quinta-feira, 9 de março de 2017

Não empobreça seu ativismo!

O dia internacional da mulher é uma data importantíssima para fomentar o debate histórico sobre a necessidade de constituir políticas públicas que visem ampliar não apenas o debate sobre gênero, mas sobretudo ações que busquem reduzir as assimetrias sócio-políticas entre homens e mulheres. Uma data que traz a relevância do papel social da mulher enquanto agente, enquanto protagonista histórica na luta pela redução das desigualdades e o enfrentamento secular de uma subalternidade compulsória.  Não vou me ater sobre a data em si e tão pouco sobre os necessários enfrentamentos que infelizmente ainda são precisos. Gostaria de expor algo que me incomodou profundamente no último 8 de março.

Vi diversos posts nas redes sociais que podem ser problematizados do ponto de vista da trajetória dos movimentos sociais e do próprio aspecto social hierárquico que, como sabemos, nos segmentou em classe, raça e gênero. Muitas mulheres brancas, cisgênero, classe média, funcionárias públicas postavam mensagens em suas redes como, por exemplo, "Não queremos rosas, nem tão pouco parabéns", entre outras milhares de mensagens com o mesmo sentido. Contudo eu só tive consciência da implicação simbólica desses enunciados quando precisei pegar o carro para ir ao mercado ontem à tarde. A princípio, estava inclinada em concordar com essas influentes e bem-sucedidas mulheres. Afinal a data é um marco na luta social por direitos da mulher. Porém, não podemos nos dar o luxo de ignorar a realidade social, histórica e política do nosso país cuja mentalidade se constituiu colonializada, assimétrica e perversa, ainda mais na atual conjuntura. Eu digo isso porque ao passar pela portaria do prédio onde vivo, na cidade de Manaus, fui interpelada pelo porteiro. Seu J (trata-lo-ei assim neste texto para não o expor) é um senhor humilde, de origem não-branca, não hegemônica e que sequer concluiu o ensino fundamental e que vive na periferia de Manaus, um trabalhador que cumpre longas jornadas de trabalho e que precisa cotidianamente levantar ainda de madrugada e se submeter à precariedade do transporte público da capital amazonense que eu, mesmo tendo vindo de origem humilde e da favela, jamais experimentei, para sustentar sua família. Eu vivo num dos bairros com o maior IDH da capital amazonense, num condomínio de classe média alta onde é comum conversar com os vizinhos sobre as nossas recentes viagens internacionais, coisas que provavelmente seu J, e milhares e milhares de outros homens (e também mulheres) jamais saberão o que é. É claro, que não podemos ignorar a situação de milhões de outras mulheres e esse texto está muito longe disso. No condomínio que vivo muitas delas estão servindo, limpando o chão, cuidando do jardim, cuidando dos filhos de minhas vizinhas. Muitas, sabe-se lá, estão trabalhando sem carteira assinada e sem qualquer garantia social. Este texto, e sobretudo minha postura, jamais ignoraria a realidade dessas mulheres! O que eu problematizo aqui é a precarização do ativismo de mulheres social e economicamente bem estabelecidas, formadoras de opinião e que cegamente verbalizam seus anseios nas redes sociais muitas vezes ignorando a estrutura política, histórica e social do Brasil. Enfim, é um desabafo contra todo essencialismo e toda verborragia tola que pude ler no dia internacional da mulher.

Ao me ver, seu J abriu um caloroso sorriso e o diálogo se estabeleceu mais ou menos dessa forma;
Seu J: Que bom que voltou de viagem, dona Mariah, sentimos sua falta!
Eu: Obrigada, seu J! Cheguei essa madrugada! Está tudo bem?
Seu J: Sim, tudo bem! Dona Mariah, parabéns pelo dia de hoje! (e estende a mão me cumprimentando)

A conversa continuou por cerca de uns dez minutos e durante esse período algumas outras mulheres (moradoras ou trabalhadoras), passaram por nós e seu J gentilmente parabenizava cada uma delas com o mesmo respeito, reconhecimento e empatia que dirigiu a mim! É evidente que seu J, dada sua história e sua condição social, nos parabenizava não apenas por educação, mas pelo reconhecimento por uma data simbólica que é extremamente mal discutida e difundida socialmente. Nesse aspecto, a luta feminista é um exercício pedagógico diário de emancipação que não pode e não deve ser precarizado pelo clamor verborrágico de mulheres supostamente bem instruídas e economicamente estáveis. Muitas dessas mulheres, e aqui eu posso me incluir, ascenderam socialmente. Conhecem as facetas e as dinâmicas que nos condicionam enquanto cidadãs, enquanto pessoas. Portanto, elas sabem das dificuldades e do calo social que capturam milhões de pessoas Brasil afora! Infelizmente, a maior parte delas (pelo menos das que pude ler as mensagens) vivem no eixo mais privilegiado do país e ignoram esse fato. Isso me impede de penalizar, no sentido crítico, seu J ou qualquer outro homem não-branco e/ou sem acesso aos mesmo meios de informação/educação,  por me parabenizar uma vez que a própria difusão da informação enfatiza as nuances desse "cardápio". A nossa mídia, em geral, não cumpre o papel de informar, mas de docilizar e homogeneizar as experiências, todas elas! Eu li, em diversos veículos, mensagens altamente problemáticas que culminou com a mediocridade do discurso do usurpador presidente da República! Um homem branco, supostamente bem informado, autor de livros e que ocupa a tribuna mais importante do país e cuja voz deveria ser uma luz para o povo que diz querer governar, um presidente ilegítimo que ocupa um espaço na mídia com um discurso ultrapassado, medíocre e que assujeita as vivências e precariza o status-quo das mulheres encerrando suas infinitas experiências às contas de mercado e à economia do lar. Quando um homem como esse ocupa um papel de destaque na mídia, pior; quando ocupa o cargo mais importante do país, não podemos culpar aqueles que como seu J, precisam lutar de forma desigual de sol a sol para por comida na mesa de suas famílias.

