segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Em nome de Carol, Dandara e muitas outras; eu sigo lutando!

Eu tinha prometido a mim mesma nunca mais tocar nesse assunto e tinha decidido viver na total "clandestinidade" afim e preservar minha sanidade mental, mas me sinto obrigada a escrever e narrar sobre coisas que ainda mexem comigo profundamente. Não posso sucumbir aos privilégios de ser quem sou agora e ignorar as vidas de minhas irmãs. Hoje, dia 29 de janeiro de 2018 - dia da visibilidade trans -, tenho visto algumas manifestações nas redes sociais e pensado o quanto a luta por direitos no Brasil é importante. Muito embora estejamos atravessando tempos obscuros do ponto de vista das relações democráticas, políticas e subjetivas, a luta pelos direitos de mulheres e homens transexuais* tem se mostrado cada vez mais coerente com seus objetivos iniciais: a luta por cidadania.

Isso imediatamente me remete à Carol. Carol, foi minha primeira amiga trans. Foi com Carol que aprendi como brigar pelas coisas nas quais eu acredito, foi ela quem me mostrou que valia a pena lutar para ser quem se é, mesmo que os perigos nos assombrem em cada esquina. Infelizmente Carol não teve a mesma sorte que eu. Sim, porque às vezes na vida de uma pessoa trans, a sorte é a única forma de escapar da morte ou de um futuro resignado à miséria e à abjeção social. Carol, assim como eu, veio de uma família muito pobre do subúrbio do Rio de Janeiro. Aos 12 anos de idade foi expulsa de casa; "me bateram tanto que eu mal conseguia me arrastar, eu pensei que ia morrer. Me jogaram na rua feito bicho", comentou certa vez comigo enquanto eu pintava suas unhas de rosa, sua cor favorita. Diante de tal destino, muito comum a milhares e milhares de pessoas trans Brasil afora, não lhe restou outra alternativa que não fosse abandonar os estudos e se prostituir. "Caí na vida pouco tempo depois. O "aqué" (dinheiro) que ganhava mal dava para a Mesigyna", dizia com um sorriso nos lábios e uma profunda tristeza no olhar. Carol era super vaidosa e aos quinze anos de idade tinha um corpo lindo de mulher vivida, graças à bomba (silicone industrial) no seios, quadril que lhe causava eventualmente algumas dores. "Linda e feminina", era como Carol se definia e sua pele só era "lisa e aveludada", segundo ela, graças à Mesygina, que na sua opinião era "o melhor hormônio de todos" (sic). Eu ouvia as histórias de Carol e compartilhava com ela as dores do que era ser uma adolescente trans no Brasil. Embora fosse muito pobre eu não conseguia ter a mesma coragem em me prostituir, é que eu tinha uma certa relação de privação com meu corpo, enfim, história para um outro momento.
Carol me dava dicas de beleza e sempre me pagava "um podrão" (lanche de rua) antes de ir para o batente que às vezes era em Campo Grande, às vezes na Avenida Brasil e outras tantas em Jacarepaguá. Ríamos e sonhávamos juntas, queríamos ter uma casa grande, um marido bonito e dois filhos cada, também um carro e um cachorro. Eu sonhava em ser jogadora de vôlei, Carol queria ser modelo. Nos falávamos quase todos os dias e ríamos das histórias das "mariconas viciosas" (homens que procuram travestis para sexo gratuito) que ela contava.

Certo dia, no entanto, Carol não atendeu meu telefonema. Nem no dia seguinte e nem depois. Preocupada e com saudade, decidi ir até sua casa numa das regiões da Cidade de Deus, uma favela carioca. Gritei no portão até aparecer uma travesti alta escovando sua peruca e aparentando ter cerca de 30 anos mais ou menos. Perguntei por Carol: "ih, mona, não tá sabendo, não? Ela levou um tiro na cara na Avenida Brasil dias atrás, um carro passou atirando", disse com toda a naturalidade de quem já estava acostumada com esse tipo de violência, pior, como alguém que já estivesse acostumada a perder as pessoas ao redor. Eu gelei e não consegui segurar as lágrimas. Não tem um só dia em que eu não pense na Carol, não tem um único dia da minha vida em que eu não me pego imaginando como foi o enterro como indigente dela. Quando Carol morreu, aos quinze anos, um pedaço de mim morreu junto. Gostaria de ter me despedido de minha amiga de maneira digna. Gostaria de ter tido a oportunidade de dizer o quanto ela foi importante para mim e o quanto ela me faz falta. Gostaria que ela estivesse viva e pudesse ter participado do meu findo casamento, gostaria de ter celebrado com ela a conquista da minha cirurgia, de poder compartilhar minha alegria, falar sobre minhas viagens e meus estudos, gostaria de levar-la para passear no meu carro. Eu gostaria que Carol tivesse a mesma sorte e chance que eu tive. Eu queria que a Carol pudesse ter tido a chance de retificar seu nome e desse modo, quando morresse, velhinha, pudesse ter sido enterrada de forma digna e respeitosa. Eu queria que ela pudesse chegar num hospital e fosse tratada de maneira humana, que pudesse pleitear qualquer vaga de emprego sem que sua condição de gênero fosse um empecilho. Ah, como eu queria que ela pudesse fazer faculdade e falar muitas línguas, como diversas vezes havia confessado a mim seu desejo em "ser inteligente". Mas sua vida e seus sonhos foram extirpados violentamente e seu corpo ficou jogado no chão, inerte à mercê dos curiosos, daquelas mesmas pessoas que ignoraram sua existência, mas espetacularizam sua morte.

