CONTRIBUIÇÕES REFLEXIVAS PARA CONJURAÇÃO DO FIM DO MUNDO. DOS CACOS QUE NOS RESTAM À IMANÊNCIA DA ARTE.
Texto apresentado durante o seminário Percursos criativos para cultura de equidade que aconteceu em 07 de maio de 2019 no Bela Maré, Rio de Janeiro. Minha contribuição ocorreu na mesa "o poder da curadoria" e eu resolvi chamar minha palestra de Contribuições reflexivas para conjuração do fim do mundo. Dos cacos que nos restam à imanência da arte.
[...] tem pedaços do nosso mundo que já morreu. Nós fazemos profecias
sobre uma possível queda do céu, mas muitos pedaços desse céu já caiu.
E, em alguns casos, caiu em série sobre grandes regiões de nosso planeta.
[...] causou mudanças enormes em nossa perspectiva em uma
humanidade.
Ailton Krenak em Os mil nomes de Gaia.
Essa fala nasce de um profundo incômodo que persiste intensamente nos tempos presentes. Fiquei oportunamente feliz quando recebi o convite para compor esta mesa, primeiro pelo fato de poder expor, de algum modo, tais incômodos, e segundo pela oportunidade de agenciar afetos em tempos de intoxicação. Opto, assim, por dividir essa exposição em dois momentos que se conectam a fim de traçar, brevemente, uma genealogia um tanto geral do que estamos experimentando no campo político e os contundentes ataques à arte e à educação, bem como produzir uma necessária dobra que nos leve à essa maquinação do “fim do mundo”.
Primeiro momento:
Eu não poderia iniciar minha fala, sem oferecer uma breve contextualização da atual conjuntura política brasileira e tudo que esta representa à educação e ao ensino, à pesquisa e os processos culturais (incluindo aí, as práticas curatoriais, os experimentos estéticos etc.). Existe um projeto em andamento no Brasil que visa o desmonte da educação e a demonização pensamento crítico. Aparentemente, tal propósito é o coração do atual poder executivo, escolhido por 57 milhões de brasileiros. Diante disso, o que nos resta para conjurar o fim do mundo?
Nesse cenário macropolítico torna-se relevante, para a presente exposição questionar; como ficam as práticas curatoriais, de ensino, de pesquisa e de produção artística? Qual é o lugar da diferença meio a intensas disputas irrompidas com os ataques à educação?Normalmente me perguntam coisas como: para que serve a arte, a educação e a política? Minha contribuição para esse painel, mais do que responder essas perguntas, talvez seja a de fazer novos questionamentos. Comecemos com uma pequena viagem no tempo.
Ainda no início dessa década, final de 2011 e início de 2012, tivemos um grande debate no cenário cultural do Rio de Janeiro, referente à censura, por parte de um centro cultural, à exposição da fotógrafa estadunidense Nan Goldin. Esses debates, de certo modo, estiveram no epicentro de algo ainda embrionário na política e nas estruturas do ensino, de modo geral, que já tinham como norte processos singulares de fissuras nas parcas conquistas no campo social emgênero, sexualidade, raça e educação. Na década anterior, o Brasil havia experimentado algumas tentativas de diluição das assimetrias sociais, especialmente no acesso ao ensino superior e ao serviço publico por pessoas pobres, negras, indígenas e, mais tarde, por travestis e transexuais. A partir da lei de cotas, implementada no governo do ex-presidente Lula, vivenciamos pela primeira vez em nossa história uma tentativa radical, e talvez utópica, de equidade. Entretanto, num país como o nosso, cujo passado colonial, escravagista e ditatorial ainda assombra, romper com certas estruturas hegemônicas de poder custaria caro.
