O pós-colonial é uma perversão: como enfrentar dispositivos de aniquilação das alteridades (um breve caso das prisões)
Algumas observações sobre alguns dispositivos que venho me deparando durante uma pesquisa em curso na qual estou ajudando a compor sobre a questão das pessoas LGBT nas prisões:
1. Fala-se muito em HSH mas pouco ou quase nada em MSM (ou pelo menos disfarça-se seu conteúdo e abordam tudo sob a tutela da "política de lesbianidade" nas cadeias);
2. Apesar dos esforços e do ridículo e risível "progresso" no que se refere às necessidades das pessoas trans, esse grupo continua sendo o mais violentado no conjunto das pessoas em privação de liberdade;
3. há um profundo desconhecimento em relação à intersexualidade e uma densa dificuldade no acolhimento das pessoas bissexuais. A tal ponto de total apagamento dessas siglas.
4. As políticas de promoção de direitos esbarram diretamente na burocracia estatal e são muitas vezes anuladas/aniquiladas por discursos e pra ticas conservadoras extremamente perversas;
5. A negação de que as identidades LGBT existam em espaços prisionais específicos é uma perversa e poderosa ficção que contribui drasticamente para a promoção de inúmeras violações e perpetuação das discriminações;
6. (Um tanto óbvio, mas...) o modelo de prisão em voga no Brasil está muito distante de um sistema de reabilitação social das pessoas privadas de liberdade, onde a própria liberdade deve ser encarada não como mecanismo de processos democráticos, mas sobretudo como conceito em sua própria dobra, ou seja, é preciso reconhecer que há muitas prisões fora da prisão (sobretudo no que diz respeito às identidades LGBT e povos pretos, indígenas e racializados). Além disso, as superlotações demostram o quanto tal modelo é falido em sua própria essência;
7. Por fim, mas não menos chocante, é a constatação - no caso Latino Americano em específico - da herança maldita que os processos de colonização (que são multidimensionais) deixaram como paradigma de poder e assimetria social tendo na raça seu dispositivo fundante e altericida. O pós-colonial é uma ficção moderna e uma romantização da violência histórica e estrutural que a América Latina e a África foram submetidas.
Tal pesquisa continua em curso, mas tais dispositivos têm me provocado arrepios e senti que era preciso compartilhar a fim de promover uma reflexão mais ampla.
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