ENTRE O VISÍVEL E O INVISÍVEL: sobre corpos limiares, (trans)fronteiras e a (in)dizibilidade de alguns modos de existir
Esse texto nasceu a partir de um convite da jovem artista Agrippina, quando da ocasião do encerramento de uma exposição na qual ela foi curadora. Essa exposição foi significativa pois, pela primeira vez na história deste país, tivemos uma mostra onde todos os artistas eram pessoas trans e a curadoria fora produzida por uma mulher trans. Entretanto, dias antes do evento eu fui literalmente sacudida por intensos afetos, a partir de duas performances brilhantes realizadas por Michelli Mattiuzzi e Miro Spinelli, os quais eu sentia que precisava verbalizar de algum modo. Por se tratar de uma exposição única e, de algum modo, estarmos falando sobre conjurações do fim do mundo, decidi que era preciso falar durante aquele momento também sobre as performances. É que na verdade eu enxerguei, entre os trabalhos, um comum: o desejo imanente de produzir um visível para além daquilo que foi inventado. Ontem, depois de sair de encontros muito intensos - incluindo uma mesa com a querida Fátima Lima e a Musa Michelli Mattiuzzi - decidi que deveria retomar de algum modo esse texto e torna-lo público. Segue.
ENTRE O VÍSÍVEL E O INVISÍVEL
(Palestra proferida em 27 de julho de 2018 na Galeria Oriente, Rio de Janeiro).
Como ver o que nos olha? Essa pergunta cuja resposta poderia supor imediatamente uma série inconclusiva de respostas, respostas estas atravessadas por muitas forças, esconde uma complexa trama cujo fio da meada talvez resida em tudo aquilo que não seria concebível enquanto resposta, ou seja, em tudo aquilo que se faz invisível. Ou melhor, a própria invisibilidade do que vemos que, por ser tão visível, tonar-se imediatamente opaco e, deste modo, revela as entranhas daquilo ou daqueles cujo olhar revela assustadoramente suas assimetrias, hipocrisias, normas e regimes. Tento explicar em algumas claquetes a seguir;
Claquete 1
Eram cerca de 23 horas e 48 minutos, do dia 23 de julho de 2018, quando seguíamos eu, Fatima Lima, Amanda Giordano e um amigo delas num taxi rumo ao centro do Rio de Janeiro. No caminho, conversávamos sobre o quão impactante havia sido as performances que tínhamos assistido horas antes no Parque Lage, sobre as quais retomarei mais adiante, quando de repente Fátima, ao se referir à performance de Michelli Mattiuzzi, dispara: “só pode guiar aquele que tá cego”. Tal afirmação me atinge com tamanha força que sinto uma profunda onda vibratória fazendo minha carne tremer. Me arrepiei. Permaneço em silêncio. Não sou capaz de pensar em mais nada, nem mesmo em sua tão profunda e potente afirmação. Só há um vácuo no meu pensamento que insiste por alguns minutos. A conversa continua, mas eu já não era mais a mesma... Eu já havia sido contaminada e arrastada nessa linha de afecto e as forças que a atravessam me conduziram para algum outro lugar além da nebulosa onda vibratória do pensamento. Fugi para um lugar sem nome, não por vontade própria, mas arrastada pelas palavras e pela imagem de Michelli que era a única coisa em movimento na minha carne naquele instante.
Claquete 2
Eu tive um encontro com Agripina em algum momento por volta de 2017. Algum tempo depois reencontrei, no CCBB, milhares de outras muitas outras Agripinas materializadas numa só carne. À época, falávamos sobre seus trabalhos e eu me lembro de ter ficado bastante impressionada com algumas fotografias em que ela costurava sua boca e seu rosto. Havia uma espécie de dobra naquelas obras, algo que não pude notar a princípio – na verdade fora preciso muitos meses para eu finalmente “entender”(?) do que se tratava o trabalho – é que aquelas obras se contorciam em si, flexionando invariavelmente o que é dizível e indizível na mesma medida que articulavam o que é visível e o que é invisível, assim mesmo, simultaneamente, com grande força de desterritorialização que arrancava a norma de si e não pedia passagem para um porvir, um tanto incerto, mas certamente ética e esteticamente potente.
