A DECLARAÇÃO DE UMA MORTE ANUNCIADA
A DECLARAÇÃO DE UMA MORTE ANUNCIADA
Começo de antemão me desculpando com todos aqueles que depositaram suas esperanças em mim, mas esta é a declaração de minha morte.
Eu me desculpo com todos que enxergaram em mim um sopro de possibilidade dentre os incontáveis dispositivos tóxicos que nos rodeiam, mas há muito tempo eu fui letalmente contaminada; a minha morte era apenas uma questão de tempo.
Falando sobre o tempo, há tempos eu venho respirando por aparelhos e ninguém sequer notou. Talvez porque eu tivesse sempre parecido uma leoa faminta na selva lutando por um pouco de comida.
Mas no fundo eu estava apenas desesperada tentando me salvar... eu nunca fui capaz. Eu nunca quis ser uma heroína, a minha micropolítica consistia unicamente no fato de que eu queria respirar só por um dia a mais. Comer apenas por um dia a mais. Eu só queria poder observar as estrelas por uma noite a mais rodeada pela presença da minha própria solidão. Entretanto, isso se foi. Eu tive que aceitar esperar por minha morte apenas tendo como presença dois opostos: a fome de viver e solidão que me acariciava.
Eu sufoquei tentando respirar. O ar já não atravessa mais as minhas cavidades nasais. A minha laringe e minha traqueia secaram, os pulmões esvaziaram... foi assim que meu coração parou de bater. Foi assim que meu sangue deixou de irrigar meu cérebro e este sucumbiu a falta de oxigênio. A minha morte cerebral foi decretada.
Basicamente, a minha morte – e a morte de milhares de outras pessoas como eu – já havia sido decretada há muito tempo, antes mesmo de eu nascer. Ela havia sido decretada no lombo dos meus ancestrais negros, favelados. Talvez, todos nós já tivéssemos nascido mortos e nós não conseguimos perceber a tempo de evitar que morrêssemos novamente nos becos das favelas, no exíguo espaço das masmorras que eram os navios negreiros... A minha morte é também a morte de milhares e a morte de milhares é parte da minha aniquilação.
A declaração de minha morte foi dada com um disparo letal no rosto de Carol. Seu corpo de quinze anos de idade estendido no chão esteve ainda mais disponível aos olhares curiosos dos transeuntes. Alguns olhavam com pena e misericórdia, alguns outros com crueldade, risos e escárnio. Era apenas um corpo desconhecido cujo sangue ainda quente irrigava o asfalto. A terra foi a única testemunha, uma testemunha silenciosa que recebia o sangue e como sangue se saciava. O corpo estendido naquele chão não pertencia apenas a Carol: era meu e de dezenas de outras. A última pá de cal foi lançada durante o funeral como indigente daquela travesti-criança. Eu tinha treze anos quando eu morri junto com a partida de Carol... mesmo na morte eu ainda posso ouvir seu sorriso... Eu consigo ainda ouvir sua voz me contando seus sonhos: nós seremos mulheres lindas e poderosas, você duvida, mona? Não, minha Carol-estrela, eu jamais poderia duvidar de você, menina! Mesmo no leito de minha morte, eu jamais poderia deixar de acreditar em você... Eu segui ferida durante muito tempo sentido no peito um aperto, um incomodo profundo toda vez que eu insistentemente me postava de pé na porta do meu barraco para te esperar. A minha saudade me fazia acreditar que um dia você ia voltar, você me prometeu lembra? Duas noites antes de você morrer, você me disse que sempre ia passar pra me ver antes de ir pra pista, lembra? Eu te esperei por muito tempo, angustiada, incrédula que a pessoa mais forte que conheci poderia um dia sucumbir a morte... você agora vive em minha memória enquanto eu sigo vivendo na sua morte.
