Tiraram tudo de mim, menos os meus sonhos...

Noite passada, cansada, eu deitei na cama e me peguei observando o teto.
Aquela brancura funcionou como uma espécie de transporte entre os tempos: passado, presente e futuro disputam forças sobre o meu corpo estirado na cama, um corpo observante do branco teto.

A sensação é que tinha sido arremessada no interior de um buraco de minhoca e, assim, meu corpo - o corpo trans preto favelado - se conectava, ou se fragmentava, entre distintas mas conexas dimensões do tempo e do espaço.

Aportei minhas memórias, de maneira breve e relutante, na infância que jamais tive.
Quando eu levantei da cama, meu corpo estava menor, mais magro, meu cabelos encaracolados sacolejavam à medida em que eu corria pelos corredores da casa imaginária em busca de papai e mamãe. Era uma menina com seus sete anos de idade que carregava Feio, seu ursinho de pelúcia, nos braços; a imagem da imaculada infância tão romantizada no Brasil. Encontrei papai e mamãe na cozinha onde, numa deliciosa manhã de domingo, preparavam a cesta do picnic que faríamos em poucas horas no jardim da casa. Havia uma paz imensa. Havia amores imensos sendo compartilhados. A criança, que jamais existiu, estava segura, definitivamente protegida.

Mas foi através de uma "fotografia" esmaecida que aquelas memórias inexistentes se dissolveram e uma violenta onda da rancor tomou conta daquele corpo frágil e supostamente vulnerável. A menina encontrou, caída ao chão, fragmentos de memória, as dobras do real que volta e meia vinham para lhe assombrar. Ela viu uma cena se reproduzir em looping naquela imagem esmaecida: um jovem homem alto tampava sua boca enquanto introduzia os dedos de sua mão direita em seu ânus. A garota, atordoada, viu-se incapaz de reagir. Sentiu-se tonta e desmaiou de medo e dor; uma dor que costurava esses fragmentos de memória na carne e na alma, unindo duas dimensões nisto que chamamos efemeramente de "sociedade democrática de direitos".

Desesperada, a menina despertou dentro de uma geladeira velha, numa casa velha, feia e suja no alto da favela. Com os olhos de desesperança procurava, em prantos, pelos pais que minutos antes preparavam a deliciosa cesta de picnic. Não os encontrou, não havia mais ninguém que pudesse a proteger. Seus olhos haveriam de enfrentar unicamente seu algoz que insistia em tampar-lhe a boca a impedindo de gritar de dor. Aquele homem ressoava continuamente um "mantra" baixinho ao pé de seu ouvido: "se você contar isso a alguém, eu vou te matar". Mas ele não sabia que ela já havia morrido. Já haviam retirado seu mundo ideal, já haviam roubado sua desejante infância jamais vivida.

Alguns corpos tornam-se alvos fáceis nesse mundo que instituiu naquilo que se categoriza como "normal": a tipologia existencial-ontológica da humanidade. O trauma havia formado bloco com as piadas, xingamentos e agressões. Agora ele, o trauma, era fundamentalmente seu fantasma instalado no interior de uma memória que persiste.

A dor me trouxe de volta. Abri os olhos de um breve sonho-pesadelo e novamente encarei o teto branco do mundo. O mundo branco da ciscolonialidade, o mundo branco que dita nossos rumos e institui nossas verdades. Duplamente exausta, me revirei um pouco na cama e tentei pensar outras coisas. Coisas mais amenas, mas foi inútil... com o sono patente me rodeando como lobos rodeiam sua vítima, novamente fui arremessada na ponte Einsten-Rosen e meu corpo literalmente viajou no espaço-tempo. É que o futuro nunca deixou de ser o presente e este jamais pode se desconectar do passado, atravessando os territórios de nosso próprio corpo, mente e experiências na medida em que nos movemos pelo mundo com suas ficções de poder, aquilo que multiplica as dimensões do real.

Acordei em algum momento da década de 1990. Meu corpo parecia que havia saído de uma guerra. Relutante levantei e fui ao banheiro para jogar água no rosto e tentar recuperar um pouco de dignidade. A sensação que tive, no entanto, foi avassaladora, minhas mãos estavam menores, meu rosto chupado e magro denunciavam a crise depressiva em que me encontrava. Eu tinha dez anos de idade. Fui à cozinha daquele lugar que ainda não consegui identificar e peguei um pedaço de pão dormido e o comi sem perceber que ele estava mofado. O sabor amargo do mofo não me impediu de o mastigar vorazmente; eu sentia uma fome brutal. Fixado à parede daquele casebre havia um bilhete que dizia: "há dez dias atrás você fez dez anos e hoje é o dia da sua morte! Com carinho, mundo.".

Impressionantemente não me assustei. Até aquele momento eu já havia morrido muitas e infinitas vezes. Em certa medida, eu já havia me acostumado com a morte e, é possível dizer, a morte gostava de mim pois ela jamais deixou de rodear. O que aconteceu em seguida ainda é profundamente difícil de narrar, há detalhes dessa história que eu ainda não consigo aceitar e nem tão pouco consigo lidar cognitiva e emocionalmente, mas contarei apenas algumas partes que, com o tempo, fui sendo capaz de negociar com meu sofrimento.