Claquete 3
“Pra que serve uma teoria?” Me questionei durante todo meu mestrado. Um pensamento esquizo me levaria a supor que uma teoria não serve para nada, desde que o nada seja tomado como um plano de imanência. “Não há mais história”, concluí. Explico; é que “não estamos mais lidando com uma coexistência externa num espaço-tempo histórico, mas com uma coexistência intrínseca, uma contemporaneidade de direito num espaço-tempo não histórico. Abandonamos o terreno da história para nos ligarmos ao plano, muito mais instável, dos devires e das potências” (LAPOUJADE, 2015, p.230), é o que o chamo de anacronismo de intensidade dos fluxos indisciplinares. Em linhas gerais, as forças moventes das margens do mundo que rompem a história hegemônica. Isso implica necessariamente dizer que aquilo que não vemos e que não nos olha é também instituinte nos processos de constituição de subjetividade, ou seja, a alteridade menor sempre foi protagonista nos circuitos macropolíticos de produção de mundo. Isso porque micropolítica e macropolítica nunca se dissociam, na mesma medida em que é impossível separar os processos de desterritorialização dos processos de territorialização porvir. Mas que raios tem a ver a teoria? É que a teoria conjectura um mundo, ela cria uma “proto-verdade” que vai “pegar” de acordo com a sua capacidade de aderência, ou seja, a partir dos agenciamentos maquínicos que surgem e que acoplam mundos no mundo. Logo, trata-se de um processo de invenção do mundo e do Outro, permeado por estruturas duais de racionalização que visam separar em regiões geográficas opostas os corpos, as sexualidades, as raças etc.
Passemos assim ao caso “o que vemos, o que nos olha” de Didi-Huberman. Haveria uma tensão entre o que observa e o que é observado, de modo que o observador seria igualmente “rasgado” pelo “olhar” daquilo que se dispõe a contemplar, como um espelho que reflete a imagem que se põe diante de si. O olhar é devolvido e, deste modo, revelaria as entranhas daquilo que o olha. Huberman, estava evidentemente pensando os objetos de arte, eu estou pensando com os DISPOSITIVOS de arte, e Huberman, um universo outro que é permeado pela escuridão e pela impossibilidade de ser ver, portanto, de ser olhado e olhar de volta.
Passemos assim ao caso “o que vemos, o que nos olha” de Didi-Huberman. Haveria uma tensão entre o que observa e o que é observado, de modo que o observador seria igualmente “rasgado” pelo “olhar” daquilo que se dispõe a contemplar, como um espelho que reflete a imagem que se põe diante de si. O olhar é devolvido e, deste modo, revelaria as entranhas daquilo que o olha. Huberman, estava evidentemente pensando os objetos de arte, eu estou pensando com os DISPOSITIVOS de arte, e Huberman, um universo outro que é permeado pela escuridão e pela impossibilidade de ser ver, portanto, de ser olhado e olhar de volta.
Esse mundo aparentemente impossível é, na verdade, o mundo de uma multidão. Uma multidão de corpos “abjetos” cuja dizibilidade da existência é permeada pelas teorias daqueles que julgaram ver, mas não ousaram permitir-lhes dizer, tão pouco ver de volta. Trata-se de uma “história” das lacunas, dos entremeios, daquilo que não foi dito, daquilo que não foi ouvido, daquilo que não pôde retribuir o olhar de seu “olhador” imediato, pois as dinâmicas moventes do mundo hegemônico jamais permitiram. Os tempos são outros, gostem ou não, ainda bem!
Claquete 4
“A retomada da imagem será a presença”. Esse é o pertinente nome da exposição curada por Agrippina, e que contava apenas com artistas trans, que me remete invariavelmente a uma epígrafe encontrada no livro de David Lapoujade, atribuída à Joachim du Bellay, que diz o seguinte: “o que é firme é pelo tempo destruído, e o que foge do tempo oferece resistência”. A presença, aquilo que é imposto assertivamente por Agrippina, é essa fuga do tempo. Um tipo de (re)existência em constante movimento e que vem implodindo, cada vez com mais força, àquilo que emergiu historicamente como uma sólida estrutura que durante muito tempo nos pareceu extremamente rígido, instransponível. Falar da presença implica necessariamente falar da ausência pois a presença não descola da ausência, na mesma medida que a ausência não descola de presença, ou seja, trata-se de uma ausência-presença dos corpos e das subjetividades apropriadas pela lógica humanista, branca, cisheteropatriarcal. Aqui deixo minha ode à Dandara, à Marielle, à Matheusa e muita outras que não estão mais fisicamente presentes, mas sua presença jamais deixará de se fazer potente.