Eu fiz tudo que você disse para eu fazer, eu fiz tudo o que você me ensinou, Carol. Eu continuei gritando com o mundo e com as mariconas para viver. Eu sempre fui aquela menina rebelde que você disse para eu ser. Contudo, meus sonhos aos poucos foram se esvaindo quando dia após dia eu tive que abandonar seus ensinamentos para existir nesse mundo; eu morri envenenada pelo mundo logo depois... eu jamais deveria ter deixado de lado tudo que você me ensinou; havia um tipo singular de vida ali, uma vida sem precedentes dentre os fragmentos de afetos que construímos através das ruínas do mundo. Eu confesso: eu fiz isso porque chegou um ponto em que sentia raiva! Senti muita raiva quando você deixou de aparecer! No fundo, eu só queria ter partido de mãos dadas com você, minha irmã-celestial. Por que você me deixou esperando de pé na porta? Você vai mesmo me forçar voar para além das nuvens que cobrem o céu do mundo para ver se é possível te encontrar entre as mais brilhantes estrelas no além-céu? Foi essa a morte que o mundo me causou: me tornou cega e fria e tudo que eu queria era apenas sentir o calor do seu abraço... eu sinto sua falta! O tiro que arrancou o calor da sua vida, atravessou meu coração e o dilacerou para eternidade.
Eu nasci morta, mas só pude notar aos cinco anos. Foi durante um verão escaldante no Rio de Janeiro. Nós estávamos tomando banho de borracha no quintal e comendo mangas quando obstinadamente eu perguntei a minha mãe a razão do pipi das minhas irmãs ser diferente do meu. Direta e sem pausa, ela disse “porque você é um menino”. Eu fiquei confusa, não sabia bem o que aquilo significava de fato, mas parecia ser algo radicalmente oposto ao modo como eu me percebia e me movia no mundo. A partir daquele dia eu passei noites e mais noites acordada “fitando” o teto da sala, lugar onde eu dormia, tentando decifrar aquele enunciado. Busquei respostas com vovó, com a tia da capelinha e nem mesmo no meu primeiro livro, que eu ganhei aos quatro anos - e que contava a história de um pombinho que queria voar livremente, mas não podia porque as asinhas machucadas o impediam - eu fui capaz de encontrar a resposta.
Eu já morri muitas vezes e isso me faz acreditar que, a despeito do ditado popular, um gato não pode ter apenas sete vidas. Certa vez, numa noite serenamente solitária e quente em Manaus, eu me perguntei quantas mortes cabem numa vida. Que vida ou quantas vidas nós realmente vivemos para além das mortes? Que tipo de vida persiste a morte? É que a minha morte havia sido anunciada aos sete anos de idade quando eu senti o dedo de um homem invadir meu reto enquanto que, com a outra mão, ele tapava a minha boca e silenciava meu ímpeto de gritar. O silenciamento me matou da mesma forma que a moral havia me sentenciado a morte muito antes. Causa mortis: “estupro de vulnerável”, estava escrito no certificado de óbito que repousa sobre meu corpo. Meu corpo é o grande livro de onde as declarações de minha morte são anunciadas.
Alguns anos mais tarde, eu seria decretada morta mais uma vez por outro estupro. Mas sobre esse eu sequer consigo ainda racionalizar, verbalizar propriamente porque as ressonâncias são muito densas e produzem ainda muita dor. Dor que se materializa na minha alma. A certidão de óbito foi gravada à sangue pelas minhas pernas; eu consigo enxergar claramente as letras que o sangue quente marcou em seu percurso: morreu quem não deveria ter vivido. Eu tinha dez anos de idade, mas eu já tinha sido morta milhões de vezes.
Todo meu corpo se tornou um imenso registro fúnebre. Um livro fúnebre do qual não consigo me livrar. A declaração de minha morte foi anunciada a cada vez que um amigo ou parente repousava em “sono eterno”; alguns por causas naturais outros, no entanto, por causa humana.
Estamira disse a minha depressão é imensa, a minha depressão não tem cura, foi então que eu descobri que estava de joelhos ante à crueldade do mundo. Eu não tinha nada, apenas a voz de Estamira ecoando na minha mente: você é como eu... a sua depressão não tem cura. Estamira me fez entender que é necessário nomear as linhas de forças que nos atravessam para que possamos tentar vislumbrar, mesmo que efemeramente, processos singulares de (re)existência ao adoecimento compulsório... mas ela me fez descobrir isso enquanto eu estava em meio ao nada enfraquecendo, enquanto eu sucumbia ao mundo. Sangrando sozinha no grande vazio da escuridão que o mundo inventou.
