perceberia a mulher que eu era e assim desejasse dividir uma vida comigo. Eu pensava que eles notariam o tanto de carinho que eu poderia dar. Eu cegamente romantizei o amor que nunca tive, e continuei lutando entre os cacos e restos do que sobrava da clandestinidade afetiva. Eu não sabia que esse tipo de “afeto” era como o remédio que promete te curar, mas no fundo te mata pelos efeitos colaterais. Mas tolamente eu continuei acreditando que, já que não era bonita, eu podia pelo menos ter afeto. Eu deixei de acreditar no amor, mas não deixei de acreditar no afeto.

Foi assim que me apaixonei inúmeras vezes e me machuquei todas as outras. A minha carência me cega ao ponto de eu acreditar que um convite para sessão de fotografias de marca de cosméticos me tornaria bonita, desejável e amável. Mas acho que eles só queriam aquela coisa exótica, uma parte de mim que oscila entre a feiura e o desprezo. Sou exótica, não bonita e isso me basta. Tenho que me contentar no exotismo, afinal; eu fui forjada na exclusão que ao mesmo tempo que inclui, exclui. O horizonte é apenas a piedade e a chance de alimentar a sede de uma sociedade doente de afeto. Agora, estou aqui no aeroporto de Congonhas em São Paulo, no meio de uma pandemia que isola o mundo, retornando para o Rio de Janeiro depois de mais uma vez imaginar a possibilidade de construir uma vida menos solitária ao lado de alguém cujo convite me acendeu uma falsa esperança num amanhã. Pura abstração de uma mulher-menina que não cresceu e, ferida, continua vagando rumo a minha própria insegurança; meu sorriso ainda não é bonito, a minha pele ainda carrega marcas, a minha cintura ainda é quadrada, meus pés e mãos grandes, minhas costas largas e meu cabelo continua feio.

Não quero nada sério, não quis te magoar, não foi minha intenção... é menos ruim que um bloqueio silencioso? Ou devasta na mesma proporção? Por que homens são gentis quando querem ir para cama e depois estão “muito ocupados” como se você também não fosse uma pessoa ocupada? Eles te iludem e quando você acredita na ilusão eles te dirão que você é gentil e que é uma grande amiga, mas no fundo não se importam mesmo com você. Eu sou feia e sou descartável. Foi como eu me senti: usada e descartada, esse corpo só serve para isso.

Eu sempre fui descartável. Fui descartada pela minha família que virou as costas para mim enquanto a faca invadia minha carne e me fez sangrar até a morte, foi assim que perdi a minha infância. Fui descartada por homens que transei na crença de carinho, descartada por homens que prometeram amor até que eu enviasse a primeira nude, descartada por aqueles que foram gentis, mas “não queriam nada sério”. Foi assim ontem, é assim hoje. O meu ex marido me ligou dias atrás, disse que tinha que ia me bloquear por causa da namorada. Eu perguntei se havia feito alguma coisa, não houve resposta, apenas um “me desculpa” e então o telefone ficou mudo. Na realidade, ninguém nunca se importou com o corpo trans preto. Ele é por definição o corpo do descarte. O corpo do uso fácil e descompromissado. É também o corpo mal remunerado, o corpo lixo-mundo. O corpo fadado a já nascer morto nas dinâmicas do racismo transfóbico. 

Eu estou esgotada. Não sinto mais forças para seguir adiante, mas eu preciso seguir adiante. Talvez um dia a absolvição finalmente venha, enquanto isso, continuo repetindo o que Estamira falou com a minha alma; “a minha depressão não tem cura”, enquanto a branquidade e a cisgeneridade não abrirem mão dos seus padrões de beleza, normalidade e igualdade. 

Escrevo a partir da feiura entre lágrimas, tristeza e desesperança ao mundo. Eu continuarei falando e lutando para as feias do mundo. É essa a minha missão. É esse o meu lugar.



 

Comentários

Postagens mais visitadas