quarta-feira, 24 de maio de 2017

Por que eu grito na "acadimia"

A universidade tem uma dupla "unidade" de subjetivação. Paradoxalmente, esse duplo dispositivo que produz políticas de subjetivação age simultaneamente num dado campo de forças que é imanente e fundamentalmente assimétrico. Imanente porque ele cristaliza uma "forma-força" que toma aspectos de naturalidade, operando e efetivando o status quo e modo de existir pautado numa ficção que aqui chamarei de "ética diplomática". Em outras palavras, nada mais é que a aglutinação de um fazer acadêmico sustentado pela dinâmica do privilégio, dos códigos e dos modus operandi repetidos à exaustão ao qual historicamente se convencionou chamar de burocracia. Na verdade, o que vemos aí ativado é um "maniqueísmo burocrata" que enrije todo corpo vibrátil nesse espaço de poder e distinção social. Em suma, a força dessa "unidade" é a da automatização dos processos, da religiosidade dos métodos, da planificação política do espaço que, invariavelmente, assujeita as relações intersubjetivas e produz um modelo muito específico de subjetivação: o pedesto-intelectual*.

Por outro lado, é também uma unidade assimétrica dado que a disposição é sempre político-relacional. Ou seja, em todo campo de forças os agentes estarão em conflito (ético, político, epistemológico, social, etc) criando relação de poder por vezes intransponíveis dado todo arcabouço histórico e institucional. Isso implica dizer que - mesmo que não salte aos olhos de alguns - as relações de gênero, de raça, de sexualidade, de poder econômico, capacidade cognitiva, etc., estarão sempre em agenciamento com profundas políticas de subjetivação, ocasionalmente ou invariavelmente produzindo subalternização e perpetuação de uma prática colonial. Isso precisa ser criticado. A colonização não é apenas um processo de domínio de um território geográfico sobre outro na forma "Estado-nação". Corpos também são "territórios" e assim ficam suscetíveis às forças capitocoloniais* ou, simplesmente, semióticas.  Isso cria modelos específicos de subjetivação e consolidam um fazer acadêmico que, ao meu fazer, não faz mais sentido porque é justamente uma reprodução de uma estrutura maior de força atualizada no tempo-espaço.

Por que disse tudo isso? Bom, recentemente - quem acompanha o blog deve ter visto - reclamei da forma como a universidade onde faço mestrado conduziu a organização de um evento que abordaria as questões que envolvem as capturas das transexualidades (ver aqui) . O evento intitulado "TRANSfronteiras" ao meu ver acabou reiterando a mesma prática ao qual ele supostamente estaria criticando (as transfobias) e ao deixar de levar em consideração o que as pessoas trans tinham a dizer sobre si e o modo institucional em voga, seguiu o caminho oposto e ignorou a "materialidade" das pessoas trans. Em suma, foi uma evento cis, para pessoas cis sobre pessoas trans, minando assim qualquer possibilidade de se TRANSformar, ou de se TRANSpor às fronteiras sociais, epistemológicas e institucionais que captura os modos de vida trans.  O que se efetuou foi a "limitação territorial" - restringindo o lugar histórico e compulsoriamente subalterno dessas pessoas - que aprisiona as subjetividades trans, seja na forma do "objeto" de pesquisa, seja na docilização dos corpos, seja na perpetuação do discurso vitimista (como se elas só tivessem histórias tristes e violentas para contar), seja numa prática de subjetivação específica ao qual o próprio evento tratou como transfobia; um paradoxo! Mas por que essas vozes não foram ouvidas? Por que a organização não levou em conta outros roteiros? Seria um eco insconsciente do laudo médico ou uma ideia de senso-comum difundida socialmente de que essas pessoas não prestam pra nada? Não seria isso um uso simbólico e indevido dos corpos trans? Seja lá qual for a resposta eu me coloquei de modo bastante combativo junto a organização do evento. Novamente gritei.

Mas o exemplo acima é só uma das muitas formas pelas quais a "acadimia" pode lidar com as pulsações intensas de vida. É que no fundo o que se opera a partir do velho modelo institucional atualizado é o que Oswald de Andrade chamaria de "baixa antropofagia" porque o paradigma do homem acadêmico é o do "Homem Cordial" diria Sérgio Buarque de Holanda. E isso não é apenas na universidade onde faço mestrado, esse modelo está difundido amplamente desde sempre porque ele é resíduo tóxico do velho modelo colonial.

