O colapso do "Eu"
Estamos atravessando talvez um dos momentos mais significativos da história recente, algo que certamente ficará registrado nos livros e que vai ser um dos principais pontos de inflexão crítica do século XXI. A crise que se instala não é apenas econômica, mas uma tripla crise constituída, a meu ver, por três eixos que se complementam: financeiro, institucional e subjetivo.
O Coronavírus, e por conseguinte a Covid-19, é uma realidade multidimensional, e não apenas porque literalmente tem matado milhares de pessoas ao redor do mundo, mas porque tem colocado em xeque as capacidades dos governos de administrar justamente aquilo que é mais sensível; a coletividade em detrimento do “Eu”. Proponho um ponto de partida analítico, um axioma:
O “Eu” entrou em colapso justamente porque as incessantes dobras da financeirização do mundo, implodiu a UTI de um projeto de coletividade, na medida em que o Sars-Cov-2 (Coronavírus) tem colocado a urgente necessidade do coletivo.
De modo a construir esta cartografia analítica, devemos retornar não apenas aos últimos dias de 2019 (quando os primeiros casos de Coronavírus foram notificados na China), mas necessariamente aos fins da primeira metade da segunda década do século XXI, quando começa a ocorrer uma espécie de “contraofensiva” da extrema direita, e seu projeto ultra neoliberal, ao redor do planeta.
O individualismo e a retórica da propriedade privada são alguns dos componentes ideológicos das mais variadas formas de direita. Além disso, a acirrada aposta numa agenda drasticamente conservadora anda de braços dados com um projeto perversamente étnico/racial que vem ganhando força nos mais variados panoramas políticos de leste a oeste do planeta. Cabe ressaltar que o compromisso com o neoliberalismo, em sua faceta mais “selvagem” (para não esgotar meramente o termo “fascista”), é a espinha dorsal dos governos de extrema direita. Importante destacar também a “cafetinagem” sistêmica que neoliberalismo produz nas mais variadas instituições governamentais, e nos mais diversos aparatos comunicacionais efetivando, deste modo, uma mutação na forma do Estado. Com a financeirização ao infinito do capitalismo, parafraseando Gilles Deleuze e Félix Guattari (apud Lazzarato, 2017, p. 147), “os Estados não se anulam, mas mudam de forma e ganham um novo sentido: modelo de realização de uma axiomática que os ultrapassa”. Além disso, entra em cena uma profunda dinâmica de manutenção e controle dos fluxos semióticos e isso permite, em outros termos, acesso ilimitado à política de subjetivação em seu vetor mais perigoso, aquele que justamente operacionaliza os códigos e os agenciamentos da política neoliberal mais ortodoxa.
Pipocam pelo planeta o modelo de “auto” gestão do indivíduo, os “empresários de si”, os empreendedores e articulares da “auto” economia, na mesma medida em que os governos transferem a responsabilidade de geração de renda e emprego para as perversas políticas que precarizam a vida humana em detrimento da própria liquidez dos fluxos de mercado. A “uberização”, a “gourmetização” do hambúrguer da esquina, por exemplo, não escapam a estratégia do projeto neoliberal e estão necessariamente acompanhadas do desmonte das leis trabalhistas, das políticas de privatização em massa, das reformas e dos mais absurdos danos ambientais e ecológicos ao redor do globo terrestre. Para que esse modelo produza efeito, é preciso acionar as mais diversas máquinas que já estão a priori comprometidas pelos agenciamentos e os códigos semióticos que as constituem. É por isso que projeto do neoliberalismo radical depositou todas as suas fichas no projeto contraofensivo promovido extrema direita.