Mas qual a relação entre a exposição de Nan Goldin e o início da década? Goldin trazia à tona a imagem daquilo que é abjeto ao mundo: pessoas trans, homossexuais, prostitutas, o sexo sujo, as drogas... Por dar destaque àquilo que o mundo “rejeita”, o avesso do humano, aquilo que não deveria existir, interditar a mostra era o mais óbvio dos caminhos. Sob a égide de discursos moralizantes, ocorreu a censura ao que já era “censurado” (embora, pouco mais tarde, a mostra tenha se concretizado no MAM sob alguns protocolos). É nesse momento que importantes debates e disputas no campo político também se intensificam: o casamento civil igualitário, o uso do nome social por pessoas trans, o atendimento médico às pessoas trans, a adoção de crianças por pessoas LGBT, a capilarização mais intensa da lei de cotas, o debate sobre o racismo, a intensificação das epistemologias raciais etc., ou seja, o início da década marca o ápice da reação àquilo que era abjeto ao mundo e que, de algum modo, vinha ganhando espaço. É verdade que esse espaço, em grande medida, foi garantido pelo viés da judicialização. Um ano mais tarde, em 2013, o país inteiro foi tomado por grandes manifestações populares, focadas no agravo da crise econômica, que vinha assolando o mundo financeirizado desde fins da década anterior, e somado aos inúmeros escândalos de corrupção, consolidando em definitivo uma onda conservadora, poderíamos dizer, ligados à extrema direita. Surfam nessa onda o surgimento de inúmeros grupos online, ditos “extrapartidários”, alinhados à manutenção do status quo via ideologias extremamente liberais. É importante ressaltar que esse movimento não é exclusivo no Brasil. Ao contrário, é um sintoma mundial das desterritorializações provocadas pelo próprio neoliberalismo.
Na América Latina, contudo, os contornos dessa crise ético-política tomam proporções específicas dada a vulnerabilidade dos próprios sistemas democráticos regionais. No caso do Brasil, tivemos intensivos ataques a setores históricos que promoviam ou lutavam por políticas mais progressistas, apenas para citar um exemplo; tivemos a eleição, em 2013, de um pastor ultraconservador para presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal de Deputados. Desta maneira, irradia-se no país intensa demonização às políticas de raça, de gênero e sexualidade e, também, a intensificação reativa às políticas territoriais (para além das históricas lutas contra os latifundiários). No fundo, o que ocorre é a implementação de políticas higienistas, sobretudo nos territórios de favela, com respaldo nas lógicas dos grandes eventos internacionais que o país abrigou. A partir de 2016, com o golpe sofrido pela ex-presidenta Dilma, abriu-se definitivamente a passagem para uma política econômica austera. Se iniciam aí grandes cortes nos investimentos em saúde, educação, infraestrutura e cultura. Para se ter uma ideia, a Proposta de Ementa à Constituição 241, aprovada em dezembro de 2016, congela durante duas décadas investimentos nos principais setores públicos. O que se esconde por trás dessa política econômica, a meu ver, é justamente a possibilidade de que o governo aplique o mínimo possível em tais setores para, assim, facilitar sua privatização. Aproximando estes serviços ao modelo estadunidense, numa lógica drasticamente monetária. Sob justificativa de controle de gasto, o governo facilita o lobby da privatização e, assim, constrói um país ainda mais desigual. Logo, trata-se de uma medida intencional de precarização do serviço público acoplada à estratégias de higienização social e da ideologia neoliberal: sintoma de uma política perversa e colonial.
Em meio a esse turbilhão, esse tsunami ultraliberal, conversador, branco, cisheterocêntrico, ideologicamente alimentado pela lógica do status quo, pipoca censura e interdições, das mais diversas, à arte, à educação, à pesquisa e à cultura em geral. É sintomático, em 2017, a detenção do artista Maikon Kempinski (na Capital Federal) durante a exibição de uma performance e a interdição à exposição Queer Museu. O que há por trás dessas interdições, para além do que já foi dito, e por que justamente essas exposições? Em síntese, poderíamos creditar tais processos ao que setores mais conservadores da sociedade, normalmente alinhados aos ideais da bancada evangélica, vem chamando de “ideologia de gênero”. Em linhas gerais, eu definiria “ideologia de gênero”, como um diagrama de poder, ou seja, como um conjunto de estratégias articuladas que agenciam discursos, práticas semióticas e estéticas e políticas numa dada conjuntura de poder. Essa dada conjuntura é localizada, ela tem um polo de irradiação, um campo de ação e um objetivo: minar políticas públicas que promovam a inclusão e a humanização de mulheres cis e trans, gays e lésbicas no campo das disputadas institucionais de poder, ao mesmo tempo em que buscam promover a amputação dos direitos já conquistados e a demonização das reivindicações desses grupos. Essa tripla articulação, vai impingindo nos corpos e nas subjetividades das pessoas que de algum modo não se enquadram em modelos pré-fabricados de inteligibilidade, ou seja, da “coerência” entre sexo, gênero, desejo e submissão, modos singulares de adoecimento e sensação de não pertencimento ao mundo.
