domingo, 9 de outubro de 2016

Gritar é preciso porque viver é preciso

Em 2013 eu li um texto da Tatiana Lionço com o qual me identifiquei imediatamente. Naquela ocasião, tal qual Tatiana, eu gritava bastante! Dada as devidas diferenças, Lionço explicava os motivos que a levaram gritar na Câmara dos Deputados (você pode conferir aqui). A frase "estupro moral", que Tatiana usa, me parece bastante pertinente para justificar os abusos e as violências simbólicas aos quais tive que lidar durante toda minha vida. Em 2013 eu gritava pelos corredores da UFRJ, aliás o grito foi a tática mais utilizada naquela instituição desde o momento em que coloquei meus pés lá dentro. Hoje, no entanto, passados três anos e já no mestrado penso que é importante continuar gritando em outros espaços, inclusive na instituição onde atualmente curso o mestrado, a Universidade do Estado do Amazonas.  

Curiosamente, essa semana conversava com uma amiga e falávamos justamente sobre o grito como uma forma de resistência, ela me dizia que tinha a sensação que estava do outro lado do rio apontando o dedo e vociferando sem com isso obter resultados profícuos e que talvez fosse necessário encontrar novas táticas de sobrevivência e de resistência. Eu tendo a concordar com ela, mas não posso me dar ao luxo de não gritar! A tática do grito está impregnada no meu corpo, na minha subjetividade. É importante frisar que certas existências só são possíveis pelo viés da ruptura, mas romper exige, muitas vezes, gritar! Gritar tanto que nem a rouquidão seja capaz de te calar. Infelizmente (ou felizmente) o grito se faz necessário porque viver é preciso! Todos os dias nós (r)existimos! 

"Nunca foi um hábito ou predileção argumentativa", diz Tatiana em seu texto. Na verdade para a maioria das pessoas cis e brancas, o grito jamais se constituirá como hábito. Diante das dinâmicas históricas desse país, os brancos, e sobretudo os homens (cis) brancos, não precisaram gritar, a não ser para impor ao povo goela abaixo suas vontades políticas! A tribuna é o espaço institucional do grito por excelência! No caso de Tatiana, foi praticamente inevitável tomar o grito como hábito. O que há, no entanto, no grito é o caráter mais intrínseco da resistência, da dor, do desespero. Gritamos quando estamos com medo, gritamos quando sentimos fortes dores, gritamos quando somos estupradas... gritamos... gritamos... O estupro moral também exige nosso grito, tal qual Tatiana, eu e muitas outras mulheres negras e trans nos sentimos estupradas moralmente todos os dias. Sendo assim, é urgente voltar a gritar!

Meses atrás eu gritei no meu prédio. Na ocasião me pareceu bastante necessário porque vizinhos soltavam fogos quando a presidenta legitimamente eleita fora criminosamente deposta de sua função. Gritei sozinha na varanda! Berrava vigorosamente enquanto algumas pessoas me observavam perplexas!  Fazendo uma breve retrospectiva, esse também foi um ano de muitos gritos! Gritamos ao lado de amigos nos diversos "Fora Temer" no Rio de Janeiro, gritei nas passeatas da esquerda, gritei de desespero ao tentar socorrer meu avo que sucumbia à vida diante dos meus olhos, segurando em minhas mãos, gritei com meus pais que apoiavam o impeachment sem levar em consideração suas próprias histórias e suas próprias realidades... gritei muito! Gritei à mesa durante almoço de páscoa, em 2014, com os irmãos e a cunhada do meu marido que faziam piadas transfóbicas: destruí o simbolismo e a chatice daquele almoço! Venho gritando o tempo todo!  Valeu a pena? Funcionou?  Talvez não. Não consegui mudar as estruturas de opressão e as dinâmicas de poder que me capturam dia após dia. Mas continuo gritando porque acredito, sobretudo, na micropolítica! Nos pequenos abalos, nos sutis deslocamentos: eu grito porque preciso viver! Eu grito para me salvar!

A angustia não pode me calar, tirarei dos pulmões toda força, todo ar para emitir ao menos um som. O som do grito ativa em mim diversos sentidos e produz no outro, ainda que de forma discreta, fissuras! Embora não seja 100% eficaz, o grito nos conduz a uma espécie de presentificação. Um estado de existência momentânea, nos conduz a uma humanidade, mesmo que fraturada. Para Tatiana, serviu como uma forma de devolver, minimamente, sua dignidade tão atacada! Para mim, funciona na mesma linha! Eu acredito que o grito se configura como uma linha de fuga, tomando o pensamento de Deleuze e Guattari. Ele é em si um rizoma porque carrega, ou melhor, aglutina em seu interior uma série de dispositivos que se agenciam coletivamente no calor do momento em que sai de nossos pulmões, quando faz tremer nossas cordas vocais e torna vibrátil nossos sentidos, nosso próprio corpo! 

Na UEA, cada vez mais percebo que é importante gritar. Dias atrás encontrei o prédio da reitoria completamente paralisado para realização de uma missa em comemoração ao aniversário do reitor. Nada funcionava durante a missa! Não sou e nem quero ser especialista em direito, deixo isso para a multidão ensandecida da internet, mas isso configura uma grave e clara violação ao Estado Laico e ao funcionamento ético das instituições. A violência simbólica exercida por um professor, no curso de mestrado, é outro fator que me traz preocupação com os rumos e as próprias dinâmicas da Academia, não se liberta a criatividade com medo, pelo contrário, aprisiona-a!  Aliás, não desejo provocar discussões bairristas, mas violações institucionais e corporativistas são bastante comuns em Manaus, uma cidade profundamente violenta nas relações interpessoais, sobretudo no que diz respeito à classe social, "negritude" e outras tantas "variantes demográficas" (em aspas porque coloco esses termos em suspensão e suspeição). Na verdade, pensando aqui com meus botões e para ser justa com Manaus, isso ocorre no Brasil inteiro! Acabei de relatar acima que gritava muito da UFRJ e no Rio, ou São Paulo, ou Brasília, ou Belo Horizonte, ou Curitiba... não importa aonde! O nosso país é pautado pela imposição violenta do patriarcado que ceifa a vida de milhares de mulheres (cis e trans) e jovens negros todos os dias, fruto do nosso passado-presente colonial! Nosso país odeia os pobres e temos que gritar uníssono! Nos unir em nossas próprias multidões, efetivar e empoderar nossas coletividades e denunciar toda violência, ou melhor, todo estupro moral ao qual acabamos condicionados nessa dinâmica perversa e extremamente assimétrica! Gritemos!   

Quais devem ser, já que o grito se mostra muitas vezes ineficiente, as outras ou novas estratégias de combate? Com que armas poderíamos lutar se não o próprio corpo! Se o corpo é um campo de batalha é com ele que devemos ir à luta (entenda isso metaforicamente e literalmente)! Creio que já passamos o limite da resiliência, a desobediência civil urge antes que sejamos destruídos por rolos compressores! Por hora, na carência de outras táticas, o grito, mesmo que fraco, é a máquina de guerra mais acessível para resistirmos às diversas violências simbólicas. Que possamos dispor dele, e de nossos corpos, para resistirmos à PEC 241. Que possamos antropofagar o modus operandi dessas instituições caretas, normativas e cristalizadoras dos modos produção de vida (em seu sentido mais amplo), afinal, como bem já dizia Oswald de Andrade, "só a ANTROPOFAGIA nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente".

Parafraseando Tatiana, "basta de estupro moral, de satanização e de atribuição de desvalor" aos nossos corpos e subjetividades. Que possamos agenciar nossos pulmões e gritar coletivamente porque viver é preciso! 

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