Hiato... ou sobre um lugar sem lugar.
Já tinha algum tempo que eu queria escrever sobre isso, mas não encontrava um meio minimamente são — psicologicamente são — de organizar meus pensamentos e, consequentemente, a escrita. A razão disso? Raiva. E um pouco de tristeza.
Também já fazia algum tempo, na verdade, que eu não vinha aqui. Esse hiato tem várias razões, mas a principal é que estive tão imersa no trabalho — ou no desespero de encontrar alguma estabilidade profissional — que meu foco e minhas energias se voltaram completamente para isso.
Ainda não consegui a sonhada estabilidade profissional. Acho que esse, ontem, hoje e sempre, tem sido um dos meus maiores desafios. Não é fácil vencer a transfobia inconsciente presente nas práticas intersubjetivas e, obviamente, nas práticas corporativas e institucionais. Mas esse é assunto para outro momento.
Esse hiato, porém, também existiu por outra razão: uma busca inconsciente de mim mesma. Digo inconsciente porque eu não sabia exatamente o que se passava. Só descobri que estava procurando algo quando me dei conta de uma angústia presente e persistente. Uma angústia causada pela sensação de que algo faltava.
Mas, na realidade imediata, muita coisa faltava: estabilidade, companheirismo, paixão. Ainda assim, não era exatamente isso. Era eu. O que faltava era eu.
Eu estava numa busca inconsciente por mim mesma.
Em algum momento, lembrei da música do Cartola:
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar, rir para não chorar [...]
Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Depois que me encontrar.
Aparentemente, eu me encontrei.
Eu sei quem eu sou. Não que antes eu não soubesse. Mas agora é uma sensação diferente. Antes, eu tinha consciência de um pertencimento a mim mesma, a um corpo, a uma identidade. Agora, de outro modo, eu reconheço as pequenas nuances, os detalhes, as frestas, aquilo que antes talvez estivesse ali, mas ainda não tinha nome.
O hiato era uma busca inconsciente de mim. Um desejo não mais apenas de pertencer ou de ser, mas de descobrir o novo da subjetividade. Os detalhes de um acorde musical. Uma música diferente da minha playlist usual. Aromas e sabores jamais provados. Destinos inexplorados, ou sequer cogitados. O que me irrita. O que, ao contrário, provoca em mim um sorriso despretensioso.
Talvez o nome dessa descoberta seja maturidade.
Os anos se passaram e ela chegou trazendo um tipo de angústia distinta: menos ruidosa, mas profundamente subjetiva; íntima, visceral.
Essa redescoberta de mim trouxe uma nova questão: será que estou pronta, finalmente, para um novo — e, desta vez, mais tranquilo — relacionamento? Essa mudança me coloca num lugar de maturidade emocional a ponto de querer construir algo com um homem? Esse novo subjetivo me coloca também na busca por um amor verdadeiro?
A resposta mais óbvia é que não tenho como saber se não me colocar à prova, se não me arriscar, se não me permitir conhecer uma pessoa nova.
Levei anos para me recuperar do meu divórcio. Achei que seria menos difícil. Achei que deixaria menos marcas. Tentei, inclusive, me envolver com outras pessoas, mas ainda estava emocionalmente instável. Confiei em quem jamais deveria ter confiado. Permiti-me viver riscos que talvez não precisasse ter vivido.
Então entrei em um hiato afetivo, provocado em parte pelas minhas inseguranças e, por outro lado, por um desejo feroz de me proteger e viver.
A maturidade também é isso: um desejo desenfreado por vida, por uma ética da vida que transborda em si mesma. A vida como razão dela própria.
Descobri, assim, que a busca por mim não terminava em mim. No momento em que encontrei uma nova velha Mariah, percebi que, além da estabilidade profissional, eu também desejava, insidiosamente, um novo amor.
É preciso arriscar.
