A TRAVESTI QUE OUSOU NÃO ESTAR NA ESQUINA E FOI FAZER ARTE

Dia 31 de março não foi apenas um fátidico dia de nossa história recente cujo contexto político tem reverberado toxicamente a partir dos posicionamentos vergonhosos do homem que ocupa a cadeira da presidência da República. Foi também o dia internacional de visibilidade trans e este sim cabe lembrar e celebrar. Diante dessa importante data, compartilho com vocês um pequeno texto que escrevi para uma amiga e artista trans a partir de sua obra intitulada "a travesti que queria ser artista".

 A TRAVESTI QUE OUSOU NÃO ESTAR NA ESQUINA E FOI FAZER ARTE

            Na penumbra da esquina não era possível decifrar bem o que se mantinha de pé horas afinco aguardando o bater de portas dos automóveis que por ali passavam. Praticamente indestrutível aquele “incorroível” corpo se mantinha maleável às ameaças, aos gritos e ofensas de um “cistema” que buscava desejantemente sua aniquilação na mesma medida em que procurava clandestinamente seus prazeres. Na penumbra da esquina o que reluzia era um metal precioso, o mais maleáveis dos metais, ao qual nós chamamos TRAVESTI. Era um corpo, um corpo de verdade que brilhava como ouro, mas que valia, para a sociedade distinta, alguns míseros centavos. A crença sobre o perigo das travestis é real: elas agora fazem arte, escrevem livros e lecionam para esses mesmos “homens de bem” que as procuram nas sombras da noite. O perigo se efetivou com um corte radical pela navalha dourada da travesti que queria ser artista e ousou a ser. A ontologia do sertravesti se constitui através de estratégicas de subversão das normas que reluzem ao gracejar bamboleante de seus quadris maleáveis pelos corredores de espaços antes impossíveis. Ela rasga, corta, perfura com sua navalha dourada o cânone patriarcal e cisheterocentrado que é a história da arte causando uma profunda ruptura por onde o sangramento intenso jamais permitirá uma desontologização do acontecimento travesti. Navalha-corpo ou corpo-navalha; não há mais volta, há apenas mergulhos intensivos em um plano de imanência que vem dilacerando o mundo da arte e conclamando sua matilha selvagemà uma revolução da linguagemque passa antes de mais nada por uma outra forma de ver e existir no mundo. É com o corte visceral dessa navalha-corpo que vamos reescrevendo a história da arte: uma arte travesti-navalha-esquina-mundo.  

"A travesti que queria ser artista"
Lamina de ouro e caixa de jóia
Agripina M. Manhattan

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