Está dada, então, a razão sine qua non aos ataques à arte e à educação em geral. Enquanto proposta macropolítica, ou seja, uma proposta de âmbito institucional mais amplo, tendo como norte a manutenção de um Estado que vigia e controla os corpos, os desejos e as sexualidades, a ideologia de gênero é um dos muitos dispositivos que se acoplam para fundar, ou melhor, fixar as políticas que vem sacudindo a década que se encerra e anunciando aquilo que está por vir: um modelo onde, pelo menos no Brasil, a “robotização” dos processos produza drásticas rupturas com as conquistas pelos quais vínhamos disputando desde o processo de redemocratização no país. Em suma, o que eles querem é suspender o céu do mundo.
Segundo momento:
Vivemos num mundo inventado pelo colonizador europeu. Em outras palavras, é como dizer que somos o simulacro daquilo que se projetou a partir de seus próprios interesses. Se somos a parte que não é parte desse processo de apropriação compulsória, que façamos, pelo menos em nossos processos curatoriais, o mecanismo disparador dessa rebelião contra as forças reativas do mundo.
A partir da invasão do colonizador, instalou-se uma das mais profundas e cruéis lógicas de dominação: a lógica humanística, com toda arrogância de sua razão, instaurou suas leis, inventou corpos, interditou as sexualidades divergentes, destituiu culturas, se apropriou de terras. Foi além, criou o humano e o não humano, onde, evidentemente, os negros e os indígenas seriam as cópias “mal-feitas”* desse humano, ou seja, aquilo que ontologicamente é uma indefinição a partir de uma definição irreal que foi projetada sobre seus corpos-mercadorias. Hoje, cinco séculos mais tarde, somos o resultado de um projeto de aniquilação, de expropriação e de interdição compulsória multidimensional.
Juntos, os povos indígenas e os povos pretos acumulam a incalculável dimensão da dor jamais experimentada na Terra: o maior genocídio registrado. Nossa terra foi banhada com o sangue de milhões. O sangue de nossos antepassados serviu para alimentar a ambição daqueles que a todo custo buscam dominar muito mais que nossos corpos. Mas em que medida isso se encaixa com o tema desse encontro? Porque, sobremaneira, o que estamos experimentando nessa atual conjuntura, é sintoma de um mundo no qual a alteridade foi constituída como inimiga (Mbembe, 2018). Como o monstro a ser combatido, como um animal a ser domesticado. Em larga medida, como muito bem aponta Achille Mbembe (2014), nas Américas as prisões se tornaram rapidamente os navios negreiros. Talvez seja por isso que falar em termos de “ideologia de gênero”, de censura às manifestações artísticas e de cortes de verba à educação e cultura indiquem uma retomada de uma ordem mundial que busca, antes de mais nada, devolver ao seu lugar histórico todos aqueles que ousaram a sair do limbo em que foram arremessados.
Precisamos conjurar o fim do mundo coletivamente. O fim de um mundo que nos foi dado como condição de mercadoria ou de usos “subalternizantes”. De um mundo onde aqueles que se conclamaram humanos, subjugaram aqueles que foram compulsoriamente conclamados selvagens. Se somos selvagens, que evoquemos a barbárie de pensar, de escrever, de produzir... de fazer aquilo que só eles achavam que podiam fazer. É no esteio da arte que as críticas éticas a este mundo e a reivindicação de um mundo porvir ganham força, forma, expressão e conteúdo. Não sejamos ingênuos, entretanto, de acreditar que esse mundo pelo qual lutamos para construir seja o mundo metafísico da perfeição. Que seja, antes de mais nada, um mundo possível para essa diferença que não é apenas a minha diferença em relação a você, mas as nossas próprias diferenças em pulsão, horas fazendo comunhão-com-coletividade, horas produzindo te(n)são.