Mais recentemente ainda, houve uma conversa em grupo de WhatsApp onde um professor que ministra certa disciplina alega ter esquecido de disponibilizar no xerox um determinado texto. Normal, humanos são "suscetíveis" ao "erro" e no fundo eu até acho que a postura de reconhecer o esquecimento tenha sido louvável. Diante da impossibilidade de não ter acesso ao texto em tempo hábil, e antes de professor alegar sua falha, uma aluna sugere que a aula fosse transferida para um outro dia. O que no fundo é definitivamente válido, mas isso de algum modo implicaria a disponibilidade de agenda de outros. Isso quer dizer que implicaria em compromissos, como por exemplo, reagendamento de entrevistas, faltas não programadas ao trabalho, reagendamento de campo, reagendamento de eventos ou mesmo de questões pessoais, afinal nem mesmo os professores deixam de ter vida própria embora também sejam muito ocupados. Diante desse cenário, a minha colocação foi definitivamente impessoal, iniciei dizendo algo como "por mim está ok, mas que não se cobre falta" e concluí dizendo algo do tipo "esse seria o segundo encontro trocado aleatoriamente (sem motivos densos) e os alunos se inscreveram para um disciplina em horário x e dia y". Ou seja, o que queria mostrar é que alunas e alunos se programaram para frequentar aquela disciplina em um dia e horário específico, mas tudo bem que se altere desde que quem não possa comparecer não seja punido. E foi aí que ativou o modelo de força institucional em seu aspecto autoritário.

A resposta do professor, ao meu ver, contraria qualquer senso lógico da afirmação supracitada. Ele reclama o seguinte: "[...] De qq forma, bolsistas são dedicação integral ao programa e se submetem ao calendário do programa - não o contrário [...]". Ora, temos aí justamente a efetivamente das minhas colocações iniciais sobre a forma da dupla "unidade" de subjetivação, e aqui diria inclusive de assujeitamento. Se há um calendário previamente definido, difundido e tipificando claramente os dias e horários das aulas, isso implica dizer que a colocação do professor não é apenas arbitrária, é autoritária. Além disso, em nenhum momento anterior a esse se falou em "bolsistas" porque nem todos os estudantes do programa (e consequentemente da referida turma) são bolsistas. O que se percebe aí então é uma "pessoalização" do debate que a princípio se iniciou de forma impessoal. Isso não é apenas definir um tipo de sujeito, mas produzir um tipo específico de assédio, o assédio acadêmico-institucional. Não obstante, bolsistas de fato são dedicação integral, mas aos estudos não ao programa. E isso significa afirmar que o Programa de Pós-Graduação não pode agir de forma arbitrária e abusiva para com os estudantes. Bem como, "dedicação integral" não significa "subalternização integral". Precisamos TRANSformar essa lógica acadêmica de capitalização do saber. Entre as diversas atribuições de um aluno de mestrado (ou doutorado), está o compromisso ético e epistemológico com sua pesquisa, de modo que tão necessário quanto participar das aulas é participar de eventos ou atividades que digam respeito à sua formação. Sendo assim, é razoável que todos tenham uma programação definida que invariavelmente não pode estar condicionada aos desatinos de uma pessoa com uma posição estratégica em um programa de pós-graduação. Gritem.