No entanto, esse projeto acaba sendo “vítima” das próprias desterritorializações do capitalismo, na medida em que ele não é capaz de controlar completamente os fluxos de desterritorialização. É justamente aí onde as crises criam seu solo. Ou seja, a crise – essa coisa que volta e meia ouvimos nos noticiários -, “não é apenas econômica, social e política, mas também é, e acima de tudo, uma crise do modelo subjetivo neoliberal, encarnado pelo ‘capital humano’” (Lazzarato, 2017, p. 14) que passa, grosso modo, a simular o modus operandi do capital humano oligárquico dos grandes centros de gravidade. Nesse nível, os mercados buscam “mediar” as relações entre capital e governo através de variadas práticas de juros, impostos, fluxos de rentabilidade etc., assim, continua Lazzarato (2017: 14) “as situações dos países ricos e a dos países emergentes, em vez de divergir (estagnação e declínio dos primeiros e crescimento e progresso dos segundos), convergem na produção do mesmo modelo de subjetividade – o ‘capital humano’, que implica um máximo de ‘privatização econômica’ e um ‘máximo de individualização subjetiva'".
Além disso, a crise – do ponto de vista financeiro - é também agenciada por três diferentes aparelhos de captura, a dizer; renda, imposto e lucro (Lazzarato, 2017). De modo geral, “a crise não reside na incapacidade de os Estados reembolsarem as dívidas que eles acumularam para salvar a finança, diz Maurizio Lazzarato (2017: 35), ou seja, produzir liquidez internacional, mas, continua o autor, “ela consiste mais fundamentalmente no bloqueio da valorização capitalista e no fracasso da acumulação obtida pelos créditos (a crise dos subprimes)”. A concentração de grandes volumes de capital em paraísos fiscais funciona como uma espécie de motor ou alavanca que dinamiza as crises (lembrando que ainda estou tratando do ponto de vista financeiro), e desses modos as desterritorializações são inevitáveis.
Os mercados financeiros não estão preparados para gerir crises (financeiras ou não), e justamente por isso elas são cíclicas. Cabe a eles a gestão única da blindagem dos fluxos econômicos que o estruturam. Isso quer dizer que a gestão dos mercados busca exclusivamente “proteger” os grandes operadores dos fluxos líquidos de capital em detrimento do capital humano. Em outras palavras, a “ordem” – que é uma ordem abstrata, lembrem do que ensina Estamira –, novamente, é liquidez, liquidez, liquidez... Contudo, não pensem que essa liquidez é necessariamente "capilar" (do ponto de vista da distribuição de renda) pois é uma liquidez do mercado, para impedir que as grandes economias colapsem, mesmo quando “a riqueza acumulada não encontra mais onde e nem como se valorizar” (Lazzarato, 2017, p. 36). Nesse sentido, podemos falar em liquidez financeira, liquidez subjetiva, liquidez de mercado, mas, acima de tudo, liquidez de controle e vigilância. É justamente por isso que a gestão dos fluxos de capital é uma gestão fundamentalmente necropolítica das relações sociais e de consumo.
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Hoje, dia 17 de março de 2020, pela manhã estive na favela da Maré. Embora notasse uma redução na quantidade de pessoas que circulavam, observei que as pessoas continuavam em sua rotina de trabalho. Umas carregavam materiais de construção, outros com suas barracas de legumes... enfim, essas pessoas que já têm seu direito de ir e vir sistematicamente violado pelas forças de segurança pública, tentavam minimante viver uma normalidade a apesar do aparente pânico instaurado pelo Coronavírus. Saí da Maré e precisei ir ao centro do Rio, onde - daí sim - observei uma mudança drástica da rotina. As ruas não estavam vazias, é verdade, mas era sensível a redução do fluxo de pessoas, a liberação do trânsito sempre caótico e de diversas lojas fechadas. A Defensoria Publica estava atendendo apenas os casos mais urgentes (como o meu), mas as faxineiras negras continuavam limpando. Aliás, hoje o centro do Rio de Janeiro estava mais negro do que nunca. Ambulantes, engraxates, auxiliares de serviços gerais, garis... em sua maioria negros, pessoas que não têm a opção de se isolar. Pessoas que não podem simplesmente optar por parar de trabalhar pois não teriam condições de continuar arcando com as dívidas e com a redução de pagamento por seus empregadores. Nesse sentido, o coronavírus é uma espécie de divisor de águas definitivo entre aquilo que vem se tratando romanticamente como “privilégios” e aquilo que se percebe como a urgente gestão da necessidade de trabalhar para comer e existir. Até aqui, ele revela aquilo que por ventura ainda (sarcasmo) estava oculto: o racismo e o classismo.