Para um ouvinte pouco atento, poder-se-ia supor que a ausência é o contrário da presença, mas não há aqui uma noção dicotômica, um dualismo eterno e intrínseco às nossas vidas como a racionalidade “humanoiluminista” - o humano demasiado humano - nos fez acreditar mas, trata-se antes, de um agenciamento concreto, ou seja, daquilo que implode em si e revela unicamente as multiplicidades. Um agenciamento é uma unidade mínima conforme apontam Gilles Deleuze e Claire Parnet em Diálogos. Contudo,
ele é sempre instável, sempre à beira de mudar, de se transformar. A razão é simples: é que ele agencia multiplicidades, uma que confere ao agenciamento sua estabilidade relativa, a outra que, ao contrário, o desequilibra, o faz pender e o desterritorializa; uma que se ordena e se organiza de modo molar (macropolítica), outra flutuante e flexível, que corrobora fluxos moleculares, massas fluentes (micropolítica) – ambas inseparáveis. “[T]oda política é ao mesmo tempo macropolítica e micropolítica”, todo agenciamento é um processo de territorilialização e um processo de desterritorialização (LAPOUJADE, 2015, p. 228).
É desse modo, talvez “aberrante”, que estamos todos aqui agora, reunidos numa galeria de arte – um espaço que na linha histórica (linearidade hegemônica) dos eventos serviu como “unidade” de uma organização cispatriarcal eurocentrada, operando seus próprios fluxos de desterritorialização – prestigiando uma jovem artista e curadora trans numa exibição apenas com artistas trans, sendo falada por uma historiadora da arte trans-preta-favelada; pegando onda num fluxo que opera a desterritorialização na desterritorialização, compondo dobra de afeto. Uma dobra que se contorce e retorce trazendo à presença uma explosão de corpos “transviados”, como eixo limiar da existência. Aqui, o que vemos não é o que nos olha; com efeito, trata-se fundamentalmente daquilo que sempre vimos, mas que nós jamais “pudemos” olhar pois aquilo que nos olhou jamais nos conferiu legitimidade. Trata-se, pois, de dizer o indizível, não porque não falamos, mas porque durante muito tempo não foi autorizado que nós nos/vos falássemos. O que estamos presenciando, portanto, é o TRANSbordamento das fronteiras que vimos e, através das quais, sempre fomos olhados, ou seja, não se trata da transexualidade em hipótese alguma, mas sobretudo, e unicamente, da cisgeneridade. De um certo tipo de regime de governamentabilidade (o bi refere-se à um duplo regime de governo que controla, ou quer controlar, as mentes-corpos e as sociedades-políticas), se quisermos trazer o velho Foucault ao debate, que durante muito tempo escamoteou e jogou à claridade da razão a (in)visibilidade dos nossos corpos e com ela toda sua própria dizibilidade. Construíram a retórica sobre os corpos à beira do mundo, sem se dar conta que foram eles quem nos empurrou para esse não-lugar. A alteridade que eles veem é a que sempre os olhou e cujo olhar sempre provocou um desvio. É que eles não suportam serem olhados (e falados) de volta.
Para um ouvinte pouco atento, poder-se-ia supor que a ausência é o contrário da presença, mas não há aqui uma noção dicotômica, um dualismo eterno e intrínseco às nossas vidas como a racionalidade “humanoiluminista” - o humano demasiado humano - nos fez acreditar mas, trata-se antes, de um agenciamento concreto, ou seja, daquilo que implode em si e revela unicamente as multiplicidades. Um agenciamento é uma unidade mínima conforme apontam Gilles Deleuze e Claire Parnet em Diálogos. Contudo,
ele é sempre instável, sempre à beira de mudar, de se transformar. A razão é simples: é que ele agencia multiplicidades, uma que confere ao agenciamento sua estabilidade relativa, a outra que, ao contrário, o desequilibra, o faz pender e o desterritorializa; uma que se ordena e se organiza de modo molar (macropolítica), outra flutuante e flexível, que corrobora fluxos moleculares, massas fluentes (micropolítica) – ambas inseparáveis. “[T]oda política é ao mesmo tempo macropolítica e micropolítica”, todo agenciamento é um processo de territorilialização e um processo de desterritorialização (LAPOUJADE, 2015, p. 228).
