Eu fiz um pacto de não adoecer
Só eu sei o quanto isso tem me custado.
Eu jurei que não cairia de joelhos frente às forças reativas que vêm nos traumatizando
dia após dia...
Ano após ano...
Década após década...
Século após século...
Eu fiz um pacto comigo mesma que não iria mais adoecer
Custe o que custar, mas eu não vou adoecer.
Jota Mombaça disse que o mundo é seu trauma. É o trauma de uma matilha.
Eu sou parte dessa matilha.
Se o mundo é meu trauma, pois muito bem: eu faço questão de ser seu assombro.
Eu faço questão de revirá-lo ao avesso, de reclamar o que é meu por direito:
Eu sou um fantasma do apocalipse.
Se o mundo me traumatiza, talvez eu tenha a obrigação de anunciar seu fim.
Eu não sou maior do que meu trauma. Mas eu carrego na minha carne o sopro e a potência do assombro: a força molecular intensiva que desestabiliza a paisagem ciscentrada.
Eu como carne de gente.
Eu grito se for preciso, mas eu quero o que é meu por direito: assombrar as forças moventes do mundo.
Anunciar seu fim.
Eu, Jota, Estamira e toda matilha que balançou segundo os movimentos traumatizantes da grande razão humanística (incluindo nossos antepassados), somos os anjos do apocalipse.
Anjos pretos de um mundo em ruínas.
Ailton Krenak disse (e me fez chorar) o seguinte:
"Imersos nesse pensamento ocidental.
Imersos nesse imenso campo de ideias que o ocidente derrama sobre si mesmo,
numa potência incomparável de se produzir.
E, quase que bloqueados da possibilidade de olhar além da nuvens [...].
O que é essa Gaia? O que é esse organismo que nós compartilhamos?
[...] tem pedaços do nosso mundo que já morreu, nós fazemos profecias sobre uma possível queda do céu, mas muitos pedaços desse céu já caiu. E, em alguns casos, caiu em série sobre grandes regiões de nosso planeta. E [grifo meu] Causou mudanças enormes em nossa perspectiva em uma humanidade.
Mas nós estamos permitindo, de alguma maneira, que se constitua um tipo de poder inacessível - que nós não tocamos, que não nos toca - e que continua dando a dinâmica dos processos que derrubam o céu. Que derrubam os céus sobre as nossas cabeças. Alguns de nós, por sua origem, por sua herança cultural, pelo que o aprendeu com seus antepassados, continuam dançando para suspender o céu. [...] O que nós fazemos? Nós estamos adiando o fim de algum mundo. [...] Eu, sinceramente, não entendo porque é que as pessoas querem adiar o fim do mundo. Se todos os sinais que nós temos indicam que nós não conseguimos dar conta de cuidar desse jardim. Se todas as últimas notícias que nós temos é que nós estamos administrando muito mal o negócio, por que é que nós queremos adiar o fim do mundo [grifo meu]? A gente podia pelo menos ter coragem de admitir o fim deste mundo, e ver se somos capazes de aprender alguma coisa. E, se tivermos outra oportunidade, de ver como que nós vamos nos portar num possível outro mundo".
É, meu caros, o mundo tem sistematicamente caído sobre nós.
Estamos nos movendo entre os escombros da memória do que nos resta e o cenário pós apocalíptico daquilo que implodiu.
O mundo não tem mais norte, nem sul. Nem tão pouco leste ou oeste.
Embora essas ideias persistam.
Lutar para come-las, nunca foi tão necessário.
O mundo-caos do que restou é aquilo que precisa urgentemente ser destituído.
Mas uma destituição que passe pela nossa carne.
Uma destituição cujos documentos sejam o cheiro forte de nosso sangue.
O nosso suor azedo após um árduo dia do corpo-mercadoria.
O pacto de não adoecer passa antes de mais nada pela reinvenção do mundo.
Vovó disse, certa vez, que eu era um demônio.
Ela tinha razão, mas eu só descobri isso duas décadas depois.
Ela disse que eu tinha a beleza e a astúcia do capeta e por isso eu voaria muito alto.
Não foi uma ofensa.
Vovó, aquela preta retinta, sabia que se eu não assombrasse o mundo, o mundo me assombraria. E jamais vou esquecer do abraço mais quente que eu já tive na minha vida. Pouco tempo depois, vovó se foi e eu nem pude dizer adeus.
Vovó, eu sinto sua falta e quero que você saiba que aqui estou eu: voando a partir dos cacos do mundo.
Do meu próprio mundo tantas vezes arrancado de mim pelas forças hegemônicas do mundo.