Com um pouquinho de atenção anacrônica, você encontra as orientações de Estamira também em Deleuze e Guattari, em um livro muito bonito chamado O que é a filosofia? Eles assumem que constituir conceitos é um mergulho constante na imanência. Portanto, "o pensamento consiste em estender um plano de imanência que absorve a terra (ou melhor, "a absorve”). Não é exatamente o pensamento (em sua pura forma esquizofrênica) um dos processos de maior singularidade em Estamira?
Estamira cria conceitos como uma árvore cria frutos. Por meio deles, ela desenvolve uma trama conceitual pulsante que busca dar conta dos processos macropolíticos que a contornam, tanto em termos geofísicos (Estamira é uma catadora de lixo trabalhando no extinto lixão de Jardim Gramacho), quanto em termos (est)ético-históricos que fazem parte do seu corpo. Ela usa isso como autocuidado. Ela expande sua imaginação para reexistir. Ao fazer isso, ela torce a dor e cria um amanhã.
Essas dimensões macropolíticas não se dissociam dos "operativos" micropolíticos que explodem em gesto-ação - ou, se preferir, gestação - de vida. Constituir para si uma trama conceitual para “dar língua”, ou seja, criar sua própria linguagem de modo a elucidar as linhas de forças que perpassam seu modo de ser e existir é definitivamente revolucionário. Nomear o que te adoece é uma micropolítica pulsante da vida que faz com que a própria vida de Estamira reexista os inúmeros processos de morte que circunscrevem, assombram sua trajetória.
Deveríamos todos e todas Ser-Estamira, mas o trocadilho nos fez ignorá-la como pessoa humana e, assim, inúmeros enunciados começam a orbitar tal imagem-corpa negra no lixão. A declaração da morte de Estamira é a declaração da morte de toda a periferia global. Por que somos todos "Charlie"? Poderíamos ter sido favela? Quais são os limites do Ser?
Na minha vida, e na declaração da minha morte, o trocadilho é o que chamo de Cistema, que nada mais é do que um regime de governamentabilidade dos corpos e subjetividades. Uma máquina para fazer e deixar viver alguns (cisgêneros brancos) e fazer e deixar morrer os “Outros” (não brancos, não cis). É também uma máquina coletiva de adoecimento: quando não mata, adoece literalmente.
Uma das engrenagens dessa máquina funciona de maneira particularmente perversa na universidade; a produção do status quo é uma produção de trauma para aqueles considerados “objetos”. A minha morte foi decretada por professores que se recusaram a reconhecer o humano-em-mim. Meu túmulo foi escavado através de um abaixo-assinado que procurava me impedir de usar o banheiro feminino.
Mas o que acontece na universidade é a reprodução do que acontece na escola. É a reprodução do que acontece na sociedade. É a reprodução do que acontece no cistema de leis. É a reprodução do que acontece no cistema de instituições. É a reprodução do que acontece nos cistemas epistemológicos. A reprodução é a síntese da mimese, uma engrenagem metafísica, que constitui o repertório do necroma.
A declaração de minha morte foi dada quando fui literalmente arremessada em latas de lixo.
Foi decretada na vala em frente à escola.
Foi decretada pelas agressões físicas.
Foi decretada pelas cusparadas.
Foi decretada pelas “piadinhas” cotidianas.
Foi decretada no uso forçado de roupas que não simbolizavam o gênero ao qual eu sentia pertencer.
Foi decretada pela violência institucional e estrutural que os diversos agentes me designaram.
A declaração da minha morte foi dada quando eu percebi que minha infância havia sido usurpada de mim, tomada por assalto tal qual minha adolescência.
A minha morte foi atestada na dobra da exclusão que afetava meu corpo na favela. Quando não morri com uma surra de um transfóbico, fiquei doente e angustiada na grande UTI que é "nossa" sociedade. Pensei durante muito tempo que brigar era um processo natural da minha natureza, a ponto de não perceber que toda discussão era um perverso efeito colateral de uma sociedade que me desprezava.
