Lá fora, a borboleta amarela voava

sonho

Havia somente um silêncio. Um profundo silêncio naquela manhã de início de abril, no iniciozinho do outono.
Algo não programado. Uma rotina fraturada por um vírus que, sem avisar de sua chegada, fez o mundo se recolher.
Normalmente haveria barulho de carros, ônibus e caminhões que faziam a rua chacoalhar. Haveria sirenes e buzinas de onde não se percebia a origem. Antes ouvia-se apenas os ruídos assustadores de uma cidade que impunha a todos nós a ortodoxa rotina da produção: de doenças, de miséria e diferença.

Naquela manhã de início de abril, eu me sentei junto à janela para observar a vizinhança, enquanto bebericava goles de café. "O que estariam fazendo em seus apartamentos?", pensei. Vi um homem com um computador no colo na varanda de prédio vizinho. Vi também uma moça, dois apartamentos acima do homem, mexendo no celular. Aparentemente entediada, eles não se davam conta que era possível ouvir o canto dos pássaros que persistiam em existir nas árvores ao redor. Como era reconfortante ouvi-los, como não fui capaz de notar isso antes?

Foi assim que eu fui inundada por uma avalanche de sentimentos. E comecei a sentir saudade da infância dolorida no morro do Turano. Apesar de tudo, ouvíamos os pássaros e brincávamos nas árvores. Como nós perdemos a capacidade de observar o mundo "minúsculo" ao nosso redor? Em que momento exatamente começamos a "ver" o mundo mediados por uma tela de celular? Quando foi que deixamos de fazer parte dessa natureza que insiste em mostrar o belo, quando só enxergamos as contas e boletos que nos fazem querer retomar uma rotina envenenadoramente sufocante?

Especialistas dizem que o vírus pode nos fazer sufocar, mas não estávamos todos sufocando antes mesmo dele chegar? Não fomos nós que impusemos ao planeta e toda sua biodiversidade que respirassem por aparelhos?

Através da minha janela, eu podia ver algo singelo, mas profundamente confortante; as folhas das árvores dançavam, quase que saltitantes, com a brisa de um ar menos poluído. Suspirei profundamente, enquanto ia sendo invadida de uma alegria singular, mas algo parecia diferente, e foi assim que me dei conta de uma coisa que nunca me ocorreu. É que nossos corpos não estavam preparados para perceber o ar menos poluído. Nossos ouvidos não estavam preparados para lidar com o silêncio interrompido apenas pelo cantarolar das aves que aos poucos iam repovoando as árvores ao redor. Nossos olhos não estavam configurados para notar nada além que as telas dos celulares e computadores. Nosso psicológico - que insistem os especialistas que provavelmente pode vir à colapso tal qual a economia - não estava programado para processar um "novo" e formidável jeito de nos reconectarmos com o tempo. De ver e perceber na pele o quanto o tempo pode passar vagarosamente e o quanto esse "caminhar temporal" é profundamente belo e vitalmente necessário não apenas para nós, mas para o planeta.

Eu li, há alguns dias atrás, que a poluição que nós produzimos estava sendo drasticamente reduzida e que os oceanos e mares estavam se restabelecendo. A mesma matéria falava que a camada de ozônio, que protege o planeta e tudo que nele há  (inclusive a vida humana), estava se recompondo. Alguns amigos postaram fotos, em suas redes sociais, de animais que caminhavam ainda timidamente por cidades e, uma praia em algum lugar do mundo que voltou a receber centenas de tartarugas para ali depositarem seus ovos depois de décadas.

Tudo isso vinha à mente de maneira visceral e, era absorvido pelos meus olhos enquanto penetravam na minha pele e me fazia, por um breve instante de "pausa de mim" regozijar por fazer parte deste mundo negado... observar o mundo ao nosso redor pode nos fazer perceber que somos sua parte orgânica, mas letal.

Tantos tons diferentes de verde no horizonte de minha janela. Tantos tons de azul, branco e variações de cinza nas nuvens do céu. Era possível sentir a direção da brisa que afagava tanto as árvores quando meu corpo. Era algo rotineiramente incomum para quem vive numa grande metrópole. Lá fora, meio ao silêncio interrompido apenas pelo cantarolar sincronizado dos pássaros, uma borboleta amarela voava. Parecia um balé cujo ritmo era harmonizado pelo som da brisa atrás das folhas e galhos das árvores, e o coral de pássaros.

Ah, como era bela aquela borboleta que voava livremente, como se dançasse anunciando a própria esperança. Naquele início de outono, em meio a uma quarentena global, uma borboleta amarela dançava como que se anunciasse a início de um processo de renovação. A renovação dos modos de viver e cuidar do mundo. Lá fora, a borboleta amarela voava, simbolizando que a metamorfose para um novo mundo é possível, mesmo que seja dolorosa.

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