Me impressiona acompanhar as postagens de alguns amigos e amigas, nas redes sociais, sobre o atual cenário que vem se desenhando - mesmo que o horizonte venha se construindo há cerca de pelo menos 6 anos - sem se darem conta da perversidade da máquina social financeirizada, uma vez que essa mesma máquina opera a partir de tudo aquilo que eles próprios vêm criticando; as políticas do (cliché) privilégio (porque em momentos como esse, percebemos que ninguém está disposto a abrir mão dos seus). Alguns caem feio na grande armadilha dessa máquina, revelando no fundo o limiar ético-cognitivo que separa o mundo: a raça. Para quem nunca teve o controle estrutural sobre seus corpos, não é difícil vociferar contra aqueles que persistem em viver um pouco de “normalidade” meio ao caos generalizado. Isso coloca em xeque o discurso em prol da coletividade, uma vez que a “lógica” do “Eu” aparentemente foi sendo introjetada e gerida no inconsciente coletivo social dos “privilegiados” há pelos menos cinco séculos.
Resta questionar, por outro lado, o pânico moral que vem sendo produzindo, – inclusive por setores da esquerda (a branca, classe média pseudo engajada socialmente). Esse moralismo com ares de falso intelectualismo é tão nocivo quanto o vírus e a crise (institucional e econômica) decorrente dele. É nesse sentido que a lógica da branquidade me incomoda profundamente. O pânico moral que vem sendo produzido é desprezível e não contribui em nada para a coletividade, a não ser meramente à satisfação de um individualismo mascarado de uma pseudo “intelectualidade coletiva”. Essa história do negacionismo ao isolamento voluntário é tão perversa, racista e classista que fere de morte famílias inteiras que podem literalmente falir, dadas as especificidades dos grupos igualmente vulnerabilizados pela complexa crise (institucional, econômica e subjetiva) que este vírus vem apresentando, a dizer; pobres, negros, favelados, profissionais do sexo e moradores de rua.
Trata-se de pessoas que NÃO tem opção ao isolamento, seja por questões habitacionais, seja por questões financeiras, seja por questões estruturais. Os governos precisam dar conta dessas assimetrias e cabe à classe média ululante o dever ético de zelar não apenas por si e pelos seus (idosos e vulneráveis que podem acessar planos de saúde e isolamento), mas de fato operar pela coletividade.
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A recomendação de médicos, técnicos e especialistas em saúde para lavar as mãos soa perfeitamente compreensível para os setores historicamente oriundos de uma elite escravocrata da sociedade, profundamente comprometidos com o "Eu". Entretanto, ela não significa nada para as comunidades mais empobrecidas, escravizadas, exploradas e subalternizadas onde sequer as pessoas têm fornecimento de água. Embora seja importante, frise-se, é preciso que os governos assumam a responsabilidade pelo cuidado coletivo levando em conta as topografias da desigualdade e, de igual modo, trabalhem em vulnerabilidades específicas, buscando estratégias para cada região, tomando a responsabilidade pelas desigualdades estruturais que eles mesmos produziram (e efetuam a manutenção) por séculos, em especial territórios de favelas e comunidades de periferia. Não cabe aos governos transferir a responsabilidade pela crise pandêmica justamente aquelas pessoas que historicamente foram condicionadas à margem da dignidade cidadã. Essa crise vem colocando em evidência a incapacidade dos Estados efetivamente governa para a coletividade. É imoral, portanto, que branquidade - no apogeu da sua síndrome do "Eu" - vocifere por isolamento social quando justamente não fazem a sua parte no mínimo; tomar a consciência ética de liberar suas empregadas domésticas mesmo quando testaram positivo para a Covid-19.