"Especialistas" atestaram a falha múltipla dos meus órgãos, ou melhor, foram os especialistas que levaram meus órgãos à falha com laudos, alegações, afirmações e projeções de verdade sobre minha existência. Foi assim que internalizei um processo de culpa em meu corpo-subjetividade; me culpava por coisas que nem sabia o porquê. A culpa e o peso de caminhar entre os humanos era o grande fardo que alimentava meu espírito.
Como as brigas eram diárias, passei a acreditar que a culpa era minha justamente porque me atrevia a frequentar o mundo. Certa vez, enquanto catava latas (eu fui catadora durante um tempo de minha adolescência), um casal me insultou, zombou de mim, diziam que eu era uma " bicha maldita". Eu tinha uns 15 anos e minha reação foi gritar com eles, eu precisava reagir! Fui cuspida e esbofeteada, mas lá no fundo da minha (ir)racionalidade eu me sentia culpada por existir à luz do dia. Então decidi sair para catar latas e papelão apenas à noite. Me tornei um bicho noturno.
Contudo, a culpa era tão intensa que eu imaginava que existir como eu deveria era pesado demais e resolvi “destransicionar”, resolvi cobrir os pequenos mamilos que cresciam (tão lindos!) com uma faixa. Cortei meus cabelos. Eles eram encaracolados. Tinham um volume tão lindo. As pontas eram secas e a raiz tinha um brilho. Eu amava o meu cabelo longo e encaracolado, mas eu só queria me esconder, respirar, eu estava sufocando, morrendo ali tentando viver! Não adiantou, eu era feminina demais para aquele que diziam ser de menino. O peso do mundo nunca saiu de mim. Eu tentei me matar várias vezes, falhei.
Mas eu continuava sendo morta. A declaração da minha morte ia sendo marcada no meu próprio corpo com saliva dos outros, ardia com golpes e os fluxos do meu próprio sangue na minha pele. A declaração da minha morte foi sacramentada pelo acordo silencioso daqueles que assistiram a minha morte sem nenhuma reação. Eu morri inúmeras vezes, e adoeci todos as outras.
Recuso-me a me medicar porque não posso tratar com dor o que já é doloroso em sua origem. Eu tive minha vida tirada de mim o tempo todo e talvez seja mais significativo reconhecer os processos de morte, resistir substancialmente ao zombinismo que se instalou em todo o planeta desde o período das referidas Grandes Navegações. Tal força necropolítica, que depende substancialmente do necroma que ela produz, tem assumido proporções inimagináveis e aniquilou o globo de maneira drasticamente objetiva. Ela brutalmente se materializa na forma dos mais variados homicídios; nos tornamos todos prisioneiros, aparentemente libertos, nas engrenagens dessa máquina. A morte passou a ser o ar que nos rodeia e do qual dependemos para viver.
Nossos modos de existir são cistematicamente monitorados, docilizados, rejeitados, julgados, aniquilados... a partir de uma conjuntura tão vasta de máquinas produzindo modos de subjetivação quase como a velocidade da luz. Somos dados quantificáveis, nos tornamos peças algorítmicas; é o que chamei - talvez ingenuamente - de bioma ou supermáquina. Todo bioma comporta um necroma e vice-versa.
No bioma, existem inúmeros "sub-biomas", uma estrutura existencial complexa que opera muito além das noções binárias de bom e ruim. Noções metafísicas que simplesmente cravaram em nós, em todo e qualquer modelo subjetivo, uma ideologia cristã perpetrada no arquétipo do "homem-de-bem". A declaração da minha morte foi muitas vezes abençoada pelo olhar de abjeção do "homem-de-bem" cujo centro gravitacional é a ideia falida de "família tradicional".
Máquina na máquina, produzindo máquina. Existem máquinas em operação, mesmo nos guetos, que se acoplam a outras e, assim, produzem (des)potência na mesma medida que produzem precariedade de vida. O bioma não se cansa e nunca deixa de produzir vida na morte e morte na vida, a ponto de a vida se fundir, de mergulhar na morte. O contrário também ocorre. De modo que seus limites não são mais distinguíveis, existem muitos mortos-vivos, os zumbis assumiram tudo; bionecroma.
