A andarilha
Texto originalmente publicado no meu perfil do facebook em 12 de dezembro de 2019, na ocasião de minha conferência no Parlamento Europeu sobre o impacto do acordo EU-MERCOSUL nas políticas de direitos humanos, clima e biodiversidade.
A andarilha
Há cerca de três décadas atrás, no alto do morro do Turano, na zona norte do Rio de Janeiro, um corpo de bebê gordo, tirado à fórceps, negro, mas não tão negro, um corpo de bebê destinado a perder a infância, nascia. Esse nascimento, pouco tempo depois do fim da ditadura militar brasileira, num período de redemocratização no Brasil (se é que faz sentido essa fantasia) certamente não representava nada. É só mais um nascimento de criança preta e favelada. É só mais um nascimento do excremento social que as elites dominantes insistem em inventar, representa a praga que se espalha pelo mundo, a erva daninha que insiste em crescer no quintal colonial da terra brasilis. É aquele excesso destinado à eliminação, à amputação, sem futuro a não ser a própria condição natural de ser o lixo do mundo. Um corpo que estava destinado a existir nas fronteiras: nem totalmente negra, nem totalmente indígena, nem totalmente cidadã, nem totalmente mulher, nem totalmente professora, nem totalmente universitária, nem totalmente sujeito... só esqueceram de dizer é que das fronteiras de onde se tem a melhor visão das fissuras, das brechas por onde passar intensidades e fraturar.
Aos quatros de idade, essa coisa, que simula a forma humana, passa a questionar seu próprio corpo-dejeto e passa a desejar conhecer o mundo. Ela aprende a ler aos quatro anos de idade, pois queria entender, entender não... queria conhecer prematuramente os motivos pelos quais seu corpo-resto produzia tanto incômodo. Ela queria conhecer como voar. As memórias que tenho desse período era de uma criança extremamente efeminada, a qual todos insistiam chamar de menino. Angustiada, queria entender seu lugar no mundo e desejando construir meios de voar. Uma criança que foi forçada a crescer antes das demais, num ambiente com constante incursões policiais, racismo estrutural, e transfobia-misoginia contra aquilo que marcava um desvio profundo da norma. Depois de uma violência sexual, aos sete anos, seu processo de adoecimento se intensificou. Aos dez, depois de um perverso, sangrento e aniquilante segundo estupro, como se o primeiro já não fosse o suficiente, aquela criança menino-menina começou a andar.
Andava porque ainda não sabia verbalizar as minhas dores e traumas. Andava porque queria encontrar uma alternativa de vida. Andava porque desejava insistentemente a morte e repetidas vezes ela desviava de mim. Nas andanças, eu encontrei com a morte inúmeras vezes, mas ela nunca me quis. Sempre soube que não era a hora, mas por que é a morte quem tem que decidir a hora? Descobri anos mais tarde com Estamira: "a morte é dona de tudo!". Andar era o que me salvava, andar era o que despertava o desejo de continuar andando. Certo dia, andei do Rio Comprido à Copacabana e de Copabacana ao Rio Comprido, sempre olhando pro chão, buscando algo que não sabia bem o que era, mas que só poderia encontrar com as andaças. Tinha me tornado uma andarilha. Uma andarilha que só olhava pro alto quando ouvia o barulho de um avião passando. Foi durante esses pequenos agenciamentos terra-céu que descobri que queria de fato voar.
Aos 12 anos tentei construir um avião de madeira, tipo um carrinho de rolimã com asas, e levei para o alto do Sumaré para tentar a decolagem na medida em que o carrinho-avião corria. É assim que os aviões voam, eles correm e voam, pensei depois de ver inúmeras vezes na TV. A engenhoca não deu certo, ela se partiu ao meio antes mesmo de decolar. Eu precisava descobrir o que havia feito de errado, onde estava o erro. Ele corre e voa, é simplesmente isso, mas por que não deu certo? Em busca da resposta, continuei andando. Passei a frequentar o Aeroporto Santos Dumont em longas caminhadas em que conciliava a “catança” de latinhas com o descobrimento do mundo. Do meu mundo! Sentava diante de uma janela imensa no saguão principal do antigo Santos Dumont para observar os aviões. Me deliciava vendo as decolagens, as aterrisagens... que gente tola, por que eles querem aterrisar o avião? Pensava ingenuamente. E andava... andava... andava... Andei muito, por diferentes lugares. Lugares onde apanhei, lugares onde fui assediada, lugares de onde fui expulsa, lugares onde não era desejada... Andei para morrer, enquanto andava para viver. Tinha me tornado numa andarilha. Uma andarilha sem nome próprio. Nessas andanças eu tive muitos nomes; viadinho, travequinho, bichinha, marginal, praga, boiola, traveco, aidético, fudida, merda, merdinha...
Mas eu insistia em andar. Andei para a escola. Andei da escola para o cinema. Andei do cinema para o aeroporto... Teve um dia, durante minhas andanças e catanças que eu vi um avião e fiz uma promessa, quando eu fizer dezoito anos eu vou voar. Eu tinha 14 anos. O meu sonho se realizou exatamente 4 anos depois. Na verdade, eu o realizei. Tão logo completei 18 anos, abri uma conta no banco e, não sei como, consegui um cartão de crédito. A primeira compra do meu cartão de crédito foi uma passagem aérea. Do Rio de Janeiro para São Paulo. Eu nunca consegui pagar aquele cartão e meu nome foi pro SPC, mas eu voei. Voei e queria continuar voando. Voar era como uma extensão das minhas andanças. Era o modo que podia chegar mais longe, era a forma que podia me levar mais longe num tipo de busca que eu nunca entendi bem do que se tratava, mas eu só desejava continuar andando... eu só queria continuar voando.
O desejo pela andança me levou à universidade, me levou a outras cidades, me levou a outros países e hoje me traz a uma importante missão no Parlamento Europeu para trazer uma mensagem do lixo do mundo. Um ponto nevrálgico para uma andarilha: descobrir a razão, o porquê de tanta andança. A razão? Passar mensagens. Nunca na minha vida de andarilha imaginei chegar tão longe para finalmente descobrir o porquê eu andei, ando, e continuarei andando-voando. Eu ando porque só me resta a andança, eu ando para entregar mensagens, eu ando para viver. Que bom que nessas andanças, que começaram solitárias, pude ir colhendo flores que toparam andar junto comigo!
Eu tenho nome e sobrenome: Mariah Rafaela Silva e não estou só: estou como povo preto, com o povo indígena, com o povo LGBTQI+, com o povo quilombola, com o povo das favelas... estou com o "lixo do mundo" porque esse é o meu lugar e, assim, com nossas dores, cacos e alegrias, seguimos andando, voando juntos!

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