sexta-feira, 17 de junho de 2016

Um olhar distante me transmitiu uma mensagem...

Quem me conhece sabe que não gosto nem um pouco de espetacularizar minha intimidade, contudo estou sentindo necessidade de escrever, de desabafar em busca de elaborar melhor internamente os acontecimentos dos últimos dias. Tive uma semana muito intensa, com sentimentos muito difusos e radicalmente opostos.

Vou começar falando sobre a parte triste dessa semana e do modo pela qual ela tem me interrogado em diversos níveis. Eu fui ao Rio de Janeiro e parecia que eu REALMENTE precisava ir ao Rio nesse período. Há coisas que acontecem em nossas vidas que são simplesmente inexplicáveis. Eu não pretendia ir à casa da Nilda aquela tarde mas não pude resistir à vontade de ver minhas sobrinhas. Na noite anterior eu tinha sonhado com vovô. No sonho ele me chamava e eu insistia em ignora-lo, dizia: "estou estudando vovô, depois falo com o senhor"! Mas meu nome ecoava... Mariah... Mariah...

Meu avô Paulo, sofria de Alzheimer, uma doença degenerativa que o levou à diversas atrofias. Aos 77 anos de vida, vovô era praticamente uma "criança-idosa" que demandava de Nilda, minha mãe, um trabalho hercúleo: trocar fraldas, dar banho, alimentação, cuidados médicos... todo santo dia! Numa breve retrospectiva de minha vida, vovô sempre esteve entre as pessoas que mais me tratavam bem. Nunca tive uma relação tão próxima, mas também nunca foi distante!
Vovô era daqueles homens de jeito simples de ser. Nascido em Minas Gerais, na cidade de Leopoldina, vovô mudou-se para o Rio de Janeiro ainda na adolescência em busca de trabalho. Aliás, trabalho nunca foi o forte de vovô. Para ele o importante era a simplicidade da vida, fumar seu cigarrinho, beber sua pinga e rodar pela cidade usando usando o transporte público: vovô era o tipo flaneur! Flanava de bairro em bairro; horas estava no Rio Comprido, horas mais tarde no Engenho da Rainha. Sempre com seu jeito humilde de ser, visitava a todos nós minhas mãe, minha irmã, meus tios... Descia e subia o morro do Turano, onde vivia, diversas vezes ao dia, conhecia motoristas e trocadores do 711, eram amigos! Conversa na esquina com qualquer pessoa... um homem simples que  enxergava nas pequenas coisas da vida dispositivos de satisfação.

Pois bem, a voz de vovô ecoava na minha cabeça, mas eu insistia em ignora-la. Acordei, tomei um adorável café da manhã com Fátima Lima, onde eu estava hospedada. Fui então seguir minha rotina programada para aquela quarta-feira, 15 de junho de 2016... até que um gesto arrebatador me fez mudar de ideia e ignorar minha rotina. Eu entrava no metrô na estação Siqueira Campos quando um homem com cerca de 40 anos de idade segura meu braço e diz coisas não decifráveis para mim. De tudo que ele disse, só conseguir entender "você é linda demais". Fui tomada por uma raiva avassaladora e desferi-lhe uma bolacha na cara! Gritei-lhe: idiota! E chamei o segurança do metrô. imediatamente fui invadida por uma saudade intensa das minhas sobrinhas. Pensei: "Pra quê seguir rotina? Vou ver minhas meninas". Essas horas nas quais nos sentimos fragilizadas somente o amor e o carinho de nossos pares pode nos confortar. Segui ruma ao Engenho da Rainha! Na metade do caminho resolvi ligar para Nilda e fui informada que as meninas já tinham ido para escola. Penso: "e agora? volto?". Segui viagem, afinal já estava no meio do caminho... nesse percurso não lembrei de vovô, fiquei remoendo o ódio por aquele sujeito asqueroso que segurara meu braço minutos antes. Pensei no quanto estava cansada, no resultado da prova de mestrado para UFRJ... segui viagem em meio aos pensamentos que surgiam, em meio às elucubrações do cotidiano...

Finalmente cheguei à casa de Nilda e ao entrar fui direto ao quarto, onde ela tentava inutilmente alimentar meu vovô. Cumprimentei e olhei para vovô e imediatamente disse: "vovô está morrendo! Esse olhar é um olhar de despedida, você está partindo e está partindo essa tarde, chamem o médico!" O que eu disse, deixou ela e minha irmã ainda mais nervosas, a resposta foi: "eu já chamei a clínica da família, não vai morrer não só está doentinho, tadinho". Eu insisti e fui buscar algo de comer. Internamente eu já havia sido alertada pela partida. Meus sentidos todos confluíam para algo que eu não sabia exatamente o que era, só podia sentir um misto de paz e tristeza... ali ambivalentes naquele cosmos energético! O olhar de vovô me disse tudo... me preocupei por Nilda... não queria que ela sofresse!

"Mariah..." Gritou minha mãe, "corre aqui, ela está indo... eu não quero ver". Eu entro no quarto e ela sai, tudo foi muito rápido a partir de então... eu ainda não sou capaz de processar o que aconteceu. Eu fico sozinha no quarto com ele... Vovô tenta balbuciar alguma coisa em vão. Na sequência dos acontecimentos, entra minha irmã que falava com o corpo de bombeiros que me orienta a fazer massagem cardíaca nele, deito ele no chão empurro o peso do meu corpo sobre seu tórax, sinto os ossos, em toda a fragilidade daquele corpo esquelético, quebrarem, grito que estou machucando ele... vovô me olha... o olhar distante... um olhar sereno... de agradecimento... seguro em sua mão... uma lágrima escorre dos olhos dele... percebo que já não há mais nada a fazer! Só consigo pensar numa música: "segura na mão de Deus, segura na mão Deus... pois ela... ela te sustentará... não temas segue adiante e não olhe para trás... segura na mão de Deus e vai..."! Tudo que vem à minha mente é isso, eu canto segurando em sua mão e sinto, através do seu olhar, que ali jazia somente seu corpo! Senti leves brisas ao meu redor... recito um mantra budista e fecho seu olhos. Levanto e vou à cozinha ao encontro de Nilda e digo: "Vovô partiu, o medo acabou"

Ela chora, eu choro, nós choramos!

Eu ainda não sou capaz de processar tudo o que ocorreu, só sei dizer que vou espiritualmente muito forte, muito intenso...

Me sinto triste, muito triste... mas paradoxalmente me sinto em paz... sinto meu corpo pedir cama, mas paradoxalmente me sinto leve. Sinto angústia, mas paradoxalmente sinto ternura... um misto de sentimentos paradoxais inunda minha essência! Eu não sei mais o que fazer... volto para o quarto e fico ao seu lado, segurando a mão já fria de vovô... e permaneço assim até que o corpo de bombeiros chega!

Foi o nosso momento...

Depois continuo escrevendo sobre o restante da semana.

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