Há, talvez, um "limiar", um lugar sem lugar: o corpo. É através do corpo que podemos identificar os sintomas e os fluxos dessas fronteiras, o dentro e o fora em pulsão. O corpo dá sinais, somatiza, fica cansado... depois de muita luta, é o corpo que não aguenta mais. O corpo desejaria então a paz?
Mas a paz, ela mesma, é uma construção social e, portanto, só pode operar a partir de velhos paradigmas estabelecidos pela máquina capital; a máquina social mor. A economia desta máquina é a “agência” daqueles a quem ela administra os limites ou mesmo elimina. Assim, consigo identificar duas nuances muito distintas do conceito de paz.
A primeira nuance seria aquela cujos processos estariam inscritos em um modo de operação bastante peculiar à maquinaria social estabelecida pelo capitalismo em sua variação rizomática. Desse modo, a paz carrega em si uma estrutura única que excluiria automaticamente modos de existencialização que não passam pela “peneira” da inteligibilidade de raça-gênero-classe: a tríade necropolítica em voga desde o século XVI e constantemente atualizada. É a partir desses agenciamentos que a cisgeneridade foi instituída como um regime de governamentalidade. Governa literalmente nossas subjetividades e nossos corpos, produzindo as mais variadas fraturas biopolíticas.
O soberano nesse regime é o gênero, mas só pode ser soberano dado o agenciamento racial. Portanto, se não for possível alinhar a dobra desses dois dispositivos, a cisgeneridade passa rapidamente por um corte. Torna-se fraturada, e aqui estou me referindo literalmente à fratura da cisgeneridade "impressa" em mulheres negras, em pessoas autóctones, em “bichas” efeminadas etc. Nesses termos, o regime de governamentalidade continua a exercer influência sobre os corpos, mas não é "lido" nesses corpos com a mesma força motora presente nos corpos cis brancos heterocentrados. Essa “engrenagem” torna-se soberana, na medida em que ela mesma volta-se à orbitação no fluxo racial – o que seria um paradoxo a princípio -, ambos os fluxos tem seu epicentro na máquina capital.
Há um terceiro dispositivo que, em operação desde o século XVIII, começa a exercer um valor gravitacional nesse regime: o aparato de classe. É que o Iluminismo e, depois já no século XIX, a “Revolução” Industrial criaram novos instrumentos (científicos, técnicos e sociais) que foram adicionados ao agenciamento de inteligibilidade no regime de governamentabilidade. A utópica paz fica ainda mais distante, dada essa nova dobra introduzida pelo fator de classe. Os corpos agora também são gerenciados a partir de máquinas técnicas-racionalizadas, juntamente com as inúmeras máquinas sociais existentes. Os desdobramentos dessa “revolução” produziram novas formas de precariedade a partir de outros paradigmas de subjetivação. Para os corpos periféricos, esse regime foi implacável. A lógica desse processo passa, em primeiro lugar, pela hegemonia.
Como vimos, a hegemonia é sempre cis-centrada. A hegemonia cis-centrada estabelece uma singularidade soberana (hetero-cis-sexualidade), uma singularidade estética (cis-branquidade) e uma singularidade política (classe e acesso a mecanismos sócio-institucionais de poder amplamente ocupados por pessoas cis). A partir disso, há outras dobras (religião, domínio de códigos culturais etc.) que não discutirei aqui.
A segunda nuance, por mais paradoxal que seja, é a morte física literal. Embora a morte física literal, nesse regime de governamentabilidade, passe principalmente pela necropolítica epidêmica, sobretudo nos países da América Latina e da África, ela carrega em si uma dimensão dupla.
Por um lado, pode efetivamente significar o que chamamos de paz, pois chega a um certo ponto que o "sono eterno" é a única saída para a "cura" da dor e do trauma que nos assolam (mesmo a morte sendo um processo muitas vezes traumático); dado os incontáveis suicídios de pessoas trans e negras. Por outro lado, é a própria materialização desse cistema perverso e intransponível, e por esse motivo a paz se torna uma ficção acessível apenas a certos corpos e subjetividades conformes ao regime.