Desde então, tenho me permitido conhecer novos homens, mas com uma postura distinta, mais sólida. Eu sei o que quero. Eu sei o que gosto. Eu sei o que busco. Mas as minhas certezas esbarram nos homens. Mais especificamente, na objetificação deles, no modus operandi do machismo.
Senti raiva quando, após dias conversando com um cara, ele me pediu meu Instagram e, depois de ver uma foto minha de biquíni, perguntou se eu era operada. Ao ouvir a resposta afirmativa, devolveu com a mais baixa verborragia: “você está tirando com a minha cara?”. Ficou irritado ao descobrir que eu tinha uma vagina e decaiu me insultar porque achou que eu o enganei. Bloqueei pela misoginia. Bloqueei porque eu não poderia oferecer o que ele queria: um pênis.
Senti raiva quando, depois de conhecer outro cara e dizer que tinha uma vagina, ouvi: “você é linda, nem parece trans, seria bom para sair, mas você nunca será uma mulher”.
Senti raiva quando passei o fim de ano com um cara super legal, “super cabeça aberta”, mas, na hora H, ele disse que o sexo tinha sido bom, embora ele gostaria mesmo de ser penetrado.
Senti raiva quando, depois de conhecer mais um homem, a conversa chegou ao mesmo ponto e ele me disse: “não faz sentido você ter feito essa cirurgia. Você é capaz de sentir prazer? É estranho cogitar. Na minha cabeça isso não tem lógica”. Depois desapareceu. Ressurgiu dias depois com um “eu não quis ser rude, mas acho que estou procurando outra coisa”. E, semanas depois, comentou em uma foto minha no Instagram: “meu sonho”. Bloqueei. Era demais ter que lidar com qualquer nível de ambivalência, crueldade ou com um sujeito que sequer parecia conhecer a própria sexualidade.
Outras experiências similares aconteceram. Já haviam acontecido antes, é verdade. Não foi a primeira vez. Mas a Mariah de antes não possuía as ferramentas cognitivas, emocionais e subjetivas para lidar com isso. Para lidar com esse hiato existencial que insistiam em me empurrar.
Na prática, o que esses homens estavam fazendo era reafirmar um lugar de inexistência compulsoriamente imposto a mim. Para eles, como para o restante da sociedade, por mais que eu “parecesse” uma mulher, eu jamais seria uma. Não sou nem trans o suficiente, por não ter um pênis, nem mulher o suficiente, por não ter nascido com uma vagina. Não sou sujeito, nem predicado. Estou num intermezzo entre a coisa e o objeto, num lugar que somente o escrutínio da transfobia e da misoginia poderia construir.
Talvez seja isso o intermezzo: não uma pausa neutra, mas esse intervalo vivo e violento onde aquilo que a norma chama de monstro revela, na verdade, a monstruosidade da própria norma. Um espaço multissensorial onde o desprezo se equivale à curiosidade. Onde a objetificação se reafirma como método de desumanização.
Para eles, meu corpo e minha subjetividade são um lugar sem lugar.
Esses homens sequer se permitem enxergar o que há por trás do monstro. Seria medo? Não creio. O medo não é exatamente de mim. O medo é de serem vistos pela mesma sociedade que eles próprios reafirmam.
Penso que há nisso uma ode inconsciente ao uso inadvertido dos corpos trans, ao lugar de satisfação e sexualização em que historicamente tentam nos colocar. Eu não sou o que eles querem, mas também não sou o que, em tese, a sociedade espera que eles queiram; a mulher cis que ela usam de vitrine social, mas na calada da noite, nas mais insólitas esquinas, eles deixam em casa para saciarem seu vicio no que eles mesmos insistem em descartar. Eles fazem comigo aquilo que temem que a sociedade faça com eles: julgam, reduzem, violentam, expulsam, aniquilam subjetivamente.
Esse post não é uma generalização. É uma elaboração.
Eu me encontrei. Eu sei quem sou. E sei também o que quero.
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