O corpo-assombro dessa racionalidade que marcou à ferro quente a minha carne.
Mas, ainda assim, eu não sou maior que o meu trauma.
Eu não posso ser maior do que meu trauma, muito embora eu sempre tenha desejado SER.
E, por isso, eu fiz um pacto de não adoecer.
Há uma passagem linda, no anti-Édipo, que diz que "é em intensidade que é preciso interpretar tudo".
Para toda preta,
Para toda favelada,
Para toda transexual
Para toda louca do mundo, a interpretação intensiva é a própria experiencia do movimento do corpo in-mundo.
É na carne onde as intensidades manifestam seu desejo de não adoecer.
Precisamos não adoecer porque se adoecermos o mundo pára. Mas então, se adoecêssemos, deixaríamos de adiar o fim do mundo? Não! Daríamos àqueles que combinaram de nos matar, como diz Conceição Evaristo, a vitória e o completo domínio sobre essa entidade "mítica" (quase xamânica) que eles chamam de "alteridade". Mal sabem eles que, além de combinarmos que não iríamos morrer, seríamos as cavalheiras do fim do mundo que eles inventaram.
Nós fizemos um pacto coletivo de não adoecer.
Recentemente eu saí de uma mais agudas crises depressivas das minhas três décadas em Gaia.
Eu aprendi com a Estamira que "a minha depressão não tem cura".
Não tem cura porque a luta com o mundo em ruínas ainda não cessou.
Talvez não cesse nunca.
A paz é a mais intensa das utopias no corpo-inmundo-colonial.
Mas adoecer não é mais uma opção.
Fanon disse que há muito o grito não faz mais parte da sua vida.
Eu, ao contrário, grito ao mundo: eu não vou mais adoecer!
Esse é o maior ataque que eu posso desferir contra sua face.
Eu senti raiva, ódio, rancor do mundo.
Desejei esmaga-lo com as minhas mãos.
Eu surtei tantas vezes.
Gritavam-me louca, desequilibrada!
Eu não percebia que era isso que eles queriam.
Era como se minha carne estivesse banhada no caldo dócil do mundo.
Diziam assim "você exagera demais", "não precisa disso" enquanto singulares processos de solidão marcavam o limite da minha existência.
Uma solidão compulsória:
Eu senti raiva, ódio, rancor do mundo.
Desejei esmaga-lo com as minhas mãos.
Eu surtei tantas vezes.
Gritavam-me louca, desequilibrada!
Eu não percebia que era isso que eles queriam.
Era como se minha carne estivesse banhada no caldo dócil do mundo.
Diziam assim "você exagera demais", "não precisa disso" enquanto singulares processos de solidão marcavam o limite da minha existência.
Uma solidão compulsória:
O mundo-prisão fazia a faca cortar em mim
Eu surfei na onda do ódio. Eu quase morri. Senti meu peito apertar. Sufoquei.
Eu somatizei o mundo enquanto o mundo se movia em mim.
Eu percebi que eu tinha que fazer algo por mim.
Com a mão direita pingando de sangue - dos murros que dei na parede -,
Eu, de joelhos, em prantos, desesperada, as apoiei no chão e conjurei o fim do mundo
Havia um silencio só rompido pelo tilintar dos meus ossos e pela minha conjuração:
EU NÃO VOU MAIS ADOECER!
Eu surfei na onda do ódio. Eu quase morri. Senti meu peito apertar. Sufoquei.
Eu somatizei o mundo enquanto o mundo se movia em mim.
Eu percebi que eu tinha que fazer algo por mim.
Com a mão direita pingando de sangue - dos murros que dei na parede -,
Eu, de joelhos, em prantos, desesperada, as apoiei no chão e conjurei o fim do mundo
Havia um silencio só rompido pelo tilintar dos meus ossos e pela minha conjuração:
EU NÃO VOU MAIS ADOECER!
Disseram-me certa vez, na faculdade, que eu não sabia escrever.
Que eu não tinha qualquer talento.
Hoje, entre as ruínas das memórias de um mundo colapsado, eu entendo o porquê.
É que eu sempre escrevi das beiras para a beira do mundo.
E é na potência dessa beira do mundo onde eu ratifico o meu pacto de não adoecer.
É a partir das feridas abertas que me restam, e que se tornaram crônicas, que eu digo:
EU FIZ UM PACTO DE NÃO ADOECER.
E esse pacto é um pacto de sangue.
É a partir das feridas abertas que me restam, e que se tornaram crônicas, que eu digo:
EU FIZ UM PACTO DE NÃO ADOECER.
E esse pacto é um pacto de sangue.

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