Tentar brecar a arte - como vimos também na peça O evangelho segundo Jesus, Rainha do céu por um juiz minutos antes de sua estreia (onde a atriz que interpretava Jesus era uma travesti) - expõe algumas partes das entranhas desse projeto de poder que vem contribuindo significativamente com as estatísticas que envergonham ainda mais a política nacional: o Brasil ocupa o quinto lugar de um ranking entre os países onde mais se matam mulheres (cisgênero) no mundo. O Brasil é o país onde mais se matam mulheres trans no mundo. O Brasil é país onde mais se matam homossexuais no mundo. O Brasil é um dos países com maior incidência de estupros corretivos às lésbicas no mundo. O Brasil é o país onde os negros representam 71% dos homicídios. O Brasil é um país onde dois terços população carcerária é negra. Não é mera coincidência.
Tudo isso diz respeito às dinâmicas de uma grande máquina colonial e necropolítica que, entre outras coisas, busca deixar claro quais são os corpos legítimos, quais são os corpos descartáveis e matáveis. Logo, não é à toa que, em sua grande maioria, as obras que sofreram censura são justamente àquelas que têm como tema o gênero, a sexualidade e a raça. Portanto, se vivemos entre os escombros de um mundo fragmentado, que conjuremos seu fim. Que sejamos seu assombro porque só assim, talvez, possamos deixar finalmente todo o céu do mundo desabar. A grande política vai insistir com os cortes de 30% nas verbas em educação, mas nós – como os anjos do apocalipse – nos juntaremos nas trincheiras para reinventar uma educação que transborde o modelo que nos exclui (seja nos espaços ditos mais legítimos ou não). Eles vão insistir na falácia de que é preciso optar pela educação básica em detrimento da educação universitária, pois os cortes rasgam a educação por todos os lados, mas nós – os selvagens-canibais – devoraremos o que nos restar porque, como diz Conceição Evaristo, nós combinamos de não morrer. Querem brecar a arte que eles não consideram arte, porque durante muito tempo a arte serviu exclusivamente àqueles que nos inventaram. Querem acabar com a pesquisa, porque nós – os que fazemos “balbúrdia” – descobrimos que é através da pesquisa que podemos revelar as entranhas desse projeto que nos aprisionou em caixas e categorias monstruosas por pelo menos cinco séculos.
Proclamemos então a necessidade de viver uma vida anti-humanista, só queremos a vida selvagem. Conjuremos então o fim do mundo pois sabemos muito bem que
Se a humanidade inteira se delega ao mundo e dele recebe confirmação do seu próprio ser, assim como da sua fragilidade, então a diferença entre o mundo dos humanos e mundo dos não humanos deixa de ser de ordem externa. Opondo-se ao mundo dos não humanos, a humanidade se opõe a si mesma. Pois, afinal, é na relação que mantemos com o conjunto do vivente que se manifesta, em última instância, a verdade daquilo que somos (MBEMBE, 2018, pp. 310 -311).
De modo que, é anunciando o fim do mundo, a partir dos cacos que nos restam, a partir do céu que insiste em desabar mesmo diante de tanta reatividade contrária, que podemos vislumbrar o céu para além das nuvens. A arte está aqui, corpos diversos estão aqui, raças diversas estão aqui... essa é uma luta que vale a pena lutar! Portanto, ao invés de perguntar para que serve a educação, a arte e a política, eu devolvo: a quem serve a educação? a quem serve a arte? a quem serve a política? Podemos ir ainda além, e questionar: qual é a dimensão irredutível da arte? Ou, em que aspectos a educação torna-se incapturável? Ou ainda, em que medida a política constrói efetivamente um sistema democrático?
* Propositalmente colocada com hífen para designar ao mesmo tempo a locução adjetiva “mal feita” e o substantivo “malfeito”. Opto pelo hífen como um jogo entre as duas articulações, onde a primeira significa aquilo “sem qualidade”, “sem excelência” e a segunda com significado daquilo que é “desonesto”, “corrupto”.
Referências
Evaristo, Conceição. Olhos d`água. Rio de Janeiro: Editora Pallas, 2018.
Krenak, Ailton. Palestra no Colóquio Internacional Os mil nomes de Gaia, 2014.
Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=k7C4G1jVBMs.
Mbembe, Achille. Crítica da razão negra. São Paulo: n-1 edições, 2018.
________. Sair da Grande noite: ensaios sobre a África descolonizada. Luanda: Edições
Pedago, 2014.
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