Além disso, o ato de seu J não pode ser visto nem entendido como deslegitimação da luta feminista. Pelo contrário, ao parabenizar a mim e outras mulheres, pode-se criar um senso de empatia, respeito e reconhecimento não apenas pela data, mas pela luta histórica e pelo lugar que aos poucos vamos conquistando. Me despedi e segui o meu caminho. Mas cruzei com outras mulheres e homens que vendiam flores nos sinais da capital amazonense. Novamente, surge um impasse crítico às mensagens que li nas redes sociais. Volto para casa decidida a posta algo no face e me deparo com algumas postagens de mulheres felizes porque receberam flores, porque, mesmo que por um instante, foram reconhecidas. Certamente, as pessoas que estavam vendendo flores não estavam ali pela importância de uma data simbólica, mas pela necessidade de pagar suas contas, de vestir-se e, até mesmo, de comer! Homens e mulheres que não podem se dar ao luxo de perder horas de seu dia criticando "machos sem noção" nas redes sociais porque a dinâmica de suas condições sociais não o favorecem, porque historicamente sempre estiveram do lado subalternizado, precarizado pelas condições sociais do trabalho e segmentarizados, hierarquizados, por fim, condicionados numa assimétrica e perversa ordem capitalística. Se constitui, portanto, uma cadeia que com esforço podemos entender como pedagógica, do ponto de vista político e social; alguns vendem flores para viver, outr@s recebem flores e aparentemente agenciam uma micropolítica. Não podemos exigir de mulheres que, diferente de nós, não tiveram as mesmas oportunidades de acesso à educação e à informação. Essas mulheres e homens também fazem política com seus corpos!

Assim, gostaria de citar um pequeno trecho de um dos livros que li recentemente e que me marcou profundamente. Em Mulheres, Raça e Classe, Angela Davis diz que "O sistema escravista definia o povo negro como propriedade. Já que as mulheres eram vistas, não menos do que os homens, como unidades de trabalho lucrativas[...]." E continua dizendo que "No que dizia respeito ao trabalho, a força e a produtividade sob a ameaça do açoite eram mais relevantes do que as questões relativas ao sexo. Nesse sentido, a opressão das mulheres era idêntica à dos homens". Essa pequena citação me parece bastante pertinente para sustentar o que busco defender aqui. É claro que os tempos são outros e a própria Angela Davis, reconhece que as mulheres eram vítimas de outros tipos de violência como o estupro, por exemplo. Mas não deixa de fazer sentido na contemporaneidade, dada a dinâmica que ainda enxergar nossos corpos como mercadoria. Como máquinas que precisam produzir e gerar lucro a todo custo e, sabemos, é bem por isso que o capitalismo busca aglutinar tudo para assim esvaziar de sentido e potência as lutas não apenas das mulheres cis ou trans, mas dos negros, dos nordestinos, dos indígenas, etc. Portanto, quando nos deparemos com uma pessoa vendendo rosas no dia internacional da mulher, penso o que está por trás disso! E penso, sobretudo que receber uma rosa pode ser o menor dos problemas os dos enfrentamentos que temos e isso não quer dizer que deslegitimo o ativismo/feminismo dessas mulheres, mas critico o "emburrecimento" que as fazem negligênciar que por trás de uma rosa esconde-se a necessidade de um prato de arroz com feijão à mesa, não apenas de outras mulheres, mas de homens como seu J que historicamente foram deslegitimados por uma estrutura econômica desigual.

Por fim, para não me prolongar ainda mais, me espantou a carga essencialista imposta sobre a data, desconsiderando que a história também mostra a luta de mulheres não cis e, portanto, não hegemônicas nessa seara do poder. Li muita coisa com as palavras "buceta", "útero", etc. Preciso enfatizar que entendo a necessidade sobretudo política de se pontuar a imanência de um órgão sexual e reprodutivo em tempos de luta pela legalização do aborto e controle, literal, dos direitos reprodutivos. No entanto,  ao frisar somente a potência de um lado da balança, inviabilizamos a luta de milhares de outras mulheres que não nasceram com vagina, ou não tem vagina ou útero. Mulheres que são igualmente assujeitadas por esse Cistema necropolítico que desqualifica não apenas os corpos, mas as próprias vozes, as experiências e a pluralidade da nossas vidas! Amigas, por favor não empobreçam seu ativismo! Que juntas, lutemos e ressistemos contra essas armadilhas que nos rodeiam!

à luta, por todes!

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