 O referido professor conclui dizendo que "vamos manter o bom senso e entender que na pós-graduação o importante não é cumprir tabela. A aula é para todos". Aparentemente há uma contradição no que ele diz a princípio. Se o importante não é cumprir tabela, porque raios há uma programação "tabelar" a ser cumprida? Eu entendo que ele se referia à qualidade do debate em aula, mas ao pessoalizar a discussão neste nível precário e autoritário de recurso discursivo quem parece faltar com o bom senso é justamente o professor. A pós-graduação, assim como a graduação, também não é operada exclusivamente dentro do espaço arquitetural da sala de aula. Ela é efetivada nas entrevistas, nas bibliotecas, nos diversos livros, nos debates em seminários, congressos e palestras, etc. Ou seja, "na experiência palpável da vida" diria o velho Oswald. Ao afirmar que "a aula é para todos", ele traz indiretamente à luz duas questões fundamentais, (1) a de que a universidade pública é PÚBLICA, portanto qualquer aula racionalmente deveria ser para todos (de todo que toda alteração deve ser consensual) e (2)  que ao pessoalizar o debate, pressupondo que ele está sendo atacado, ele cai na contradição essencialista do modelo institucional de aula supostamente democrática, mas as categorias "Eu" e "Mesmo", elencadas por Michel Foucault, operam em dicotomia de poder e alteridade. E usar esse poder de forma arbitrária não o tornaria um tirano? Gritem.

Dada as arbitrariedades, eu grito novamente! Não tenho qualquer compromisso ético com supostas práticas diplomáticas do discurso. Recorrer discursivamente à bolsa - um instrumento de pesquisa sistematicamente verificado por agencias fomentadoras e tipificado em sua estrutural legal - como técnica de produção de uma política de subjetividade nefasta em forma de coação indireta ao velho modelo institucional da reprovação é desleal, é arbitrário, é ilegal, não é ético e, ao meu ver, não é uma medida eficiente de verificar qualidade. Exigir indiretamente que bolsistas se subalternizem em função de alterações para sanar um "problema" pessoal (a falta de disponibilidade de um texto que altera a data de aula para um dia não previamente acordado e pior NÃO UNANIMEMENTE ACORDADO) é irresponsável, é - como ele mesmo disse - uma falta de bom senso e de zelo com o próprio código de conduta ética do educador. Gritem.

De todo modo, o professor pressupõe que eu é quem iria faltar a aula, tanto que recorre ao instrumento das faltas como forma de reprovação e da bolsa como obrigação (e não direito conquistado) uma vez que eu sou bolsista, sendo que sua colocação indica claramente que ele tomou para si o comentário anterior e sequer foi capaz de ser crítico ao próprio conteúdo da conversa. Não seria eu quem faltaria, mas um dos colegas havia anunciado previamente que não poderia estar presente em aula em função de compromissos outros. Além disso, nem todos os estudantes se pronunciaram, produzindo uma lacuna consensual à alteração da aula. Ou seja, não foi a maioria quem decidiu pela alteração. Mas o modelo institucional se baseia pela autoridade, a última palavra pertence sempre a quem detém o poder. Não é isso que teria feito Michel Temer dizer "não renunciarei" mesmo tendo rejeição esmagadora ao seu governo?* Uma universidade não existe apenas em função dos professores, ela é antes de tudo um espaço destinado aos estudantes e à produção de conhecimento. Professores são parte dessa engrenagem, tão importantes e tão relevantes quanto aos estudantes. Quem representa os estudantes? Se o Programa/Universidade tem a Procuradoria no seu modelo legal e institucional, quem dinamiza os interesses dos estudantes que não eles mesmos? Gritem!

Nessa conjuntura, é importantíssimo que se grite! O grito, neste caso, é o dispositivo semiótico que ativa o corpo vibrátil e produz tipos específicos de (re)existência. Nenhuma revolução no mundo foi feita com distribuição de flores. Pelo contrário, distribuir flores, em seu sentido simbólico, seria o equivalente às "sublimações antagônicas trazidas nas caravelas" como diz Oswald de Andrade em seu Manifesto Antropófago. Seria cair na armadilha dócil e erudita da violência institucional que faz da academia brasileira um espaço estanque. É evidente que a academia também pode produzir a libertação do caráter criativo e revolucionário de seus estudantes, professores e funcionários, mas somente se ela não for capaz de aprisionar e "planificar" as pulsões de vibrantes, esvaziar-las de sentido. No meu caso, esse modelo tem produzido desinteresse, desânimo, desgosto... eu nunca me senti tão presa quando deveria justamente me libertar e voar alto.  Gritem porque "Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz".

Gritem!







* O intelectual no pedestal
* Junção da ideia de capitalismo com colonialismo como políticas densas de subjetivação.
* Sem contar as conversas gravadas que o comprometiam

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