Dez mandamentos para uma prática acadêmica micropoliticamente libertária e macropoliticamente revolucionária.
Nestes tempos de profunda solidão coletiva tenho refletido bastante sobre a montanha-russa emocional que foi esse ano. Um ano muito difícil em diversos diferentes aspectos, um ano de altos e baixos. Contudo, um ano de profundo aprendizado.
Recentemente fui aprovada para o curso de doutoramento em Comunicação Social pela Universidade Federal Fluminense e velhos fantasmas voltaram a me assombrar. É que eu jamais imaginei que pudesse chegar tão longe. Para ser bastante honesta (e sem quaisquer resquícios de drama), eu jamais imaginei que estaria viva até essa altura. Vi muitos amigos e amigas morrerem pelo caminho, pessoas das margens cujos sonhos foram interrompidos ainda na adolescência. Alguns foram presos, outros tiveram que abandonar os estudos para trabalhar e cuidar da família. Os meus fantasmas se materializam na forma e no modo como nossa sociedade opera, como diz a querida e brilhante Jota Mombaça; "o meu trauma é o mundo".
Um mundo que insistiu de todos os modos para que eu não vivesse, para que eu não tivesse acesso aos "bens" que a parte privilegiada possui. Quando se é triplamente pertencente à margem, as coisas não são necessariamente fáceis. O caminho não é necessariamente uma linha reta, mas uma rota cheia de obstáculos, permeada pelo medo, pela insegurança e pelos profundos desafios que emergem e que são muitas vezes intransponíveis.
Com a aprovação no doutorado, necessariamente me encontrei pensando de onde eu vim, da minha infância, das escolas por onde passei, na minha minha família, mas principalmente nos ideais nos quais acredito e sobre os quais tenho a obrigação ética de preservar. Por isso, decidi construir uma "tábula" dos dez mandamentos para uma prática acadêmica antropofágica em seu vetor ético e libertária. compartilho com vocês:
10. Se a pesquisa machuca você ou aos "seus", liberte-se! Não adoeça e não deixe adoecer em prol do dito "conhecimento superior". Não há nada de feio em desistir do que faz/deixa morrer ou nos despontencialize subjetivamente, afinal o conhecimento só pode ser libertário quando ele é capaz de libertar coletivamente.
Recentemente fui aprovada para o curso de doutoramento em Comunicação Social pela Universidade Federal Fluminense e velhos fantasmas voltaram a me assombrar. É que eu jamais imaginei que pudesse chegar tão longe. Para ser bastante honesta (e sem quaisquer resquícios de drama), eu jamais imaginei que estaria viva até essa altura. Vi muitos amigos e amigas morrerem pelo caminho, pessoas das margens cujos sonhos foram interrompidos ainda na adolescência. Alguns foram presos, outros tiveram que abandonar os estudos para trabalhar e cuidar da família. Os meus fantasmas se materializam na forma e no modo como nossa sociedade opera, como diz a querida e brilhante Jota Mombaça; "o meu trauma é o mundo".
Um mundo que insistiu de todos os modos para que eu não vivesse, para que eu não tivesse acesso aos "bens" que a parte privilegiada possui. Quando se é triplamente pertencente à margem, as coisas não são necessariamente fáceis. O caminho não é necessariamente uma linha reta, mas uma rota cheia de obstáculos, permeada pelo medo, pela insegurança e pelos profundos desafios que emergem e que são muitas vezes intransponíveis.
Com a aprovação no doutorado, necessariamente me encontrei pensando de onde eu vim, da minha infância, das escolas por onde passei, na minha minha família, mas principalmente nos ideais nos quais acredito e sobre os quais tenho a obrigação ética de preservar. Por isso, decidi construir uma "tábula" dos dez mandamentos para uma prática acadêmica antropofágica em seu vetor ético e libertária. compartilho com vocês:
1. Não permitir que a noção de "doutoridade" contamine sua mente e sua subjetividade. O doutorado é uma apenas uma função do status quo, entretanto necessário para os meus propósitos pedagógicos. Não se deve usá-lo como ferramenta de distinção, tão pouco como forma de hierarquização social. Não envergonhe sua história.
2. A humildade é o único caminho possível para a produção de conhecimento. Saber ouvir os "não letrados" (aqueles que não tiveram acesso aos códigos culturais vigentes), as ruas e a intuição é voltar-se para o mundo em sua mais potente intensidade.
3. Animais e seres humanos não são objetos, não podem ser "manuseados" indiscriminadamente. Jamais ignorar a agência daqueles que constroem conhecimento COM você numa produção sempre desejante, coletiva e heterogênea. Sejam eles "sujeitos pesquisados" ou não. Para se chegar à singularidade não se pode excluir as multiplicidades.
4. Retorne à sociedade os investimentos que ela fez em você e na sua caminhada acadêmica. Trata-se de um ato de civilização operar para uma sociedade mais justa, mais igualitária e menos assimétrica. Fazer o conhecimento produzido chegar à comunidade de onde você saiu e ampliá-lo é um gesto micropolíticamentde necessário, um gesto de "guerra" pela libertação daqueles que como você também pertencem às margens do mundo (há muitas camadas de margens e todas elas são pulsantes). Nosso compromisso é descentralizar o centro e rizomatizar potencialmente os modos de viver.
5. Saiba reconhecer as contribuições de colegas, professores, amigos, funcionários e familiares. Jamais deixe de citar alguém que contribuiu para o desenvolvimento do pensamento crítico, seja essa pessoa acadêmica ou não. Dane-se a ABNT! O conhecimento é sempre uma produção coletiva e desejante.
6. Jamais desdenhe do "conhecimento de base", nunca ignore os "dados" da sabedoria popular. Lembre-se que o que você "é" hoje é necessariamente um desdobramento do que você foi no passado. Trate com igual importância mestres, graduados e estudantes dos ensinos médio e fundamental. inclua-os nos projetos e publicações, estimule os "movimentos aberrantes" do conhecimento. Isso só tem a fortalecer os laços de afeto e a própria produção de conhecimento, fazendo dela algo cada vez mais democrático de fato. Oxigenar as ideias é um ato micropoliticamente necessário e isso só será possível com a polifonia e múltiplas perspectivas.
7. Lembre-se que toda crítica jamais pode ignorar a ética. Critique dentro dos limites éticos sem diminuir ou ofender o autor.
8. Nunca esqueça suas origens e seus privilégios (mesmo que esses sejam fraturados). Lembre sobre as dobras do seu EU (negra, trans, pobre, favelada, suburbana). Contudo, jamais dê "carteirada" para justificar seu lugar de fala, calar-se às vezes trata-se de um grito demasiadamente ensurdecedor. Use suas "fraturas sociais" como catapulta para o desdobramento do pensamento crítico.
9. Lute com todas as forças contra o status quo. Ele é um dos dispositivos que podem fortalecer o insconsciente colonial. Orgulhe-se, mas não se gabe pois o conhecimento está sempre em movimento e pode tornar-se rapidamente obsoleto dado as dinâmicas sociais, culturais, políticas, econômicas e (inter)subjetivas.
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