Eu acordo cedo todas as manhãs, mas eu não levanto.

Acordo cedo todas as manhãs. Mas não levanto. Fico na cama presa aos meus pensamentos. Emaranhada à ideias do que eu poderia ter dito, do que eu poderia ter falado. Me pego dispersa olhando para o teto tentando compreender coisas que não sei porquê me vêm à cabeça todas as manhas: como construir estratégias para minar essa coisa que está na presidência? Tenho poder para isso?
Às vezes penso na arte. Para QUEM serve a arte? Como podemos fazer da arte nossa arma? Outras tantas vezes, porém, sou invadida por uma tristeza inominável. "Eu queria escrever um livro", pensei nesta manhã, "um livro sobre arte". Imediatamente, meu fluxos cognitivos me trouxeram inúmeras questões muito maior que eu. Eu talvez não tenha talento suficiente, a maior parte dos meus trabalhos (quase 100% deles) é completamente desconhecida dos outros.
Pouquíssimas vezes me expressei publicamente através da arte. Na verdade, só fiz isso duas vezes com uma performance. Mas eu precisava desesperadamente dar língua àquela força invisível que me consumia de muitos modos diferentes. Hora oscilando entre o potente, hora por aquilo que despontencializa. Eu fiz aquilo porque eu precisava viver! Biofilia é uma terapia em movimento do corpo, com o corpo e para o corpo.
De algum modo, meus pensamentos vem e vão no ritmo da velocidade da luz. É tão difícil captura-los! A velocidade é tão grande que, em momentos de puro devaneio, chego a pensar em mais de uma coisa ao mesmo tempo. Os pensamentos passam da mente à pele, eu os sinto! Mas eles logo vão... 
Daí depois de algum bom tempo eu me levanto, vou para banheiro e lavo o rosto. Olho no espelho e vejo somente a profundidade do meu olhar. Eu converso sozinha com uma entidade que está presa à minha mente, seria meus pensamentos? Não sei, parece tão real. Escuto sua voz, seus conselhos, é como se uma outra pessoa habitasse ao mesmo tempo o meu corpo, mas sou eu quem tem domínio sobre ele.
Normalmente, depois disso tudo, eu vou para o computador revisar as tarefas do dia, as leituras, as escritas, os compromissos (toda a minha agenda está no computador). Abro o noticiário. "A política mainstream dominou as manchetes", penso, e imediatamente chego à conclusão de que não poderia ser diferente. Como dar conta desse tempo que talvez não seja o nosso tempo? E é exatamente isso o que eu sinto e que me angustia profundamente: eu acho que estou vivendo em um tempo que não é o meu tempo. Eu não me sinto parte desse tempo, embora meus pés estejam fincados nesse lodo. Mover-se tem sido muito difícil...
Eu lembro do meu pacto. Eu preciso do meu pacto. Mas ao rolar a página de notícias, depois da política vem a morte, vem a violência... me sinto sufocada. Fecho o computador e pego o livro da Conceição Evaristo, Ponciá Vicêncio. Abro mas não consigo iniciar a leitura. Tarde demais, eu já tinha sido contaminada pelas forças do mundo. "Isso precisa acabar", reflito com profundidade. Mas a grande questão é como fazer tudo isso acabar.
Decido que o melhor a se fazer é o meu tradicional café com leite matinal. Enquanto preparo o café, novamente me pego absorvida pela força do pensamento. Sinto saudade dos beijos matinais do meu ex marido. "Acabou", suspiro meio a dolorosa lembrança. E é assim, me movendo entre os cacos do mundo, que mais um dia se inicia.

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