É desse modo, talvez “aberrante”, que estamos todos aqui agora, reunidos numa galeria de arte – um espaço que na linha histórica (linearidade hegemônica) dos eventos serviu como “unidade” de uma organização cispatriarcal eurocentrada, operando seus próprios fluxos de desterritorialização – prestigiando uma jovem artista e curadora trans numa exibição apenas com artistas trans, sendo falada por uma historiadora da arte trans-preta-favelada; pegando onda num fluxo que opera a desterritorialização na desterritorialização, compondo dobra de afeto. Uma dobra que se contorce e retorce trazendo à presença uma explosão de corpos “transviados”, como eixo limiar da existência. Aqui, o que vemos não é o que nos olha; com efeito, trata-se fundamentalmente daquilo que sempre vimos, mas que nós jamais “pudemos” olhar pois aquilo que nos olhou jamais nos conferiu legitimidade. Trata-se, pois, de dizer o indizível, não porque não falamos, mas porque durante muito tempo não foi autorizado que nós nos/vos falássemos. O que estamos presenciando, portanto, é o TRANSbordamento das fronteiras que vimos e, através das quais, sempre fomos olhados, ou seja, não se trata da transexualidade em hipótese alguma, mas sobretudo, e unicamente, da cisgeneridade. De um certo tipo de regime de governamentabilidade (o bi refere-se à um duplo regime de governo que controla, ou quer controlar, as mentes-corpos e as sociedades-políticas), se quisermos trazer o velho Foucault ao debate, que durante muito tempo escamoteou e jogou à claridade da razão a (in)visibilidade dos nossos corpos e com ela toda sua própria dizibilidade. Construíram a retórica sobre os corpos à beira do mundo, sem se dar conta que foram eles quem nos empurrou para esse não-lugar. A alteridade que eles veem é a que sempre os olhou e cujo olhar sempre provocou um desvio. É que eles não suportam serem olhados (e falados) de volta.
Claquete 5
Eu cheguei no Rio no domingo, dia 22 de julho de 2018. Havia voado toda a madrugada. “Vim pra ficar”, disse ao telefone a meu amigo Fabrice enquanto aguardava minha bagagem. Ali no aeroporto me dava conta de que momentaneamente vivia num estado de interstício, um limiar entre um mundo que passou e um mundo que ainda estava por surgir e, sobre o qual eu ainda não tinha (ainda não tenho) muita ideia de como começar a tateá-lo. Na segunda-feira, 23 de julho, pela manhã, recebi uma mensagem de voz da Fátima Lima me convidando para ir a dois eventos, absolutamente significativos, naquela mesma noite. O primeiro na Casa das Pretas e o segundo no Parque Lage. Fui ao dois! O que escrevo a partir de agora ainda é muito incipiente pois ainda estou digerindo e experimentando na minha carne o que se passou, como passou e o que arrastou. (Na verdade, ao retomar esse texto quase um ano depois – especificamente em 17 de maio de 2019 -, ainda não terminei de digerir o que passou). Há, no entanto, uma relação direta – multidimensional – com aquilo que Agrippina evoca em “a retomada da imagem será a presença”. Uma indizibilidade que não se afasta em momento algum de sua dizibilidade, uma ausência que não cansa de se reduzir à presença, uma fronteira que não para de produzir vazamentos... tudo ali reunidos e imanente naqueles corpos, no limiar daqueles corpos.
O evento do Parque Lage se chamava Don’t Touch this art e reuniu uma multidão para assistir as performances de Michelli Mattiuzzi e Miro Spinelli que se comunicavam com a escrita de Cíntia Guedes e Camilla Bacellar. Tudo ao mesmo tempo, um diante do outro, um sobre o outro... contorcendo-se coletivamente. Foi lindo. De um lado Michelli performava Merci beaucoup, blanco e de outro Miro ativava sua Gordura trans enquanto Cíntia e Camilla escreviam em grandes folhas, ao chão, a conversa que deveríamos todos ter tido com nossos próprios self (se é que isso existe): uma crítica in mundo do mundo que se materializa nas nossas peles. O corpo sempre se colocou (ou foi colocado?) nesse lugar limite e sempre se deixou vazar (ou foi compulsoriamente vazado?). A imagem de Michelli nua, não revelava sua nudez, mas nos despia imediatamente. Quem estava “nu” ali não era a artista, mas nós, todos nós que tivemos nossas roupas arrancadas com o choque de sua imagem-presença que jamais deixou-se reduzir à mascara de silenciamento da qual ela usava como se uma chupeta fosse. Então começa seu ritual e diversas latas de tinta branca são jogadas sobre aquele corpo preto, e foi assim que a plateia, em sua maioria branca, teve escancarada suas entranhas. O desnudamento da branquidade, e tudo que ela arrasta, foi feito ali de modo forçadamente potente por aquele corpo mulher-preta-clandestino. Miro é gordo, tem barba e tem vagina. Miro é um homem trans gordo. Aquele corpo desconcertava à medida em que se contorcia meio às barras de banha que trabalhavam junto de sua pele e revelavam bem mais que a gordura de um homem trans: revelava a incapacidade que o regime da cisgeneridade instituiu em lidar com a diferença.
