Uma foto me trouxe de volta à Terra

Eu vi uma foto.
Uma foto de um amor platônico.
Eu vi uma foto que me fez chorar.

Semanas atrás conversávamos alegremente
Trocávamos longas mensagens.
Tínhamos curiosidade um pelo outro.
Tínhamos desejo um pelo outro?
Que tipo de afeto há entre eu, o celular e minhas projeções?

Semanas atrás fizemos um combinado que nos encontraríamos
Ele disse que voaria ao Rio.
Que isso era missão e trabalho dele.
Afinal, ele queria me encontrar.

Conversámos por meses...
Meses...
Fiz planos.
Me senti insegura.
Me senti poderosa.
Aos poucos os contatos foram reduzindo.
Aos poucos algo tornou o diálogo em monólogo.

Uma foto pode salvar o mundo.
Uma nude pode destruir o mundo.
Nosso contato esfriou.
Não fui eu quem quis...

Eu via uma foto todas as noites.
Eu sonhei, tolamente, diversas noites...
Eu introduzi objetos na minha vagina.
Eu beijei a tela do celular.
Eu agi como uma pessoa apaixonada agiria.

Eu vi uma foto e senti um aperto do peito.
Um peito que anunciava que tinha perdido o que eu jamais tive.
Achei que talvez fosse ético explicar...
Explicar o quê?
Desexplicar o explicável inexplicável.
Desexplícita desexplicação.
Desejei afetá-lo com palavras vazias.

Eu vi uma foto e chorei
Chorei pela perda de algo que eu nunca efetivamente toquei
Toquei abstratamente,
Beijei abstratamente,
Transei abstratamente,
Sofri concretamente.
Entendi, por fim, que tudo o que é abstrato é real.

Eu vi uma foto e minha mente esmaeceu
Não, não foi minha mente, foi a realidade!
Foi a realidade que esmaeceu.
No chão estendia-se a esmaecida realidade:
Aquilo nunca passou de uma aventura que só pode ser experimentada à distância.
Fora dos limites do concreto - da atualização do virtual produzindo real.
No sigilo e anonimato das redes virtuais.
Eu sou uma mulher trans, preta e favelada.
Ele um homem cis europeu, branco e rico.

Era apenas a foto de um amor virtual.
Era apenas uma foto de paixão movida pela curiosidade.
Era apenas uma foto que me fazia contorcer nos fluxos do desejo do (im)possível
A distância que nos separava ia muito além da tela do celular.
Trata-se da distância imposta pelo mundo.
Só há real social, já dizia Rolnik.

Eu vi uma foto...
Uma foto que me trouxe de volta à Terra.
Eu vi uma foto que me trouxe de volta contra a minha vontade.

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