No entanto, quando o corpo é docilizado, o encarceramento compulsório não é percebido. É "natural" porque é uma codificação "biológica" sine qua non, esta é a máquina de inteligibilidade que tem sido acoplada a inúmeras outras máquinas. Nesses termos, a paz é uma ficção metafísica. O reflexo de um “fundo” de verdade que existiria a priori.
Minha conclusão momentânea sobre tudo isso é que a heterocisgeneridade produz um diagrama de forças cujo regime socializa (socius) o mundo a partir da dinâmica do status quo, hierarquização e codificação a partir de moldes idealizados em profundas racionalidades de dominação, expropriação e obliteração do corpo-excesso.
Em uma conversa rápida com uma amiga psicóloga, aprendi que a depressão é um processo; um processo singular de entristecimento causado por uma angústia latente, disse ela. Minha pergunta era se a depressão poderia se tornar crônica, mas cheguei à conclusão de que é precisamente a sociedade que a cronifica, porque não pode haver cura quando tudo ao nosso redor é potencialmente tóxico e doentio. No Brasil, a paz não é negra, nem trans, nem pobre, nem periférica.
A declaração da minha morte foi dada pelas engrenagens capitalísticas.
A declaração da minha morte foi dada pela cis-sociedade.
A declaração da minha morte foi dada pelo cistema de classes.
A declaração da minha morte foi dada pela igreja.
A declaração da minha morte foi dada pela escola.
A declaração da minha morte foi dada pelos médicos.
A declaração da minha morte foi dada pela polícia.
A declaração da minha morte foi dada pela universidade.
A declaração da minha morte foi dada pela favela.
A declaração da minha morte foi dada pela família.
A declaração da minha morte foi dada pelos relacionamentos...
Minha posição aqui pode parecer uma "reclamação", um “vitimismo” exagerado, mas não é. É um grito pelo reconhecimento da própria morte como aquilo que pode fazer a vida “renascer”. Talvez seja morrendo que nós encontramos vida. Seria preciso que aprendêssemos a extrair vida da morte e não morte da vida. Talvez... eu não sei... eu realmente não sei... No entanto, tudo neste mundo tem mostrado que sim.
Concluo com Estamira: "a morte é maravilhosa, a morte é dona de tudo! A MORTE É DONA DE TUDO! Deus... que fez Deus foi os homens". Atualmente, o messianismo é o simulacro do capital e ainda não há vacina para ele. Nós agonizamos no princípio mais básico: amar ao próximo... eles simplesmente “esqueceram” de informar quem é esse "próximo".
Não depositem grandes expectativas em mim. No fundo, eu sempre quis ser apenas uma garota qualquer, mas falhei cistematicamente. Tudo o que eu desejei foi uma paz que nunca existiu. Ainda não morro fisicamente, mas eu fui brutalmente, ferida, despedaçada, assassinada há muito tempo...
Não existo para esta sociedade que sempre me fez invisível. Eu nego a sociedade, na mesma medida em que ela substancialmente me negou.
Eu desisti de muitos dos meus sonhos, pois sonhei com coisas que eu sabia que nunca poderia ter.
Vivo agora nas sombras, invisível (graças ao privilégio de minha passabilidade), porque é somente na escuridão que podemos mergulhar profundamente na (i)lucidez. Mas isso nunca vai significar paz.
Lá onde a terra repousa sobre o meu cadáver, a vida brotou na forma de uma flor. Meu cadáver se juntou à terra e a decomposição do meu corpo deu vida ao solo, serviu de adubo às plantas que cresciam com uma parte de mim. Eu me juntei à terra e através dela comecei a viver, e cada célula minha passou a ser o alimento de inúmeras larvas, insetos e microrganismos... O ar, que outrora entrava pelos meus pulmões e oxigenava meu corpo, é agora apenas uma lembrança da brisa que acariciou meu rosto em meu leito de morte. Meu túmulo é feito de memórias... memórias de uma vida não vivida.
Esta é a declaração de uma morte anunciada.
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