Rio: uma cidade ambivalente!
Todos os meus amigos sabem o quanto amo e ao
mesmo tempo o quanto odeio o Rio de Janeiro. Há sentimentos que se misturam,
que se sobrepõem, que de alguma forma se implicam... o Rio é uma cidade
ambivalente!
Desde quando mudei para Manaus, volta e meia
estou num avião rumo ao Rio de Janeiro. O motivo é simples, eu sinto muita
falta do "lifestyle", dos bares, das risadas com amigos e dos
milhares e milhares de eventos que circulam pela cidade... sinto muita falta
dos contrastes e ritmos da cidade! O Rio é sem dúvidas uma cidade heterogênea,
para o bem ou para o mal! Contudo, basta eu sair do aeroporto para começar a
odiar a cidade; taxistas mal-educados e corruptos, um trânsito infernal, cheiro
desagradável (para quem pousa no Galeão e precisa atravessar a linha vermelha),
muita desigualdade... penso em nossa estrutura política, no modus
operandi de nossa sociedade que está pautado numa mentalidade
colonializada e escravocrata... basta alguns minutos para todo esse ódio
reverte-se em amor. Há uma questão histórica e social no Brasil que não podemos
simplesmente cerrar os olhos, não podemos simplesmente escamotear... levo isso
em consideração e passo a olhar a cidade com o coração mais acessível, com a
mente mais aberta! Eu amo o Rio! Assim, numa fração de segundo, com sentimentos
sobrepostos, todo meu amor e ódio pelo Rio entram em diálogo: estou em casa!
Eu acabei de chegar do Rio! Não faz nem uma
semana que cheguei e já quero voltar. Não que eu não goste de Manaus, pelo
contrário! Aplico a mesma fórmula em qualquer lugar que vou ou estou; sempre
busco extrair o melhor que aquele lugar pode oferecer, reconhecendo é claro a
complexidade de cada local, os processos históricos e sociais e, sobretudo,
econômicos. O Brasil, como dizem por aí, não é para amadores (nunca soube de
fato se há um duplo sentido nessa frase). Faço o mesmo quando estou em São Paulo,
Salvador ou Fortaleza, não importa! Eu amo meu país e não me permito à
precariedade cognitiva e tão pouco bairrista de birras infantis como fez
recentemente uma jornalistazinha de um jornaleco intitulado "Folha de São
Paulo". Me espanta que um jornal com tamanha circulação permita um texto
tão intelectualmente desonesto, precário e etnocêntrico. Na verdade, não
deveria me espantar tendo em vista o baixíssimo nível do jornalismo tupiniquim!
O Rio é capaz de provocar sentimos contrários num continuum, num
eterno devir-cidade! Da precariedade à beleza exuberante, dos sons e ritmos à
culinária e afetos... O Rio sem dúvidas é a cidade que melhor sintetiza o que é
o Brasil. Um país imenso, com culturas coexistindo (nem sempre em harmonia),
com identidades e corpos distintos, com paisagens complexas, gostos
peculiares... um país "nômade" (no sentido deleuziano) em sua própria
pluralidade! Pensar o Brasil é pensar a relação do diferente com o diferente! É
pensar as vicissitudes do sistema histórico e político, é pensar os gostos e
sabores, os climas, as praias, as montanhas, os sertões, o interior,
a Amazônia, os grandes centros e também a violência, a corrupção, a
truculência policial, as desigualdades e as assimetrias que nos rodeiam, não
importa onde estejamos!
O Rio está lindo, sempre foi! É fato que
também há muitos problemas os quais não podemos ignorar em nome de sua beleza
ou, como disse a tal jornalistazinha, em função de um "glamour de
outrora". Toda estrutura proposta pelo pensamento e práticas capitalísticas
forjaram uma cidade assimétrica, de paisagens complexas e destoantes. A
violência também tem assustado, é verdade! O fascismo tem mostrado não só suas
garras, mas vem escancarando suas entranhas com projetos de lei e práticas
políticas devastadoras! Uma coisa, no entanto, eu posso afirmar com convicção:
o Rio é, de todas as cidades brasileiras, a mais midiatizada. Eu quase nunca
assisto TV, mas toda vez que ligo para assistir algum noticiário, este sempre
gira em torno do Rio; Olimpíadas, praias, circulação de estrangeiros, eventos
internacionais, roubos e furtos, favelas, etc. Isso cria uma sensação de
amplitude dos acontecimentos. Tudo é ampliado e às vezes de forma tendenciosa,
desleal, etnocêntrica e, arriscaria dizer, que permeada por um certo
recalcamento. Minha gente, se há precariedade de fato no Brasil, esta reside na
mentalidade, no sistema político que reverbera na falta de educação, segurança
e saúde, no bairrismo infantilizado que ignora nosso próprio processo histórico
e sobretudo no combate à nossa própria pluralidade, no combate aos nossos modos
de existir tão intensos, múltiplos e ao mesmo tempo tão particulares!
O Rio de fato me (des)encanta...
Entendo, contudo, que não se trata do espaço urbano em si, mas do
processo que fez do Rio, o Rio. Que fez e faz do Brasil, o Brasil! Me alegra
caminhar pelo centro, pelas praias, pela lagoa, me alegra frequentar a Lapa,
curtir as rodas de samba em Madureira, explorar os subúrbios, adentrar a
floresta da Tijuca, me banhar nas cachoeiras, admirar as vistas... me
entristece ver jovens negros sendo exterminados, mães sem escola para seu
filhos, trens e metrôs entupidos de gente sendo trata sem qualquer dignidade, a
poluição de nossos mares e lagoas, travestis e transexuais e pessoas não binárias
sendo ridicularizadas e mortas por uma sociedade que ignora suas existências,
gays, bissexuais e lésbicas sendo espancados, me entristece ver o sucateamento
de nossos hospitais... sentimentos ambivalentes tomam conta de mim toda vez que
vejo o Rio se afastar através de uma janela de avião quando decolo do Santos
Dumont... é lindo e feliz, mas também é feio e triste!
Que esses jogos olímpicos que tanto tirou de nós
BRASILEIROS, possa minimamente trazer um pouquinho de felicidade... que
possamos sorrir em meio a tantas lágrimas. O Rio não é do carioca, é do
brasileiro!
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