Eu saí daquele lugar estranho e peguei o 711 rumo à Vila Olímpica da Mangueira. Eu usava a blusa de uma escola municipal cujo tamanho "p" mais parecia "g", dado a magreza daquele corpo infantil cuja infância vinha sendo fraturada desde os quatro anos. Em algum momento após deixar o lugar, recolho cartões telefônicos na rua, o colecionismo desses objetos era comum à época. Enquanto me abaixava para pegar um cartão, ouço a voz de um homem cujo rosto não conseguia ver: era apenas um corpo sem rosto, mas com muitos órgãos. Algo antropomorfo, homem-animal simultaneamente. Bonecas, kits de maquiagem, jogos de quebra-cabeça... tudo isso passaram a compor e povoar aquela distópica paisagem. Um frio na barriga e um aperto no peito anunciavam que algo perigoso estava por vir e isso seria minha marca de morte pelo resto da vida, ou melhor, pela resto da morta vida assombrada pelos ecos da morte que se inscreveram na eternidade daquele corpo menina-menino.

O homem retirou a roupa e eu comecei a chorar. Tentei correr, mas levei uma banda e caí de cara no chão. Desesperada comecei a conclamar fervorosamente o nome de Deus, a única entidade capaz de me salvar; pelo menos era isso no que minha intuição me fez acreditar. Gritei tão alto que a vibração do som da minha voz irritou o homem que me desferiu uma tapa na cara e, em seguida, me levantou pelos braços como se levanta um copo descartável e me arrasou sobre um colchão velho, imundo e fedorento. O cheiro daquele colchão e daquele lugar eu jamais fui capaz de esquecer, sinto ele todos os dias e o sentirei futuro adentro. O homem nu, com seu penis ereto regozijando alegria através do sofrimento daquela criança-aniquilada, tapou me a boca com uma das mãos e, não sei como, cuspiu em meu meu ânus, e enquanto me aplicava um mata-leão passou a me penetrar violentamente.

Eu não consegui resistir a dor. Minha mente desesperada tentou me preservar daquele sofrimento e passou a desfragmentar-se em diversos átomos de memória deixando-me em um estado de "dormência", mas uma dormência-demência cognitiva que não me impedia de sentir a dor dilacerante. Eu senti o calor do sangue que, como fogo, queimava minha pele enquanto escorria pelas minhas pernas. De repente o homem começar a urrar e interrompe os movimentos. Eu estava viva?

Eu não lembro quanto tempo durou aquela tortura. Eu não lembro o que senti depois além do medo. Eu não lembro quando foi que minha carne parou de tremer. Eu não lembro se eu fui capaz de falar mais nada a não ser chorar copiosamente por horas a fio. Chorei por dias. Tenho chorado por anos. Chorarei até que meu corpo vire pó. Aquele dia eu perdi muito mais que o fragmento de  infância não vivida, e eu ainda se quer sou capaz de narrar todos os desdobramentos disso: não resistiria. Há coisas que precisam se manter em segredo.

Me tiraram a infância de inúmeras formas, mas aquele corpo magro persistia entre os cacos da memória e do desejo incomensurável de Ser. Fui arremessada de volta ao quarto, ao meu quarto de 2019, e lá estava o teto branco do mundo me encarando. Exausta, levanto cambaleante e sigo para a cozinha em busca de um copo de água. Com o copo entre as mãos, sento na poltrona da sala e faço uma oração: apesar de tudo nunca perdi a fé. Eram quatro horas da manhã. Ligo a TV e passo a assistir O pequeno príncipe. Imediatamente sou reconduzida de volta ao sono e sonho insistentemente com a infância que poderia ter vivido. Sonho com uma adolescência que poderia ter experimentado, mas jamais fui autorizada. Fui forçada a crescer antes do tempo.

Agora é tempo de plantar sementes para o futuro que já chegou. O futuro que busca apagar os traumas vividos na escola, na faculdade, no trabalho, no sociedade democrática de direitos.... na vida que inventaram e me impuseram.

Sinto vontade de dançar na chuva ou de rir de uma bobagem.
Sinto vontade de tomar um sorvete enquanto observo o sol se por ao lado do meu primeiro namorado e nossas bicletas.
Sinto vontade de cantar uma música de karaokê e usar shortinho para ir à padaria.
Sinto vontade de beijar o menino que me escreveu um bilhete de amor na escola....

Eu tenho sonhado com coisas que só o futuro pode me dar.
Eu tenho sonhado com coisas que o passado me retirou e eu jamais poderei experimentar pois o tempo daquele corpo-infantil cessou e sucumbiu a inexistência.
Eu tenho sonhado com coisas que o presente vem buscando reproduzir como estratégia terapêutica nas produções de autocuidado.

É que quando se é a invenção do mundo, tentam te retirar inclusive a possibilidade de sonhar. Mesmo eu sendo a dobra da fratura na dobra do real - o corpo preto-trans favelado - este corpo-sonho-fragmento vem operando um devir, uma linha de fuga que é antes de tudo uma desobediência epistemológica. Uma negação reativa ao mundo ciscolonial.
Eu sigo sonhando entre os cacos do mundo: o futuro é nosso. o futuro é feminino. Ela há de Ser!

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