sexta-feira, 4 de novembro de 2016

A esquerda tem a obrigação ética de ser reinventar!

Tenho pensado bastante nos resultados das últimas eleições no Brasil e analisado superficialmente a composição partidária dos prefeitos eleitos (ou reeleitos) nos municípios sobretudo no Rio de Janeiro. Acredito que a esquerda tem a obrigação ética de reinventar! De norte a sul do país, o levante da direita produziu resultados. Isso não significa propriamente que a direita tenha se reinventado, pelo contrário, continuou apropriada de sua velha tática somado a uma pitada de fascismo. Eu não sou cientista política, de modo que falo a partir do que eu acompanho e penso. Contudo, a situação do Rio é especialmente reveladora (embora São Paulo tenha exigido Dória) porque evidencia de algum modo uma ascensão conservadora que literalmente entregou a segunda maior cidade do país nas mãos da igreja e tudo que esse projeto de poder representa! No entanto, há uma linha de fuga: a quantidade de abstenções e é aí que a esquerda deve debruçar-se! Isso nos dá pistas de que há uma insatisfação política sobre a qual deve-se trabalhar! 

Eu estive em São Paulo nessa semana e tive o privilégio de assistir a uma das palestras de Antonio Negri com o Peter Pál Pelbart e outros nomes. Negri falava que a esquerda socialista havia chegado ao seu limite portanto que havia sido "encerrada", Peter no entanto trouxe na sua fala as manifestações de 2013 e, de certo modo, uma dimensão temporal que culmina nos processos políticos de 2016 que produziu efeitos que ainda estamos tendo que lidar sócio-politicamente. Eu dirigi uma pergunta a Negri questionando o papel da micropolítica agenciada pela macropolítica. Na minha concepção, houve por parte da esquerda um enfraquecimento dos agenciamentos micropolíticos sobretudo no que diz respeito as demandas reclamadas pelos feminismos (transfeminismo e intesserccional) para uma política dos corpos e das subjetividades. Nesse sentido, é inevitável não lembrar que o próprio PT em nome da governamentabilidade estabeleceu alianças com os setores mais reacionários da direita resultando em alianças questionáveis e levando ao poder nomes como os de Crivella e Marcos Feliciano, entre outros. A própria presidenta Dilma disse que não faria "propaganda de opção sexual" (veja aqui) quando ainda em 2011 tentava-se levar para as escolas o debate sobre a homofobia. Os setores mais conservadores da população reagiu e nomeou pejorativamente o projeto como "kit gay" e Dilma simplesmente proibiu a circulação do material. Dilma também não se pronunciou a respeito do cargo de presidente da Comissão de Direitos Humanos estar, à época, nas mãos de Marco Feliciano (veja aqui). Além disso, nomeou para o cargos de ministros nomes ligados ao que há de mais conservador e retrógrado no Brasil, num gesto claramente ruía a ideologia vigente da esquerda. E é sobre esse ponto específico que gostaria de me ater. 

Compreendo que não se faz política sem alianças, mas quais são preços dessas alianças?! Bom, acredito que o PT tenho sentido na pele os efeitos do impeachment da presidenta Dilma como resultado de alianças espúrias e questionáveis. Na verdade, toda a população, não importa se de esquerda ou direita, vem sentido os efeitos desse impeachment, não preciso nem dizer que quem sente mais esses efeitos são os pobres. O partido também teve de lidar com inúmeros escândalos de corrupção o que de certo modo facilitou o discurso "anti-PT". Sob a égide da "não corrupção", que se tornou praticamente um devir discursivo, a direita foi capinando o terreno para literalmente assassinar a democracia no país. A narrativa do impeachment foi replicada inesgotavelmente pelos meios hegemônicos de comunicação com pitadas de sensacionalismo. Em suma, estava em curso um golpe apoiado judicialmente na retórica da "não-corrução". A questão é que criminalizou-se apenas o PT e partidos como PMDB (que abraça nomes como os de Eduardo Cunha, Michel Temer e Pezão - que faliu o Rio de Janeiro), PSDB, DEM e muitos outros de algum modo foram blindados pelo judiciário. Em seguida iniciou-se uma espetacularização e/ou uma hiper midiatização do ritual judiciário. Conversas entre Lula e Dilma foram divulgadas de modo questionável e arbitrário, houve milhares de mandatos de segurança contra as ações de Dilma de nomear Lula como seu ministro, entre outras tantas coisas. Tudo isso deixa claro para mim duas coisas: a primeira, o projeto conservador e patriarcal de poder de uma direita cisheterocêntrica e branca (basta olhar para a composição do des-governo Temer) e, segundo, as costuras que formam um verdadeiro Estado de Excessão composto pelas alas mais conversadoras e retrógradas junto com o poder judiciário (que logo em seguida ao impeachment obteve reajuste de 41,4% dos salários que vale frisar são os mais altos do funcionalismo público, veja aqui). Tudo isso somado às diversas outras questões que seria impossível nomear aqui forçam a esquerda eticamente a ser reinventar! Reinventar ideologicamente, e aqui concordo com Negri ao pontuar o fim de uma esquerda socialista e reconhecer que a dinâmica do mundo contemporâneo vai muito além de uma polaridade entre classes e reconhecendo que o projeto socialista durou o que tinha que durar diante das amarras e das forças globais do capitalismo. É claro, que isso não significa que não haverá mais lutas de classe, de dominação e etc., mas que a dinâmica política não flui somente neste eixo! Reinventar-se no sentido também das assimetrias de gênero e sexualidade tendo em vista que há setores da esquerda absolutamente conservadores, machistas e homo-transfóbicos.   Reinventar-se em suas dinâmicas econômicas e aqui reconheço o quão denso isto é. Primeiro porque a lógica de mercado é extremamente dinâmica e assimétrica, depois porque o "mercado" ainda está nas mãos de poucos o que dificulta a aposta socialista da esquerda. É necessário pensar sobre esse ponto tendo em vista a própria experiência de alianças que o PT estabeleceu e o levou à ruína! Por outro lado, projetos sociais como os efetivados pelo governo do eterno presidente Lula foram extremamente bem sucedidos e retirou da linha de pobreza extrema milhões de pessoas!

Enfim, não acredito que a esquerda tenha "acabado" ou sido destruída como puder ler em alguns sites da direita. Houve sim uma derrota expressiva do projeto político da esquerda, mas só o tempo nos dirá os rumos que devemos tomar, neste ponto resgato sutilmente a fala de Peter Pál Pelbart sobre o tempo e acrescento que o tempo carregar em si um dispositivo micropolítico que fará frente à macropolítica conservadora e retrograda por hora em voga. Talvez levemos cerca de uma década para assimilar os efeitos dessa "nova"-velha política que ao meu ver nada mais é que um projeto de resgate colonial extremamente danoso. Um ponto no entanto deve ser imediatamente revisto, a força do poder judiciário de legislar não só sobre nossas vidas e corpos, mas assumir papel de destaque na dinâmica política. Não significa extinguir o judiciário, mas reavaliar os privilégios e poderes excessivos de juízes, promotores e desembargadores, afinal deveria valer aquela velha máxima "somos todos igual perante a lei".

Por fim, as próximas eleições são importantíssimas e a esquerda precisa se atinar para isso. Elegeremos deputados federais, senadores e presidente. O rumo do país dependerá da composição da Camara e do Senado, se elegermos os mesmos atores pouca coisa ou nada irá mudar! Efetivamente é importantíssimo que os partidos de esquerda busquem novas táticas discursivas e outros modos de operar porque a direita está com a faca e o queijo nas mãos!   

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