O imaginário das projeções: uma violência incondicional

Segundo Platão, o mundo em vivemos seria uma espécie de projeção de um mundo superior. Uma espécie de "reflexo", uma reprodução de um mundo ideal. Tal ideia, baseada na transcendência, é o que efetiva o que chamamos de metafísica platônica. Na metafísica o mundo superior (divino ou ideal) contrapõe-se ao que seria considerado obscuro; a matéria "não criada". É lá onde residiriam não apenas os deuses, mas a virtude, a ética, o belo... ou seja, toda uma pujança do sensível que se concentraria em torno da ideia de bem. O mundo inferior seria o oposto, seria uma mimese do mundo sensível. Portanto, os seres viventes aqui seriam simulacros que deveriam buscar os princípios do mundo das ideias.

Essa explicação um tanto quanto grosseira da metafísica platônica opera como uma espécie de introdução àquilo que chamo neste breve ensaio, ou melhor, nestas breves reflexões de "o imaginário das projeções". Com Platão, o mundo passa a ser dividido em dois: de um lado as forças do sensível que se concentrariam em torno da noção de bem e, por outro, as "forças do incriado" que se reuniriam em torno da noção de mal. Uma dicotomia que se estende patologicamente até os nossos dias. Em função dessa patologia, inconscientemente, estamos sempre em busca de um ideal distante que na verdade é processualmente produzido. E uso o termo "processual" de modo proposital, afim de demonstrar as dinâmicas de produção de subjetividade que são radicalmente diferentes na filosofia de Deleuze e Guattari, autores aos quais eu tenho - diria - uma certa "filiação" reflexiva.
Atualmente projetamos a partir do sensível as aspirações de futuro (tais como o sucesso profissional - a própria noção de sucesso -, o messias e o diabo, o ideal de beleza socialmente produzido, de família, de bem estar etc.) sem nos dar conta de que na verdade não há meramente um sistema binário que rege nossos modos de existir e de pensar, e sim uma heterogeneidade de "dispositivos" que maquinam nosso desejo. O desejo não se trata apenas da "ação de desejar" (eu quero isso ou aquilo ou simplesmente "afeiçoar-se sexualmente", muito embora passe também por aí), ele é um agenciamento de fluxos, uma multiplicidade com distintas dimensões requerendo sempre mais e mais conexões em constante movimentos de desterritorialização e territorialização. Oras, mas haveria aí uma certa contradição: como pode "projetamos" segundo as leis da metafísica, mas existir "existirmos" - em nossa materialidade - segundo um plano de consistência? Esse, ao meu ver é o princípio da violência.

Há uma violência na dicotomia - que não deixa de existir no rizoma - que engessa nossos modos de existir. Somos orientados segundo regras que não dão conta da multiplicidade de fenômenos (materiais e imateriais) aos quais estamos processualmente envolvidos. Assim, projetamos um ideal de família que nunca existiu porque "não há o sensível", há apenas a produção de real social. Projetamos um ideal de relacionamento segundo as leis de um amor fantasioso, melancolicamente produzido segundo as "leis do patriarcado" e dos romances que fabulam a "alegria de final feliz". Projetamos uma salvação segundo dogmas violentamente fabulosos que condenam o corpo da mulher e repelem aquilo que escapa o binário. Há muitos modos de projetar aquilo que forçosamente idealizamos de acordo com os mecanismos travestidos de ideal. O ideal é uma outfit de violência que condiciona o acesso a determinados sistemas de inteligibilidade àqueles que negam a própria pulsação do desejo, deixando-o de liberar em seu vetor ético*. Com isso não quero dizer que no rizoma - e toda maquinação de seus princípios - só há "lindezas". Ler o rizoma - e este texto - sobre esta perspectiva incorreria num erro que reduziria o rizoma às regras da metafísica: há o melhor e o pior no rizoma (ver o primeiro volume de Mil platôs) em constante relação e fora de qualquer regra ou mecanismo transcendental e hierárquico. Em suma, o bem e o mal são socialmente produzidos segundo as próprias dinâmicas do Acontecimento e isso é - em tudo - a própria vida em seu processo de pulsação.

No plano familiar, por exemplo, a violência das projeções começam com o enunciado "é um menino/ é uma menina", instala-se aí uma série de expectativas em torno desse ser "menino/menina". Assim, vamos sendo moldados segundo regras imaginárias socialmente produzidas e reiteradas (Butler melhor do que ninguém explicou isso). Crescemos, temos que constituir não apenas uma sexualidade inteligível, mas uma carreira e um relacionamento de sucesso. Desse modo, projetamos parceiros ou parceiras ideias, pior; projetamos nessas pessoas as nossos próprias noções de ideal de relacionamento e bem estar e muitas vezes ingressamos em relacionamentos abusivos ou relacionamentos de fachadas que operam ao bel prazer dos cliques nas redes sociais (o mundo ideal por excelência). Projetamos nos outros, aos quais nos juntamos na empreitada de construir um relacionamento, um ideal de felicidade muitas vezes "glamurizados". É que no fundo desejamos um relacionamento "capa de revista", mas quando jogamos a lupa sobre as páginas o que encontramos é a solidão, os abusos, as mentiras, as traições, os estupros, as agressões... "Um relacionamento deve ser como um time", diz-se por aí segundo as projeções do idealismo. Um "time" no qual a mulher, em geral, opera como objeto sexual, onde se precisa abrir mão de sua própria integridade psicológica para atender as necessidades do outro. Onde há um time cujas peças estão em perfeita desarmonia? O ideal de relacionamento de uns não é o mesmo de outros; andar de mãos dadas é garantia de felicidade? Viver aos beijos é garantia de amor? Onde pode haver um time quando os interesses são regulados e centralizados da figura do "homem que manda e a mulher que obedece"?

Projetamos sobre os outros e sobre o mundo exatamente aquilo que é contrário ao que os outros e mundo projeta sobre nós. Nesse eterno movimento de encontros e desencontros, cujos atritos produzem muitas faíscas, vamos sendo esvaziados de nós mesmos, um efeito colateral extremamente violento que não cessa, pois assim que se finda uma projeção com os efeitos devastadores da desilusão, começa-se uma nova. O antídoto ou a vacina consistiria em talvez na busca pela reorientação de nossas práxis em torno de um vetor de multiplicidade pulsante ao invés de um vetor transcendental. Contudo, não há garantia de nada! Apenas de seus únicos esforços em torno de uma ética de criação da vida que transborde e escapem os reativismos tóxicos do mundo das projeções fantasiosamente produzido.

*Sobre este ponto sugiro a leitura do mais recente livro de Suely Rolnik chamado Esferas da insurreição: notas para uma vida não cafetinada lançado pela N-1. A ética aqui é tomada segundo outros princípios em tudo relacionados ao processo de criação e efetuação da vida.

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