Antropofagia Queer: imagem, (trans) gênero e poder

Eu defendi meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) - ou apenas monografia  - no finalzinho de março. Meus planos para apresentação incluía a distribuição de uma breve resenha do trabalho para as pessoas que foram lá me prestigiar. Aliás, eu gostaria de agradecer a todos! A sala ficou lotada! Só que no calor do nervosismo eu simplesmente esqueci que distribuir as resenhas que tinha produzido na noite anterior. Agora utilizo esse espaço para cumprir esse objetivo.

Essa "resenha" é apenas uma visão geral do que eu apresentei no dia ou seja, é o resumo do resumo! Se você tem interesse em ler todo o trabalho clique aqui e baixe o pdf do texto completo.  


Título da monografia: Antropofagia Queer: imagem, (trans) gênero e poder
Orientação: Cezar Bartholomeu (Profº. Dr. Escola de Belas Artes/UFRJ)
Co-orientação: Pedro Paulo Gastalho de Bicalho (Profº. Dr. Instituto de Psicologia/ UFRJ)

Banca examinadora:
Cláudia Oliveria (Profº. Dra. EBA/ UFRJ)
Fátima Lima (Profº. Dra. Programa de Pós Graduação em Lingüística Aplicada/ UFRJ)
Ivair Reinaldim (Profº Dr. EBA/UFRJ)

Ao refletir sobre duas interrogações surge a ideia para o tema deste trabalho. As perguntas de Linda Nochlin e do coletivo Guerrilla Girls - respectivamente: por que não há grandes artistas mulheres? e, as mulheres precisam estar nuas para entrar no MET (The Metropolitan Museum of Art - um dos maiores museus de Nova Iorque e do mundo)? - me fizerem refletir, dada as circunstâncias, sobre o porque de não haver "grandes" artistas trans* e o porque da imagem dessas pessoas estarem condicionadas a lógicas específicas dentro de um sistema que busca tornar inteligível corpo, gênero e sexualidade, atreladas à "lógicas" de consumo, controle e poder, ao qual eu optei por chamar neste trabalho de "cistema". Assim, os objetivos deste trabalho se concentram em construir uma historiografia da arte procurando colocar em diálogo, de modo multidisciplinar, diferentes autores e diferentes perspectivas epistemológicas, como por exemplo, o transfeminismo (enquanto prática epistêmica e social), o pensamento pós-colonial, teoria da imagem, filosofia, antropologia, psicologia etc., tendo como prerrogativa investigar imagens trans* no sistema de arte contemporâneo. 
Além disso, busco pensar as reapropriações não só do corpo (das pessoas trans por elas mesmas), mas também das imagens que negociam as transexualidades** e que de alguma forma deglutem a norma visual - hegemônica - supostamente em voga no sistema artístico. Nesse sentido, enxergo uma aproximação muito grande com os conceitos de "antropofagia" de Oswald de Andrade, de "subjetividade antropofágica" de Suely Rolnik e com a ideia de "multidão queer" de Paul Beatriz Preciado. É a partir da leitura desses autores que surge o conceito de Antropofagia queer, onde as imagens de pessoas trans* serão pensadas tendo como "solo" diferentes autores numa perspectiva cartográfica, privilegiando nessa "geopolítica das forças" saberes supostamente subalternos para questionar estruturas e/ou regimes imagéticos, sociais e culturais que não só aprisionam subjetividades, como as tornam coisas, as "coisificam".

Tomando essa perspectiva, considero que um dos primeiros momentos antropofágicos está localizado  em Duchamp e sua personagem Rrosé Sélavy. Assim, busco num primeiro momento definir o que seria antropofagia queer afirmando que  está seria uma espécie de  deglutição, das normas através dos sentidos, de construções imagéticas buscando trazer à superfície das imagens uma luta política com intuito de potencializar visualidades e uma multitude de corpos ditos minoritários. A antropofagia queer seria uma espécie de dispositivo que critica uma norma hegemônica, reelabora e propõe uma (des)construção onde os signos do "cistema" sejam tomados, reapropriados e ressignificados em busca de um sentido "valorativo" das subjetividades queer, das imagens trans*. 

A norma hegemônica é aquela onde a produção de subjetividade está condicionada a padrões de gênero e sexualidade, tornando-os produtos, interditando-os quando necessário ou quando descumprirem os requisitos para serem homens ou mulheres de "verdade", ou seja, sujeitos inteligíveis.  Durante a pesquisa, constatei que, muitas vezes, as imagens trans*  anteriores ao século XX estavam permeadas de por uma espécie de aura inumana que as sacralizava. Entravando, busca evitar historicismos ao propor que a arte é um produto de seu tempo que torna-se atemporal, logo se pessoas andróginas eram consideradas místicas, sagradas ou apotropaicas isso não pode caracterizar um ato transfóbico a despeito do entendimento contemporâneo, entende-las assim incorreria a possibilidade de um historicismo prejudicado. Com efeito, notei que o modo como lidamos com as imagens, e portanto com as pessoas trans*, foi sendo transformado ao longo do tempo, uma grande mudança ou virada ocorre ainda no início do século XX quando artistas cisgêneros passam a enxergar no corpo e na performance trans*  algo que não só questionava normas, mas que de alguma forma potencializava as multiplicidades de modos de existir. Já no final do século XX, depois do surgimentos dos movimentos feministas, das pílulas anticoncepcionais e da teoria queer, foi a vez de artistas trans* começarem a reivindicar seus corpos, a legitimação de suas vozes e sobretudo sua própria produção imagética. Um desses artistas é Del LaGrace Volcano, artista gênero fluído cujo trabalho desestabiliza o cistema, inserindo corpos "disformes" dos/das intersexuais no signo do desejo, da possibilidade e, quem diria, da "normalidade".

Reconheço entretanto que há ainda um longo caminho a ser percorrido, inclusive no interior das artes visuais. Talvez uma das maiores contribuições desses artistas tenha sido a própria diluição da dicotomia cis e trans, uma vez que uma infinidade de corpos são agenciados em imagens que questionem normas que nos aprisionam enquanto indivíduos e não importa, a nível político de visibilidade, por quem essas imagens forma produzidas. O importante é o abalo sísmico e a fissura que se causa na norma. É claro que não se pode e não se deve deslegitimar as lutas e as pautas trans* de políticas de visibilidade, públicas, etc., nem de longe o trabalho vislumbra essa possibilidade, pelo contrário. O que se afirma é que não há necessidade de por em caixa ou segregar produção "cis" ou "trans" quando as produções pictóricas tem como objetivo a luta contra  as opressões de gênero e sexualidade. O que importa é que se opere com perspectivas amplas de gênero, sendo fundamental retirar do anonimato artistas trans* de modo que elas/ eles não sejam esmagados pelo cistema. De modo que elas possam deglutir, reelaborar e, assim, ocupar os espaços institucionais de poder em pé de igualdade.

* o termo trans é utilizado como termo guarda-chuva e busca contemplar toda e qualquer expressão de gênero que não seja entendida como a hegemônica. 
** transexualidades é um termo utilizado afim de concentrar num só termo diversas expões de gênero. Reconheço que é um termo que não é capaz de dar contra de uma multidão de expressões de gênero.

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