Infelizmente no Brasil existem muitas Caróis. Praticamente todos os dias recebemos noticias que pessoas trans foram assassinadas com requintes de crueldade. Algumas foram mortas com tiros no rosto, outras foram fuziladas, outras perseguidas e esfaqueadas, outras apadrejadas, outras esmagadas por carros que passaram por cima delas muitas vezes para se certificarem de que estavam mortas. Nas esquinas das ruas, os corpos volumosos dessas mulheres valem alguns poucos trocados, na sociedade "de bem" não vale nada. Elas mal podem transitar tranquilamente durante o dia sem ser vítimas de insultos, agressões e chacotas. Esse é um privilégio que eu conquistei e que me garante a possibilidade de viver, de ir e vir, a "passibilidade" - a condição de ser lida como uma mulher cis, ou seja, aquela que nasceu com vagina e se identifica enquanto mulher - me traz paz e a possibilidade de estudar, trabalhar ou ainda me relacionar afetivamente com os homens. Socialmente eu posso ser considerada "completa", internamente eu me sinto dilacerada. Dilacerada porque ainda não sei lidar com a perda de pessoas que desde muito cedo enfrentam na pele as desigualdades sociais, de gênero, políticas e econômicas. Não sei lidar com noticias como as do caso de Dandara dos Santos (1), morta com extremo requinte de crueldade e exposta nas redes sociais de forma escandalosa e ultrajante fazendo surgir milhares de comentários FELIZES porque "mais um verme foi morto" (sic), eu não tenho mais forças para lidar com essas dores. Por mais que eu viva plenamente, todo dia eu tenho morrido um pouco junto de milhares de outras mulheres trans no Brasil, o país mais violento para uma pessoas trans no mundo (2). Mortes em vida, mas sem dignidade na morte.

Mas se engana quem acredita que a violência se restrinja somente à agressão física e verbal, a violência simbólica é rotineira na vida de uma pessoas trans. Seja nas redes sociais, numa entrevista de emprego, numa lanchonete ou mesmo no exercício de sua profissão, seja ela qual for. Mais recentemente tenho acompanhado estarrecida o caso da jogadora de vôlei Tiffany. Tiffany vem sendo vítima do ódio de "gente de bem" que em nome do conservadorismo cristão, de um dualismo arcaico e de retóricas questionáveis tentam desestabiliza-la e jogarem ao ostracismo e ao lugar periférico e subalternamente histórico que milhares de outras mulheres trans foram/são compulsoriamente empurradas. Inevitavelmente sou forçada a lembrar dos medíocres com quem tive  o desprazer de conviver durante a graduação e os quais tentaram a todo custo me eliminar do espaço acadêmico, professores e alunos que se reuniram para fazer um abaixo-assinado tentando me impedir de usar, por exemplo, o banheiro. Não lograram êxito porque Carol me ensinou como deveria lutar e com sua força imanente lutei bravamente e me graduei como a aluna de melhor desempenho acadêmico do meu curso.

O dia da visibilidade trans é todo dia, ele acontece no exercício de nossas pulsões de vida. Nas micropolíticas do grito, nas esquinas da vida, nas escolas, nos hospitais, nos tribunais, nos mercados... Em nome de Carol, de Dandara e de milhões e milhões de outras! Uni-vos todos em prol dos direitos e da cidadania trans.

* O termo transexuais aqui opera como "termo guarda-chuva" abraçando toda e qualquer manifestação de gênero.
(1) Dandara dos Santos foi violentamente torturada até a morte única e exclusivamente por ser travesti. Seus carrascos não satisfeitos e tê-la tirado a vida, filmaram todo processo de tortura e expuseram os videos nas redes sociais convocando indiretamente o ódio e a comoção de milhares de pessoas. Ver aqui http://g1.globo.com/ceara/noticia/2017/03/apos-agressao-dandara-foi-morta-com-tiro-diz-secretario-andre-costa.html. Ainda hoje os videos da morte de Dandara circulam livremente pela internet
(2) De acordo com o "Projeto de Monitoramento do Assassinato de Pessoas Trans" da ONG "Transgender Europe" (https://tgeu.org) o Brasil é o país mais hostil no planeta para uma mulher trans. Segundo o último relatório da ONG nós lidamos ao fático ranking anual de país onde mais pessoas trans foram assassinadas.

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