É verdade que a taxa de mortalidade do vírus Sars-Cov-2 não é tão alta, mas é verdade também as vítimas letais desse vírus foram contaminadas há cinco séculos atrás. A crise cambial entre China e Estados Unidos, a queda de braços entre Rússia e Arábia Saudita sobre uma das principais commodities do globo (fonte de energia fóssil), contribuindo para o desmoronamento de bolsas ao redor do planeta, as inegociáveis operações policiais em territórios de favelas, os inúmeros “acidentes” ambientais provocados por grandes corporações, o desmatamento da Amazônia, a aniquilação dos povos tradicionais etc., revelam um o casamento do neoliberalismo radical com um projeto necropolítico denso que cotidianamente produz milhares de mortes ao redor do planeta. Uma coisa não substituiu a outra, sejamos honestos, mas não neguemos que o esse vírus apresenta é uma crise que vem colapsando o “Eu” justamente ao revelar sua face oculta e demandar por aquilo que as elites mais abominam: a produção de coletividade.
Na seara dessa guerra semiótica, uma série de técnicas de controle vem sendo testada em velocidade exponencial e volumes de concentração urbana jamais imaginado. O isolamento social, imediatamente fez com que grandes corporações profundamente comprometidas com um “novo” tipo de capitalismo, o de vigilância, “liberassem” entretenimento para milhões de pessoas. Sem avisa-las, contudo, que seus dados de comportamento estão sendo coletas e processados em tempo recorde. As fronteiras dos países começam a se fechar, sobretudo na Europa, limitando o fluxo migratório a fim de controlar a epidemia e “proteger” os mais vulneráveis, mesmo que uma série de dispositivos científicos sejam colocados à prova para buscar sinais de doença nos transeuntes num alucinante e inédito neolombrosionismo. O aprimoramento desse aparato técnico-científico, podem anotar, dentro de pouco tempo será utilizado como álibi para efetivar a manutenção e gestão de técnicas racistas de eliminação do outro em nome da segurança e da soberania nacional, por zelo e proteção incondicional daqueles que historicamente foram protegidos pelos movimentos de força da Máquina Social Histórica.
O coronavírus preocupa sim, e realmente devemos buscar uma gestão coletiva do cuidado sem isentar os Estados e o Mercado da sua responsabilidade, mas ele talvez preocupe muito mais os privilegiados justamente por colocar em crise a política da coletividade em detrimento da política molar do “Eu”, só não contavam que o "Eu" fosse colapsar. Enquanto isso, setores da classe média entoam o couro pelo isolamento social como forma de reduzir a curva de contaminação, mas “esquecem” as favelas, quilombos, comunidades indígenas e periferias. Em nome do bem-estar psicológico, decorrente do processo de isolamento, recorrem às mais variadas formas de produção de não adoecimento por vias artísticas e culturais sem necessariamente abrir mão do consumismo, mesmo que para isso comprem quilos de sal, esgotem prateleiras de mercado, adquiram quilômetros de papel higiênico e equipam suas casas com volumes descomunais de álcool em gel. Mas aqueles que mal podem comer, que não podem ficar em casa para cuidar dos seus idosos e doentes crônicos pois estarão cuidando dos vulnerais dos outros ou que não tenham escolha a não ser dividir cômodos de 10 metros com 7 ou 8 pessoas, são os que representam o grande problema, afinal o negacionismo do isolamento voluntário é um egoísmo e completa falta de responsabilidade social.
Enquanto isto, o pretencioso projeto de salvação do país agoniza, junto à imagem (há muito escatológica) daquele ser execrável que ocupa a presidência da república, revelando para quem ainda tinha dúvidas o fiasco no qual seus eleitores nos colocaram e o colapso do "Eu" como política de Estado.
Uma tragédia que já se anunciava em seu estágio embrionário. A gigantesca crise, que por hora nos assusta e busca nos isolar, é também uma crise do "Eu".
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