A bela flor asiática
Há encontros na vida que definitivamente nos sacodem. A amizade possui essa força sísmica. Meu encontro com Jaya, uma mulher das Filipinas, tem um pouco disso. Um pouco dessa beleza da amizade que marca nossas peles. Jaya esteve no Rio de Janeiro para uma série de atividades de seu pós-doc e nos encontramos meio ao acaso durante uma palestra que participei no Galpão Bela Maré. Ficamos amigas e eu decidi escrever esse pequeno poema quando de sua partida. Compartilho abaixo.
A bela flor asiática
A mais bela das flores asiáticas
Nasceu e cresceu em solo carioca
Timidamente, despertou meio ao carisma e o sol brasileiro
Ah, quanta beleza havia em seu sorriso...
Como toda flor,
Possuía um delicioso aroma.
Às vezes Jaya-jasmin, o nome da bela flor asiática, encantava com seu cheiro-amor
Outras tantas vezes Jaya-amor, aquecia os corações das outras flores com seu cheiro-afeto.
A destemida flor não se deixou dominar pelo medo.
Desbravou os quatro cantos da cidade.
Iluminou a favela com seu sorriso, com seu radiante sorriso.
Manteve a ternura, que só as flores têm, diante de um taxista “espertalhão”.
Caminhou pelo centro da cidade, com toda elegância e delicadeza de uma bela e única flor,
Enquanto não se deixava abater pelo assédio.
Com sua beleza e altivez seguiu sorridente futuro adentro;
A flor-poderosa tinha o poder do carisma e dele fez sua arma.
A flor-ternura fez amigos.
A flor-desejo criou amores platônicos.
A flor-encanto beijou um motorista de Uber.
A flor-alegria dançou o quadradinho na Pedra do Sal.
Ah... que bela flor que agora há de partir carregando consigo um pedacinho do Rio,
Enquanto o Rio emoldura a imagem da mais bela das flores asiáticas em sua paisagem.
É que tanto a flor quanto o Rio se fundiram.
Por um instante foram uma só e a mesma coisa.
Havia tanto amor no olhar da flor para o Rio, tanta paixão, tanta vontade sentir o Rio navegar pela sua alma...
o Rio disse: tome aqui um bocado desse amor que me emana, minha bela e perfumada flor.
Numa tarde de outono,
A flor seguiu rumo ao Engenho da Rainha.
O bairro, onde diz a lenda, a Rainha possuía um engenho.
Era uma tarde de leve sol,
uma discreta brisa afagava o rosto da flor à medida em que ela caminhava em silencio rua adentro.
Estava pensativa, deslumbrante em seu vestido longo e sua sacola na mão.
Foi no Engenho da Rainha onde a flor virou rainha.
Foi no Engenho da Rainha que a flor desabrochou.
No fundo, ela já havia desabrochado há muito tempo.
Tudo que faltava era um gesto “químico” para que sua natureza resplandecesse sua mais íntima verdade:
A flor-mulher abriu-se tal qual nuvens cinzas por vezes abrem e revelam o céu azul e o sol brilhante lá longe.
E brilhou! Como brilhou os olhos da mais bela das flores asiáticas...
Agora é hora de sair do casulo e voar.
Voar ainda mais alto do que já voa.
A flor-borboleta está pronta pro mundo enquanto o mundo se prepara para o voô da borboleta-flor
Da janela do meu quarto,
Toda vez que eu olhar para o horizonte,
Lembrarei da luz do seu sorriso...
Quanta ternura pode haver numa só flor?
Na flor-ternura não limites para o afeto
As conexões se dão por via do amor, da irmandade...
Sentirei sua falta, bela flor asiática.
Sentirei sua falta, bela flor-Jaya.
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