É que no fundo, a cisgeneridade jamais considerou sua própria diferença, suas próprias assimetrias, institui-se como a verdade dos corpos e dos gêneros e assim permeou a história até os nossos tempos. É hora, portanto, de destituir a história e arremesá-la no plano dos acontecimentos que não tem um eixo nem vertical (cujo sentido seria a transcendência e a razão), nem no eixo horizontal (cujo sentido seria uma linha de repetição incessante com variações pontuais), mas criar um novo eixo sobre o qual ainda não é possível verbalizar, operando na dobra dos eixos em si, fazendo-as contorcer umas sobre as outras. Implodindo, deste modo, os regimes que consolidaram paradigma pensante.
Assim, é preciso arremessar-se no escuro porque é só lá, sem ver, na irracionalidade dos movimentos, que teremos que usar os sentidos do corpo, todos eles, para nos (re)criar, retirar a antropofagia das mãos de Oswald de Andrade, por mais bem intencionado que este tenha sido, e devolvê-la a quem de direito. A experiência imanente da vida estava ali se contorcendo diante de nossos olhos de maneira devastadoramente linda, feia, cruel, gentil, silenciosa, ruidosa, violenta... Miro expunha não apenas seu corpo trans engordurado multidimensionamente, mas a hipocrisia do outro que fez do corpo de Miro uma alteridade. Ele encarava “de boas” os olhares cujo o encontro dos olhares os faziam desviar dado seu constrangimento, dada sua incapacidade de lidar com “aquilo” que crescia incontrolavelmente diante de nós. Michelle, como uma faca, cortava aqueles presentes e revelava o incomodo que aquele corpo preto “disforme” causava. O abjeto e o desejante em pulsão simultaneamente, fazendo do corpo inventado uma profunda e violenta máquina de guerra.
Miro e Michelli revelavam as entranhas da mediocridade do regime de governamentabilidade engendrado pela cisgeneridade. De um lado um homem trans gordo e de outro uma mulher negra compondo uma máquina de guerra no interior da máquina. As duas performances operavam uma fusão. A fusão de muitos mundos marginais e, assim, revelam as opressões, as angústias, as violências que atravessam esses corpos fazendo ruir os mitos da democracia racial e o mito do homem cordial. Não havia, nem nunca houve, por partes deles um “coitadismo”, mas o convite desejante à luta pela conjuração do fim do mundo.
(In)conclusão
Mas em que propriamente todas essas claquetes se comunicam? É que em cada um desses momentos fica colorido (pois não pode ficar claro) de que estamos vivendo “o tempo dos corpos, das incorporações, das encarnações e reencarnações segundo o ciclo das pretensões do desejo e das posses do prazer” (LAPOUJADE, 2015, p.85), seria preciso, pois, fazer do indizível o dizível dando língua, ou melhor, dando corpo aos corpos que são, foram e serão os verdadeiros protagonistas das histórias dos intervalos, daquilo que foi feito, tornado compulsoriamente invisível meio à visibilidade (à luz da razão) que sempre tilintou e forjou o paradigma do mundo que agora, aparentemente, está em ruínas. É no limiar, na multiplicidade desses corpos que tudo isso se comunica: Agrippina, e todos os trabalhos presentes na exposição, resgata a presença daqueles que foram feito ausentes, Miro e Michelli implodem as fronteiras e disseca a moralidade revelando sua hipocrisia num “simples” gesto de corpo-olhar... tudo isso graças à escuridão que torna o vazio espaço das lacunas, um lugar de produção ética do potente. Destituindo, felizmente, a moral que nos rodeia e, assim, nos faz rexistir à “lucidez” daquilo que aprisionou nossos gêneros, nossos sexos, nossos corpos, que fez da nossa raça uma mercadoria.
A sociologia e sua ideia fluída da contemporaneidade falhou substancialmente em desconsiderar que não há nada de fluído nos mundos constituídos a partir de tais regimes. Ao contrário, há uma fixidez, algo densamente sólido que justamente por não ter a capacidade de ser flexível, está em ruínas. O pensamento da/na modernidade, ao se apoiar exaustivamente na noção de identidade e, deste modo, contribuir para a solidificação de teorias que tem tomado esses corpos como objeto, ignorando sua própria capacidade de se fazer dizer e ver, forja uma estrutura social rígida, densamente atravessada pelo status quo. O corpo é o limiar desses tempos, dessas “abstrações” marginais de realidade e é com ele que seguiremos para novos e outros, milhares de outros, mundos. Como diz a incrível Estamira: “tudo que é imaginário é, tem e existe”.
No espelho de Oxum é também refletido as três dimensões do tempo: passado, presente e futuro. Em todos esses tempos, sobretudo no futuro logo adiante, a força molecular movente são os devires minoritários. Por um mundo preto-trans-gordo e muito mais, sigamos na luta. Sigamos TRANSbordando!
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