Resistir é ação cotidiana: por uma micropolítica ética da (re)existência.
Eu passei a vida lutando para existir como sou. Estava muito deprimida há meses - ainda estou -, me sinto cansada, sinto um vazio imenso há tempos. Estou cansada de continuar lutando e brigando por coisas mínimas, pelos mínimos direitos. Lutei contra dois estupros sozinha na minha infância. Tive que aprender a lidar com a morte das minhas amigas e amigos, tive que aprender a lidar com a fome e com as poucas moedas que conseguia com a troca de latas e papelão. Tive que aprender a lidar com as agressões físicas, simbólicas e emocionais. Tive que aprender a brigar como uma loba pelos meus sonhos. Aprendi a mentir quando necessário e a jogar a verdade na cara quando preciso. Em todo instante o grito esteve comigo, ele era a minha arma. Tive que aprender formas de cicatrizar rápido as feridas e agredir quando necessário. Resisti tudo isso em silêncio, sozinha. Sempre com um sorriso vazio e muita raiva dentro de mim. Venci muitas vezes, caí outras tantas. Hoje me sinto dilacerada, mas de algum modo consigo sentir uma força que jamais senti antes; sinto raiva, sinto ódio, mas também sinto muito amor pelos quase 47 milhões de pessoas que se colocaram ao lado da democracia. Não estamos sós... acho que há um comum que nos une mais do que nunca: o desejo de superar o autoritarismo e caminhar de mãos dadas rumo a um futuro com comida, educação, segurança e saúde. Tudo isso sem excluir a diversidade das nossas coletividades. Sem excluir ou eliminar as singularidades de nossas existências. Hoje mais do que nunca - ferida e esgotada por esses anos todos de luta - sinto que temos, fundamentalmente, o dever ético de viver, resistir e lutar. Lutar como pretos, pobres, favelados, trans, índios, loucos e todo o conjunto de "desviados" têm feito há muito tempo. Eu estou aqui com vocês e, mesmo ferida, me apresento à luta. Lutarei como posso, como venho fazendo há anos, agressiva e doce, feroz e carinhosa: viva! Extraindo vida dos inúmeros processos de morte que a política colonial tem nos imposto há séculos. Viva e ferida, caminho ao lado de cada um de vocês. Lutemos lado a lado, de mãos dadas com o objetivo de não sucumbir à morte, mesmo que simbólica. Lutemos por uma ética da existência que não encerre nossos sonhos, nem nossas esperanças, nem tão pouco nossos afetos. Resistir agora é uma ação micropolítica que jamais deixou de ser cotidiana.
É como diz Bethânia, na música abaixo, "foram me chamar, eu estou aqui o que que há? Eu vim de lá, eu vim de lá pequenininho, mas eu vim de lá pequenininho... alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho".
E devagarinho vamos reconstruir nossos sonhos, nossos afetos e nossas lutas. Nossa esperança não morreu, ela apenas sofreu um ataque momentâneo: vamos superar juntos!
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